O vale tudo não vale nada

ImagemEles tinham um ensinamento, um valor, um conhecimento pra passar. Ou – vá lá – pelo menos o Bruce Lee era bonitinho. Sou do tempo do Ted Boy Marino, entendo que ninguém saiba do que estou falando, já que se trata de alguém dos anos 70, época onde tudo foi inventado. Eu devo ser o último representante vivo (ou que ainda sabe o próprio nome) da safra de 59. Ted Boy era o queridinho do Brasil, um astro da Luta Livre, morreu há um tempo e chegou a fazer parte do elenco de apoio dos Trapalhões, quando eram engraçados. Meu filho me cutuca e diz que ninguém tem ideia do que falo. Pergunto se ele acha que não vão se lembrar de quando Os Trapalhões foram engraçados. Ele me diz que não vão se lembrar dos Trapalhões, que devo ser o único que viu e que achou graça naquilo. Bom, eu acho graça em programa religioso, mas isso é história pra outro dia. Às vezes, não falar é consentir e não quero flertar com a estupidez: podemos nos apaixonar, ter filhos, presidir o Brasil, enfim, é um perigo.

Que dois homens fortes troquem socos até que um caia ensanguentado no chão, ok, vivemos tempos difíceis. Que se ofendam antes, morram depois e sejam uma aberração durante, isso é problema deles. Que façam cara de mau um pro outro, como se ninguém soubesse que se trata de representação de atores ruins, isso é do jogo, um jogo de cenas ruins, tristes, sem significado e que apenas comprova a nossa imensa capacidade de produzir idiotices. Que no final de tudo ainda se abracem suados, exaustos, feridos, deformados, transtornados, transformados em bichos, tudo isso é com eles. Por que não homens contra tigres? Por que não anões bezuntados contra os gaviões da fiel? Por que petistas contra os juízes do supremo ou uma luta entre irmãos siameses? E eu, que achava que a mulher barbuda era o máximo que chegaríamos, percebo que nossa sede de circo é infindável e que além de um gosto pelo mal, temos um imenso mau gosto. Porque ninguém sai inteiro daquilo, nem lutadores nem plateia, nem juízes e médicos, estes uma ironia neste tipo de evento. E no entanto, o Galvão os chama de “Os Gladiadores do 3º Milênio”, eles dão entrevistas dizendo que são profissionais, que lutam em honra da família, dos filhos e dos amigos, fazem sinais orientais que pretensamente indicam reverência ou humildade diante daquilo que seria um local sagrado, mas que na verdade é um ringue que recebe dois caras que trocam sopapos por dinheiro.

Querem proibir a transmissão dessas lutas. Eu sou contra qualquer interferência do legislativo, do executivo ou do Anderson Silva no meu controle remoto: deu um trabalho danado aprender a lidar com ele, então não se preocupem que a gente sabe trocar de canal. Por outro lado, não sou contra a proibição das lutas em si. Elas nada ensinam, nada acrescentam e nada são a não ser rinhas de galos sem galos. Não fosse pouco, ainda têm a desvantagem de ouvirmos um sujeito com o olho pendurado, um pedaço do fígado aparecendo e sem uma das narinas dizendo que deu “o melhor de si, urrruuú Ezequiel, eu te falei!”. E agora, preenchendo a cota de empreendedores da porrada, nossos lutadores mais velhos estão voltando dos Estados Unidos. Falam um inglês engraçado, um português medonho e uma língua que todo mundo entende: dinheiro. A nível de brasil, eles querem difundir o esporte, assim enquanto MMA, uma proposta de integração, entende, assim, essa coisa tipo entende, certo? Eles querem ensinar MMA para crianças para que elas cresçam saudáveis,aprendendo todos os profundos ensinamentos desse esporte, como a ética do supercílio arrebentado com o cotovelo ou a moral de não bater no amiguinho  se ele estiver morto.  Por mim, não. Preciso que os pequenos lembrem das coisas, saibam quem são e entendam a vida como a expressão maior do entendimento, do amor e da conversa como ponte entre diferenças. Quem ganha a vida na pancada termina obrigatoriamente como o Ted Boy Marino: alguém que ninguém sabe quem foi.

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Publicado por mariel

Desde 1959 tem sido assim

18 Comments

  1. Como sou o mais velho por aqui e aí também, confesso: assisti (e muito) o Telecatch. Ted Boy Marino, Tigre Paraguaio, Mongol, Ulisses e o misterioso e quase invencível Verdugo eram os heróis de um programa de pancadaria completamente inverossímil, quando comparado com a selvageria dos MMAs de hoje. Sei não, acho que fomos felizes e nunca soubemos…

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    1. Querido, que bom você por aqui. Era Telecatch que chamava, exatamente! Acho que sempre havia um lance os caras do bem contra a turma do mal, não? E o Ted Boy seria o principe do labo bom da força. Eu soltava pandorga (pipa), jogava bola no campinho e até onde lembro, craque era apenas um sujeito bom de bola. Ponto para o seu “fomos felizes e nunca soubemos”. Grande abraço!

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  2. Teve Ted Boy Marino na minha infância, não foi miragem. Mas nunca achei os Trapalhões engraçados… sou chata.

    Agora, com toda a brutalidade indefensável dessas lutas aí, imagino como elas seriam se fossem proibidas. Tem filme ruim que explora este cenário, não tem?

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    1. Ah tinha um quadro do Didi em que ele interpretava algumas canções, fazendo ao pé da letra o que as metáforas das muúsicas sugeriam eram verdadeiras charges, gostava muito. Ted Boy era o cara. E você não tem nada de chata, pelo menos assim de longe. A proibição, pois é… Não sei mesmo. Porque não acho que estamos progredindo muito com um show que “seleciona” os “novos lutadores do 3º milênio”. A aceitação da brutalidade, a transformação dela em arte, maquiar de ídolos os brontozauros, não sei. Talvez, com a proibição, pelo menos a proliferação dessa coisa estranha fosse menos progressiva como está. Mas você tem razão: talvez só produzisse mais filmes ruins.

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  3. Realmente abomino esse tipo de esporte. É uma espécie de BBB dos ringues. Só serve pra comprimir o cérebro e arrebentar as orelhas. Se a coisa descambar pro lado da proibição, seria melhor reavaliarem as tantas outras violências a que somos submetidos todos os dias. Tem ora que ter o controle nas mãos não nos adianta nada. O conteúdo em si em todos eles é lamentável. Pouco, muito pouco se aproveita.

    Mariel, preciso dizer que gostei imenso?

    GOSTEI!

    Gr. Bj.!

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    1. No quesito orelhas de assustar eles ganham de fato. Aliás, acho que se lutasse contra a orelha deles eu levaria uma surra. Tô com Netflix em casa: o controle é meu! Beijo, guria. Quando você gosta, o dia está ganho.

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  4. Que bom se elas ‘Nada ensinassem’… um dos ensinamentos é sobre os valores do jogo monetário: quem dá lucro ao jogo, terá sua recompensa… para enriquecer não importa quem você é, mas o que você faz, de preferência que seja um fazedor de dinheiro, custe o que custa, seja uma moeda lucrativa. Por trás da luta o jogo é mais duro e mórbido. Enfim, ótimo texto!

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    1. Muito mais mórbido, acho que em todos os jogos há isso, não? Mas a violência como forma de ganhar a vida, transmitida para o mundo todo sob o disfarce da esportividade, isso é nauseante. Super abraço.

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  5. Não sou dos meados de 59. Sou de 65 e durante grande parte dos anos 70 meu desafio era ver sobre a fresta d janela da vizinha, nos domingos a noite, ( sim, Trapalhões passava no horário nobre do domingo, um pouco antes do Show da Vida) Didi, Dedé, Mussum e Zacarias. Também me lembro do Ted Boy Marinho, com seu suspensório listrado em preto e branco.
    Inspiro aqui, Mariel. Não por conta dos Trapalhões ou do Ted Boy, mas por saber-me não única e avessa a esse tipo de esporte que virou moda. Nunca vi uma luta. Para mim, as chamadas por si só bastam. Não que isso me torne diferente de quem gosta. Ou vice e versa. Quero ver mais crianças nas ruas, pegando o chinelinho velho para fazer de gol. Quero ver as crianças aprendendo o respeito pelas pessoas através de exemplos de seus pais. Que seja utopia. Mas, seu post me levou a isso.

    E quase ouço a música dos Trapalhões lá dos anos 70 aqui…tantantannn…tanrantantan…:)

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    1. Nossa, o chinelo pra fazer o gol, não lembrava disso e olha que devia: como era ruim de bola, meu destino era o gol. Depois, claro, virei um craque. Também não lembrava do suspensório do Ted Boy. Era marinho ou marino? Você me confundiu nessa. Tô ouvindo a música também!

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      1. Putz,,,é Marino mesmo. Eu é que me empolguei falando de Trapalhões e etc. Além dos chinelos, o gol era feito também com latas de óleo de cozinha. E quando não havia a bola de verdade, era uma bola de meia, cheia de retalhos. Nostalgia…e a música ainda ecoa aqui. beijos

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        1. Ah! Então conhecemos o mesmo cara. Bom, bom, bom de lembrar.

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  6. Michele Viviane Vasconcelos 15 de janeiro de 2014 às 3:21 PM

    Não me lembro do Ted Boy, mas, ri muito com os Trapalhões. E, ria muito também de programa religioso, mas, os programas religiosos ficaram tão repetitivos que também perderam a graça. Ainda bem que aprendemos a usar o controle remoto, né Mariel?! Concordo com tudo o que disse e acho muito válido que você expresse o que pensa, pois, como esta legível, não está expressando sem uma base, um conhecimento, uma experiência de vida. Tem fundamento. Você tem realmente uma opinião. Opinião hoje em dia é raro e extremamente necessária. Teve uma época em que recursos do governo levavam capoeira para as Febem´s (casas de apreensão de menores infratores)… essa época passou. Não consegui até hoje entender qual era a intenção. A nossa era tenebrosa aqui no Brasil, virou um ímã de tudo quanto é selvageria irracional. Estamos perdendo o senso de civilidade, com estes colaboradores que só vêem cifras. O respeito entre as pessoas não é sinal de inferioridade, mas, de sobrevivência. Afinal, se eu quero “ser” também preciso deixar o outro “ser”. Mas, praticamente perdemos o mais básico aqui nesse mundão Brasil. Perdemos o respeito por nós mesmos. Vou compartilhar seu texto que muito merece ser lido.

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    1. Nossa, primeiro obrigado pelo entusiasmo do comentário. Como você diz, ser e deixar ser parece que é o aprendizado da hora na humanidade. Penso que isso que você comenta (ser e deixar ser) é o centro onde vamos encontrar a razão de desilusões, conflitos e relacionamentos poluídos. Tô longe de ser um sujeito alternativo, tipo odara, mas precisamos de um tanto de inocência, uma porção de pureza, algo que nos alente. E, claro, não é o MMA, mas gente como você, disposta a se transformar e com isso mudar o mundo.

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  7. Mariel acho que sou do seu tempo. Também me lembro do Ted Boy e também cheguei a achar graça nos Trapalhões. Mas francamente acho um tédio esse tipo de “esporte”?, se é que podemos chamar assim. Nossa sociedade é phroids mesmo pois se empenham em ensinar os pequeninos a ser isso ao invés de educar para a vida, dar bom ensino e por aí vai. As vezes chego a pensar que sou um E.T. que caiu da sua espaçonave aqui nesse mundão selvagem. Socorro! Quero retornar ao meu mundo civilizado! E.T. from home!! é meu lema. Sempre um prazer passar por aqui e ler seus textos!

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    1. Roseli, que legal você por aqui, venha sempre. Então lembramos do Ted Boy? Ora, ora, ora. Você não vai poder voltar pra casa: para tornarmos este um mundo legal vamos precisar do teu talento, guria! Você anda demorando muito para um novo post teu. Vai pro computador e trabalha, que estamos esperando. Beijo pra ti.

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      1. Mariel ainda estou enroscada naqueles malditos gráficos e estatísticas. Arrê que não aguento mais! Quem foi o infeliz que inventou isso? Mas em breve estarei de volta aos meus adorados textos. Beijos

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        1. Livre-se logo então. Bom trabalho.

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