Mariel Fernandes

Não fazem mais máquinas de escrever como antigamente. Ainda bem

Era 26 de abril de 2011 e imagino a chave girando pela última vez. Por anos, ela permitiu  acesso à linha de produção da Godrej and Boyc. A empresa já teve concorrentes de peso como a IBM, que saiu antes do mercado. E saiu por um motivo simples: não havia mais mercado. As máquinas de escrever ainda resistiram por um tempo na Índia, onde eram comuns. Mas mesmo lá, seu tempo acabou. O ciclo terminou não por falta de qualidade nos equipamentos, nem pela escasez de matéria prima. O que houve, afinal, já que as fábricas garantiam opções para todas as necessidades? E por que foram desaparecendo as escolas que preparam os futuros profissionais para opera-las com agilidade e segurança? Haviam as manuais, muito confiáveis. E – sensação das sensações – as elétricas com corretivo automático. Depois viriam as elétricas portáteis, que pesavam uns 8 quilos.

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Foi em uma delas que Hemingway escreveu “O velho e o Mar”. Mas nem os autores famosos as salvaram. Não fizeram isso porque não podiam: elas tornarm-se obsoletas, desnecessárias, ultrapassadas. É a vida que segue. Algumas fábricas (olha a IBM aí, gente) se reinventaram e estão aí, na luta. Com as carreiras e seus profissionais acontece a mesma coisa, todos os dias. Alguns deixam de ser necessários. Isso não acontece pela idade: o técnico vencedor da Copa dos Campeões tem 70 anos. Isso ocorre quando deixamos a o entusiasmo de lado, abandonamos a curiosidade sobre os dias que alcançam a todos, ou simplesmente achamos que sabemos de tudo. Carreiras terminam não por falta de oportunidade, ou por que há uma crise (a Bic foi criada no meio de um furacão econômico). As carreiras terminam como terminam os relacionamentos, por falta de paixão e entrega. É possível ter uma  jornada profissional longa e feliz, fazendo o que se gosta ou gostando do que se faz. Mas é fundamental ter em mente as lições da máquina de escrever. Cada um de nós pode ser uma nova invenção diária ou alguém previsível e desinteressante. Ninguém acorda ultrapassado, é algo que se não desaparece nos primeiros sintomas, temos que procurar um couting, uma inspiração ou pegar o boné e sair sem que nos peçam. Depende só de você. E então, campeão, em que tecla você vai bater? 

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7 comentários sobre “Não fazem mais máquinas de escrever como antigamente. Ainda bem”

    1. Fiz esse artigo para um jornal (acho que de Curitiba, não lembro). Ele também foi usado para uma dinâmica de grupo sobre a necessidade de evolução constante e tal. Devo ser o terror dos preparadores de equipe e dos editores: me pedem um foco, vou falando, falando, vendo outras possibilidades. Eu digito com os 10 dedos, sem olhar!

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