Silêncio

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Falamos demais, enchemos a vida de palavras, devíamos poupa-la. Que lavra é essa, que pressa estranha, cadê o freio, do que estamos mesmo falando? Sobre o preço do pepino, se é genuína a prisão do Genuíno, sobre o tempo, se teremos Natal no pernil e, importantíssimo, se o Lulu Santos deveria mesmo continuar no The Voice Brazil. Falamos muito sobre tantos, sobre tudo, nos sobressaltamos. Você já reparou que tem gente que ao desligar o telefone termina a conversa dizendo “nos falamos”? Há uma enorme demanda por opinião, é o que dizem por aí. Especialistas em sapatos de bico fino, pós graduados em poesia boliviana, doutores em esperanto, mestres por todos os cantos que falam, exprimem, traduzem, induzem o que devemos concluir, pensar e sentir. Parece ser uma operação de um Bope comportamental, criado especialmente exterminar qualquer possibilidade se você permanecer original ou, pelo menos, de possuir seu próprio pensamento. O fato é que temos muita malandragem e pouco Capitão Nascimento. Na dúvida, se fala, quando no fundo o que cala é mais substancial. Manchetes, terapias, videntes, colunistas, o Jabor, então, da onde ele tira tanta opinião?  Há uma falação que nos mantém inquietos. O novo lançamento, a cor do momento, a tendência, o que vem forte na estação, que tipo de margarina passar no pão, o que dizer para os filhos e dúvidas das dúvidas: leito ou mel no sucrilhos?  O que colocar na mesa, quem será a nova globeleza, a última novela, o próximo destino e -assunto dos assuntos- se o irmão da Sandi é mesmo um menino. O verdadeiro amor, a descoberta de um falso Paraguay, a mulher certa, um homem atrapalhado, o velho continente, o novo chinelo e se finalmente a Ferrari provou que Felipe não é melhor do que Barichello.  Por mim, chega, por mim, basta às palavras malditas, aquelas que existem porque vaiam. Não consigo mais ouvir o óbvio, a louvação, a falsa discussão, o argumento desconexo, e -sempre isso- ver na capa da Claudia tudo o que eu queria saber sobre sexo. Pelo silêncio criativo, pelo crivo, azar se ficar esquisito, que bom se achar bonito. Pelo senso particular, pelo bem geral da nação e pelo pensamento não declarado, vou usar mais o meu direito de ficar calado. 

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Publicado por mariel

Desde 1959 tem sido assim

37 Comments

  1. Mariel, sou uma profissional da informação. Trabalho diariamente com inúmeros assuntos e leio muito. Confesso que ao final do dia estou exausta. Com olhos e mente pra lá de cansados e é o momento em que necessito de silêncio. E como é praticamente impossível silêncio numa cidade como São Paulo! Nessas horas procuro me refugiar dentro de mim. Como boa canceriana preciso de alguns momentos de total silêncio para me acalmar, para me equilibrar e seu texto expressa brilhantemente o caos de informações em que vivemos. Aqui na biblioteca em que trabalho, o horário que mais aprecio é entre 16h30 e 18h. Momento em que fico absolutamente sozinha e na paz. O silêncio grita através das inúmeras estantes e das centenas e centenas de livros. É o melhor momento do dia e propício para minha escrita. Acho que falei demais e te deixei zonzo né? rsrs
    Grata por suas palavras!

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    1. Falou o que tinha de falar, isso nunca é mais nem menos, é sempre a conta exata. Disse lá no outro comentário que gosto do lugar onde você trabalha. E nunca imaginei que poderia ser um lugar intenso até você contar que no teu horário preferido o silêncio é capaz de gritar. Aliás, que frase bonita. Viu? Não deixe em silêncio as coisas que precisam ser ditas. Beijo pra ti, obrigado você, por entender as palavras.

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  2. Mariel,

    caminhamos a passos largos para a superficialidade, e isso é realmente lamentável. É por isso que ultimamente me apego as palavras nos versos, assim me empanturro delas por meio da poesia. Gr. Bj.!

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    1. Você está se empanturrando bem. Sua poesia é das boas, algumas cortam, mas ninguém disse que seria fácil. Tenho acompanhado de perto teus ditos, ou como diria você, seus gritos.

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  3. Bacana o conceito. O finado Fellini dizia sobre imagens o que o amigo diz sobre palavras: tanta palavra mal dita, que diminui o sentido das palavras bem ditas.

    Parabéns mais uma vez por dizer o que quer dizer todo mundo que não é nem senhor, nem escravo da mídia vazia.

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    1. Vindo de vocês, me horna, assim, com todas as letras.

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  4. Mariel, fiquei postergando a leitura deste texto, porque queria o melhor momento, talvez; o certo é que o primeiro parágrafo (aquele que vem de amostra grátis só pra aguçar o interesse do leitor, avisando que há mais tantas palavras a apenas um clique) me deixou de sobreaviso: atenção, esse menino tem coisa pra dizer! E disse bem. até o que não disse. Minha lição de hoje:
    “no fundo o que cala é mais substancial.”
    Sua prosa é poética; sua retórica é lírica!
    Abraço!

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    1. Bom, fiquei com a sensação que o texto te entregou menos do que você esperava, vou ter que pensar nisso. De qualquer modo, o “menino tem coisas pra dizer” é de ganhar o dia pelo menino e pela afirmação, o que vindo de ti é sempre um carinho bom. Fiquei todo prosa com o teu lirismo.
      Beijo, seguido de abraço de compadre.

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      1. Pois é, compadre (adorei este súbito parentesco: daqueles que a gente escolhe), acredita que eu não tinha lido essa sua resposta. O texto não ficou aquém da expectativa, não, viu. Apenas foi provocativo e cumpriu o propósito de valorizar cada palavra dita e silenciada… e provocar silêncios reflexivos… fiquei pensando… quer mais que isso, menino? rs

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        1. Mas eba, então! A resposta veio bem depois, mas acredite: chegou em hora pra lá de adequeada ao estado das coisas, motivando como sempre e mantendo (como nunca) os medos afastados de mim. Beijos, comadre.

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  5. Oi Mariel!

    Texto além de ótimo, bem oportuno!
    Eu que vim aqui primeiro, antes de um retorno a ti, para explicar do meu sumiço/silêncio, deixo o registro aqui.

    Saindo de fato de uma fase down. Que me leva a nem aparecer na net. Para não ficar uma blogueira chata.

    Eu que sempre gostei de conversar bastante, vi nesse veículo o ter isso de novo. Já que cadeirante ganha um repelente que o afasta de amigos e parentes. Devem ter perdido meu endereço e telefone :) Enfim, perde-se de um lado, ganha-se de outro.

    Se minhas mãos acompanhassem com igual velocidade meus pensamentos, eu participaria mais da blogosfera. Além do que com meu note sempre dando defeito, meus textos rascunhados em papel vão se acumulando. Me deixando menos tempo.

    O silêncio é bom para reciclar a mente. Clarear as ideias. Porque é bom em ter o que dizer, mesmo que não tenha no momento quem possa nos ler. Fica o registro da nossa maneira de ser. Eu que participei muito de fóruns no Orkut, certa vez ao olhar por alguns onde estive nos primeiros anos, me peguei sorrindo pensando:: “Essa sou eu de fato!” Podemos mudar alguns conceitos com o passar dos anos, mas a essência fica.

    Dai é legal deixar nossas opiniões, divagações… sempre!

    No “Adeus” que eu fiz ao meu pai eu disse que na lápide dele eu colocaria “um contador de histórias” http://cadeiranteemprimeirasviagens.wordpress.com/2012/09/08/o-adeus-ao-meu-pai/

    Para nós internautas, trazemos essa herança dos nossos antepassados. As prosas em volta da mesa da cozinha pularam para os blogs.

    Que continue sempre nos contando seus dedinhos de prosa!

    Abraços,.

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    1. Voltei!

      Ia deixar o convite lá, no retorno ao seu comentário…
      Deixando cá!

      Querendo compartilhar textos sobre filmes, será muito bem-vindo no blog cinema.

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      1. E se sou muito bem-vindo, estou muito bem indo ao teu encontro no blog. Como sou meio entrão e gosto do que é bom, iria de qualquer jeito.

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      2. Não sei se explicitei bem o convite…
        Sendo também cinéfilo e gostas de escrever, querendo compartilhar análises de filmes, o blog é esse: http://cinemaeaminhapraia.com.br/
        :)

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        1. Opa, não tinha entendido assim. Bah, fico feliz com o convite. E estou preparando uma resposta para um outro post teu. Não esqueci, só quero responder com o carinho devido.

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          1. E como já é do WordPress, fica mais fácil o convite, até já entrando como autor.

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      3. Se tornando ou não autor do blog de cinema, sua presença será sempre bem-vinda!

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    2. Querida, que bom que a fase mais deprê já foi. Fiquei muito emocionado com a promessa que você fez, tenho certeza que de alguma forma o seu carinho chega de alguma forma a ele, que deve estar orgulhoso como sempre de você. Os amigos reais (mesmo que virtuais) ficam, é uma das suas belezas. No mais, acho que temos todos um tipo específico de repelente, algo que nos distancia e, ao mesmo tempo, diferencia. Leio sempre com muita atenção as pessoas que acompanho. É o que faço com você e tenho sido recompensado com ótimas leituras, feitas pela criatura que é você, com tanto a dizer.
      Beijo

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  6. Belo texto. Não dá pra ficar em silêncio.

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    1. Mariana, você foi elevada à condição de querida.
      Big obrigado, querida, querida, querida.

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  7. Mariel, andei pensando um pouco nisso nestes ultimos dias e adorei ver o assunto por aqui!

    Acho que estamos (nós seres humanos) numa fase de necessidade de se auto-afirmar, mostrar o que fazemos, pensamos, achamos… E tudo isso é falado (ou escrito, especialmente nas redes sociais) na espera de alguma atenção do próximo, reconhecimento, ou algo que possamos desejar.

    A verdade é que muita coisa sobra, desnecessária.
    Será que eu também deveria usar mais o meu direito de ficar calada?

    abraço!!!

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    1. Olivia, acho que existem excessos, somos uma civilização excessiva. E fiquei surpreso pela forma inovadora que você encara a falação, atribuindo a um pedido de reconhecimento, uma necessidade de expressão. Mostra tua alma gentil, algo que não deve ser nunca calada.

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  8. Mariel, prepare-se! A Copa do Mundo vem aí e eu gostaria que você anotasse quantas vezes será dito PAÍS DO FUTEBOL. Tudo “sem o menor interesse”. Talento ( ou tá rápido) é talento, não é?! kkk!
    Um abraço,
    Manoel

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    1. Opa, chefia. País do futebol é quase um mantra brasileiro. Claro, interesse nenhum.
      Abraço silencioso.

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  9. Michele Viviane Vasconcelos 30 de novembro de 2013 às 2:29 PM

    Um mundo externo de coisas criado para esquecermos de nós mesmos. Não falo desse ser que a maioria das pessoas fingem ser, para se autoafirmar perante o carrossel. Falo do mais íntimo. Esse que pede silêncio para que o ouçamos. Eu. Ótimo texto Mariel, bem detalhado, dinâmico e poético. Falamos demais e reclamamos demais mesmo. Me identifico. Penso que quando escreveu, estava em silêncio.

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    1. Michele, te digo que é muito emocionante encontrar essa ressonância. Escrever me acalma, costumo dizer. Você, como boa escritora que é, entendeu que sim eu estava em absoluto silêncio. Às vezes ele é necessário. Noutras, indispensável. Super semana, combinado?

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      1. Michele, a resposta ficou toda truncada. Então 1) Muito emocionante encontrar ressonância em ti quanto ao que escrevo. 2) Você é uma escritora que admiro, então o teu comentário melhora meu humor, já que ser entendido é algo fundamental para quem escreve. 3) Sim, eu estava em silêncio. Ufa. Acho que agora ficou clarinho.

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      2. Michele Viviane Vasconcelos 1 de dezembro de 2013 às 7:36 PM

        Super semana Mariel!

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  10. A natureza tem-se empenhado em mostrar-me o valor do silêncio; você foi um dos mensageiros. Gosto muito de como você escreve. É um prazer ler os seus posts.

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    1. Rosa, você é emocionante, motivadora e uma querida.
      Super obrigado.

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      1. Você é aquele alguém que não conheço, mas que guardo com muito carinho.

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  11. O pior é que, diante de tanta falação, a maioria esquece de pensar e passa a reproduzir. “O fulano de tal, especialista, disse isso…” especialista de que? Que especialização é essa que permite a ele ser o absoluto naquele assunto? Muitas vezes nem é essa a pretensão do dito “especialista”, mas ele assim se torna por maioria de votos. Não sei se você sabe, mas sou do ramo da educação (pedagoga, pra ser mais exata) e canso de ver essas matérias com especialistas em educação, daí quando você vai procurar o nome do sujeito e saber que especialidade é essa que ele tem, o cara é engenheiro, mas dono de uma editora de livros infantis ou escolares. Me diz que “especialização” é essa? Enfim, o que quero dizer com tudo isso é que vale muito mais pensar por você mesmo, ler diversas versões sobre um assunto e depois chegar a uma conclusão sua: pensada, refletida e não reproduzida.

    PS: gosto muito desse jeito que você escreve, brincando com as palavras.

    Beijos

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    1. Eu te acompanho com muita atenção, Tayna. E sinceramente fico cheio de esperança em saber que na pedagogia há gente como você, pensando. Porque pensar não é apenas uma sucessão de coisas racionalizadas e sim a possibilidade de subjetivar, analisar, entender ou não determinada coisa. Ao olhar uma situação, um texto, uma pessoa, uma ideia, um discurso ou um movimento, estamos oscultando a vida. E viver é um aprendizado que depende, repito, de gente como você.
      PS: também gosto muito do seu jeito de escrever, além da diversidade dos teus temas. Quanto a brincar com as palavras, penso que é para isso que elas servem: divertir a gente. Beijo pra ti também

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