Mariel Fernandes

Homens, ao mar

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Todo marujo que se preza  sabe que não se reza por terra à vista. Corsários ou capitães da esquadra inglesa têm um inimigo comum: a vontade de aportar, lançar cordas, ancorar. Pra eles, voltar pra casa é alto mar, portos são um desvio. Um lobo do mar não se forma em águas rasas, precisa conhecer a força dos repuxos, os humores das correntes submarinas, a mistura perigosa entre sol e sal, a imensidão oceânica e a impressionante falta de esquinas. Um bom marinheiro não espera que suas viagens sejam feitas de sonhos, vento sempre à favor e primaveras azuladas. São inevitáveis as cicatrizes, as tempestades, a inspiração de sagres e as lutas inesquecíveis com os deuses de todos os mares.  Só então, depois de  rufados os tambores, Tufão separa entre os lutadores os melhores. É assim que os deixa singrar suas dores e contar histórias sobre tesouros escondidos em ilhas inacessíveis aos conformados de água doce. Nenhuma sorte aos resignados, aos sepultados em si mesmos, aos que vivem à esmo do que sentem. Abandonados, náufragos, solitários, renegados, perdedores, esquecidos, perdidos, ressentidos, sem pátria, exilados, enganados, estejam certos quanto aos mapas, rotas, guias e todo tipo de instrumento disponível à navegação. Serão imprecisos, mas fundamentais. Farão surgir histórias de conquistas e aventuras, ventos e vendavais. Soltar amarras, içar velas, enfrentar o medo e deixar o cais. Lá vamos nós, tripulação improvável de um tempo formidável, capaz de enfrentar os elementos, os transformando em um tremendo instante, transatlânticos sonhos, plenos de descobertas, muito além das ilhas desertas, um lugar nosso, nele não seremos intrusos. Enquanto ele não chega, homens, aos mar. Homens, ao mar, marujos.

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33 comentários sobre “Homens, ao mar”

    1. Querido, você. É muito legal (você sabe disso, já que também escreve e faz isso bem demais) quando o dito é traduzido como foi pensado. Às vezes somos lidos de uma forma surpreendente, emocionante, mas diferente do que imaginamos, não? Noutras, não fomos competentes para expressar e o entendimento não rola. E há casos como o seu, em que a compreensão gera boas vibrações. Pronto, ganhei o dia.

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  1. Muito bacana mesmo. Tanto pelo lado motivacional, como pelo lado estilístico.

    Neste final de ano, conversamos muito: tivemos várias e várias reuniões de confraternização, em torno de cervejas geladas e acepipes variados.

    Chegamos à conclusão que o amigo e mestre está caminhando para se tornar um poeta, não um prosador. A forma de texto corrido, em vez de quebrado em versos vai acabar sendo mero acaso.

    Gostamos muito do quarteto:
    São inevitáveis as cicatrizes,/ as tempestades,/ a inspiração de sagres/ e as lutas inesquecíveis com os deuses de todos os mares.

    Sinceros parabéns.

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    1. Acho que peguei vocês de jeito porque de poeta tenho quase nada e confesso, nem gosto tanto assim desse tipo de expressão. Aprecio, claro, mas de um modo geral passo reto. Quando escrevo, tenho uma preocupação com o ritmo, basicamente, como se fosse uma melodia. Há um tempo, um compasso, o momento mínimo, a hora de eloquência. É uma sequência que, sendo o texto sincero, vem quase automaticamente. O que faço enquanto digito é procurar atrapalhar o menos possível o que o tema veio contar sobre o que vi ou vivi. Tem poesia nisso? Tem. Mas viver é melhor que rimar, hum?
      De qualquer forma, que delícia é ter amigos que sabem tanto e tão profundamente ler o que um texto diz, o que não fala, quando aumenta o tom da voz ou quando, triste ou não, cala.

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      1. Um outro mestre, chamado Ezra Pound, uma vez escreveu que conhecia poetas que diziam não ter nenhum senso musical. Apesar de seus versos serem marcadamente rítmicos e musicais.

        Seu caso é simétrico: vários de seus textos são boa poesia. Apesar de você não negar a música deles.

        O pessoal hoje em dia chama de poeta aqueles capazes de viver de modo sensível. Ou seja: viver é melhor que rimar. 8-)

        Conversar com o amigo ajuda a pensar. Acho

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      2. Prezado primo irmão (aqui, quem escreve é o Fernandes espanhol, um pisciano dos típicos), uma característica de seu blogue é a hospitalidade.

        O primo, amigo, irmão e mestre, não apenas recebe com alegria os comentários mais disparatados (caso de alguns de nosso grupo), mas também faz a pessoa se sentir muito inteligente, criativa, espirituosa e brilhante.

        Sim, você consegue fazer a magia do receber bem.

        Obrigado, mestre ! 8-)

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      3. É verdade ! ¿¡ Que vantagem há em ter amigos, mestres, primos e irmãos se não polemizamos com eles !?8-)

        Vamos começar a falar mal do Grêmio. Ou do Internacional ?

        Talvez do Grenal todo logo de uma vez. 8-)

        Agradecido pela amizade e bom humor.

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          1. Prezado, a cultura gaucha é muitop forte e, algumas vezes soa distante do Sudeste.

            Por isso, só uma pergunta: para um amigo paulista, muito esquerdista, mas também muito atento, haveria uma relação entre Internacional, chimangos e direita.

            E uma relação simétrica entre Grêmio, maragatos e esquerda.

            Confere ?

            Obrigado e bom final de semana.

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            1. Pelo amor do Zeus e de todos os outros gregos: prendam esse amigo paulista e o façam passar uns dias em charqueadas, uma espécie de sibéria do Rio Grande. Inter e direita é mais ou menos como Michel Teló e boa música. Inter é maragato, vermelho, povo e campeão de tudo. Já os chimangos do Grêmio são o que são, sempre foram e sempre serão. Tenho dito.

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      4. Prezado, temo por minha sorte.

        Amanhã haverá uma reunião de pauta. E os outros colegas de blogue ficarão bravos comigo por não ter me lembrado de coisas básicas da cultura gaucha. 8-(

        É provável que convençam o garçom a me servir o chopp à moda carioca, com pouquíssima espuma.

        Espero que pelo menos o amigo e mestre de nosso blogue não pense que foi qualquer desatenção. Infelizmente, estou com a memória ruim.

        Bom final de semana.

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      5. Prezado amigo e mestre Mariel, aqui quem lhe escreve é o blogueiro baiano, capricorniano, do Música e Fantasia.

        Dizem que meu signo me leva a ser um diplomata. Gostaria que isso fosse verdade. 8-)

        Isto porque me incumbiram de tentar fazer as pazes com nosso amigo de touro, que conseguiu irritá-lo.

        Creia-me que todos do blogue estamos preocupados de perder um amigo. Por isso, escrevo para explicar — mas não justificar — um pouco do que houve.

        O texto a seguir foi escrito, em sua maior parte por meu colega taurino. Fiz alguns ajustes, mas veja nele a sinceridade do colega taurino que, emocional como é, está chateado por ter ferido seus valores gauchos.

        Coloquei tudo na 3a pessoa, mas o tom ainda é pessoal.

        Por favor, releve e não queira mal ao colega.
        ————————————————————–
        Prezado Mariel, a frase “touro em loja de cristais” não é despropositada quando falamos da eventual falta de tato daqueles nascidos sobre o signo de touro.

        Não sabemos (nem a psicanálise explica) o que leva um taurino a cometer gafes. E nosso colega de touro consegue cometê-las em número e em gravidade impressionante.

        Algumas vezes, consegue dizer a coisa errada para a pessoa errrada, na hora errada. 8-O

        No início de nossa convivência, pensamos que era a maldade do colega falando. Depois pensamos que fosse alguma falta de inteligência.

        Uma vez que o colega taurino se chama Joaquim, mesmo tendo sobrenome italiano, recebeu muitos remoques de seu primo Fernandes português. Frases do nível de “eu sou português e você que faz burradas ?!” 8-)

        Hoje, no entanto, sabemos que não é maldade, falta grave de inteligência ou de tato. Trata-se de um fenômeno realmente cósmico e inexplicável, que o faz cometer gafes imperdoáveis, dizendo apenas frases aparentemente inofensivas, mas que ferem fundo as pessoas.

        Hoje, todos outros colegas do blogue, até rimos desses eventos cósmicos. E, naturalmente, corremos a acudir o desastrado taurino, que pode ser muito mal interpretado.

        Confiante em seu tradicional bom humor e nas boas relações de discipulado, amizade e até irmandade, pedimos sua compreensão para nosso colega taurino, a quem os deuses querem fazer perder. 8-)

        Não podemos nos despedir sem desejar ao mestre, amigo e irmão, uma semana muito produtiva. E um 2014 pleno de alegrias.

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        1. Como diria o chefe de polícia de Casablanca, “Alguém que ser preso”. Racional que sou, creio menos em questões cósmicas e mais na torcida do Inter, que permanece em estado de vigília contra o taurino. Gritam teses esquerdistas como “pega, pega, pega” e também palavras de ordem de estremo centro como “gordo safado”. Então, por uma questão de humanidade, façamos o seuinte: eu continuo rosnando mais um pouco e esperando que o povo se acalme. Se não der certo, alguém tem que ser preso.

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      6. Prezado mestre, amigo, primo e irmão,

        aqui mais uma vez quem tem a honra e o prazer de escrever para sua pessoa é seu primo Fernandes de origem espanhola.

        Seu exemplo é fantástico. Casablanca é um dos melhores exemplos que consigo imaginar sobre a transcedência da arte em relação aos meios e às pessoas.

        O filme é baseado em uma peça de teatro, que aliás foi esquecida, que foi sucesso de público, mas fracasso de crítica.

        Contudo, durante a criação dos filmes entrou em cena a genialidade de roteiristas, atores e atrizes, e, claro, do diretor Michael Curtis.

        Nosso colega capricorniano e baiano, que não gosta de falar bem sobre a Bahia — de forma alguma — tem muito orgulho de dizer que Mihaly Kertesz, nome original de Curtis, era tio de Mario Kertesz, prefeito de Salvador.

        A gente não sabe bem qual a relação entre uma coisa e outra ( seria uma relação cósmica ??? 8-) ), mas o fato é que na Bahia há e houve grandes pessoas ligadas ao cinema.

        Caetano Veloso era um bom crítico, Glauber era um genial diretor. E, mais modestamente, temos em nosso quadro, um colega que sabe muito de cinema. Justamente o capricorniano baiano que referimos.

        Talvez o outro primo Fernandes tenha comentado que iríamos escrever sobre Casablanca. Além do momentoso episódio que temos discutido, de incidente intercultural, foi um dos temas de nossa reunião de pauta.

        É a única explicação que vejo para nosso mestre, amigo, primo e irmão ter trazido à baila o grande filme.

        E, como diriam na obra de arte feita pelo cinema indústria,
        — Toque, Sam. Pelos velhos tempos. 8-)
        [audio src="http://www.filmsite.org/wavfiles/casablanca3.wav" /]

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        1. Casablanca é dessas obras que não precisam de maiores motivações para citações. É mais ou menos como o Inter: uma aventura, um romance, muita ação e, claro, a guerra. Pelos velhos tempos, Sam tocaria ou seria mais uma dessas perguntas sem resposta que a vida imitando a arte não responde? Big abraços, sim, mesmo para o taurino desastrado.

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  2. Isso tá melhor que pó de guaraná ou café forte. Red Bull terá que melhorar sua fórmula. Seu texto não é só um energético, tem “sustância”, rs, “vitamina”. É como ver o mar, todas as suas metáforas, mistérios e possibilidades que para um marujo inato, é um imã. Só lhe resta se atirar, se jogar nele. E nesse caso, se atirar, se jogar, é simplesmente a vida, simplesmente viver. Adoro o mar! – Também achei muito apropriado o comentário do Bernardo, seu estilo é legível: o texto tem corpo, forma, e ao mesmo tempo e suave, leve, como uma poesia. Muito bom mesmo! Um grande abraço Mariel!

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    1. Michele, você é uma querida, querida, querida. E falando assim olho no olho, vindo de alguém que se expressa como você, nossa, é motivador. O que escrevo me acalma e enquanto estiver sendo boa ferramenta para a palavra, permaneço aqui, atento ao que se passa comigo e contigo. Um super abraço, daqueles de urso, pra ti.

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  3. Fiquei eu aqui, a bombordo, enfeitiçada pelas ondas das palavras.
    Não tenho a alegria de conhecer o mar (ainda), mas, o trago em minhas mãos uma concha que me reproduz seu cantar. Foi como se eu entrasse nele e aspirasse a maresia. Que os elementos naturais tragam bons ventos. Que seja um ano de bons mares navegados.
    beijos. <3

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  4. Aos conformados de água doce só resta a ilusão dos tesouros. Mas aos desbravadores, como você, os reais tesouros de valor inestimável, que aliás, residem sempre além do que a vista alcança.

    Penso que a amplidão dos mares e seus mistérios, o marujo emana sutilmente no sal de cada lágrima de alegria ou tristeza.

    Novamente, agradabilíssima leitura Mariel! Gr. Bj.!

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    1. Olha, que honra, você aqui, querido. Nem o mar, nem o espaço têm qualquer compromisso com a lógica, né? Aliás, fiquei pensando no Spook e suas orelhas de abano sideral. Desde o teu comentário, não penso em outra coisa. Super natal, super, super.

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