Mariel Fernandes

Não me representam

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Não me libertem desse governo, nem de nenhum outro. Não lutem por mim, não marchem em meu nome, não me usem, não seremos amigos. Nem conhecidos, nem haverá risco de erro de afirmarem a meu respeito que desprezo seus métodos e metáforas, os acho grotescos, escusos, secos. Por outro lado, não os mataria, mesmo sem querer, mesmo tendo advogados e seus discursos ensaiados, mesmo possuindo causas aflitas, motivos justos, mesmo assim, não lutem por mim, peço. Não coloquem cartazes, nem vistam camisetas com imagens do Amarildo, o mesmo Amarildo que vocês -tivessem real oportunidade- acorrentariam a um poste.  Dispenso as máscaras, abro mão de toda e qualquer vantagem nascida desse argumento libertador, não subam em minhas costas para chegar a um poder que os fascina a ponto de se desfigurar a obra para  que ela tenha suas imagens, seus gestos e suas formas. Toda vez que gritam, me ensurdecem e deixo de ouvir as canções do Nico, do Herbert, do Chico, as canções que gosto. Toda vez que se reúnem, demoro a passar e perco um tempo precioso aos amores raros, às lembranças boas, bons abraços,  um momento de descanso dos meus  cansaços, que são tantos e que doem mais à medida em que me perco na tentativa inútil de entendê-los. Os nomes que reconheço como a primeira maravilha do mundo? Betinho e sua insaciável luta por milhões de pratos. Este serviu à vida, mesmo sabendo que em breve, a sua estaria desaparecida. Ele morreria, é fato, mas sem o fardo de não ter feito nada diante da falta de arroz, feijão e um bom samba de madrugada.  É hora de lembrar de Frei Beto, São Francisco de Assis e seu método revolucionário que era fazer o bem, de transformar o bem em caminho, de não se apropriar do bem, além de falar com passarinhos. À benção Chico Xavier e sua vontade impressionante de aproximar os que estão distantes.Hoje morreu um trabalhador morreu em plena lida. Morreu entre desconhecidos. Morreu entre desaparecidos. Morreu entre os que verdadeiramente devem ser esquecidos.

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47 comentários sobre “Não me representam”

  1. Mariel, adorei a forma em que você abordou um tema triste de forma realista. Muitas pessoas estavam em protestos dizendo “lutamos pelo Brasil” quando na verdade não é bem isso que acontece realmente. Acho que há muito mais por trás de tudo isso, mas você, encantadoramente transformou tudo isso numa crônica maravilhosa!
    Parabéns, e um beijo!

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    1. Ingrid, querida. Tomo uns sustos com os caminhos do protesto, essa união de direitos sendo exercidos por foras da lei. O importante, nisso tudo, é a tua vinda até aqui e essa nossa amizade que se fortifica, combinado? Beijo pra ti também!
      M

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    1. Patrícia, aqui desse lado do oceano concluo que o que nos aproxima é muito maior do que as coisas que nos afastam. Digo isso pensando em nós, os humanos. Então, ao encontrar gente como você, disposta a construir pontos de encontros e espaços de conversa, isso me enche a alma de uma alegria que confirma a vitória da vida sobre qualquer tipo de outra força. Grande carinho pra ti.

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  2. Mariel,
    A leitura me deixou sem fôlego de tão intensa e, ingênua que sou, guardei a esperança de poder recuperar o meu ritmo respiratório ao fim do texto. Qual não foi a minha surpresa quando, em vez de me devolver o ar, fez sumir os últimos goles que me sobravam!
    Uma escrita perfeita e um sentir pungente.
    Parabéns!

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    1. O que acho, falando de alma pra alma, é que estamos todos tocados e surpresos com os rumos que as coisas tomaram. De algum jeito, penso que fomos todos inocentes e ingênuos, o que é bom. Mas creio que também falhamos ao não perceber o movimento dos farsantes e suas trapaças orquestradas para ferir as esperanças de todos. De minha parte, Dulce, não passarão, não passarão, não passarão. Nossa lingua é nossa pátria. E falamos a lingua da paz. Beijo pra ti e um abraço que te devolva o fôlego.

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    1. Você é muito querido e viu uma quase desistência sendo escrita, porque é muito o que andamos vendo nesses dias mais duros. Quando digo desistência não é da vida, mas de olhar para o nosso país e para a nossa humanidade e ficar pre-exausto pelo tanto que teremos que fazer. Então recebo uma mensagem querida dessas e me digo: vamos lá. Valeu!

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    1. Na verdade, a ousadia era falar em nome da média da humanidade, essa que olha pra coisa e se diz “você aqui outra vez?”. Lentamente, estou chegando à inevitável conclusão que os chatos herdarão a Terra. Felizmente, isso não se aplica a vocês que são engraçados, bem humorados e inteligentes, qualidades impossíveis se serem açambarcadas. Big abraço! Fazia tempo que você não aparecia.

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      1. Perfeito: a classe média é a média da humanidade. 8-)

        Bem humorado, engraçado e inteligente é seu blogue que diz tudo o que queremos dizer com bom humor e sem usar nenhum palavrão, não importa como esteja a coisa.

        Lamentamos a ausência: estivemos investindo muito tempo no Twitter, mas acreditamos que agora encontramos o caminho das pedras.

        Continuarão as visitas a seu excelente blogue. Inclusive até porque esperamos tocar projetos conjuntos.

        Vamos mesmo ?

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  3. Mariel,
    Você falou tudo que sempre entala em nossas gargantas. o começo foi válido, mas depois tudo perde a razão de ser e vira bagunça, vira um bando de desocupados buscando algo que nem eles mesmos sabem o que é.
    As noticias que chegam aqui nos faz sentir olhares críticos e desconfiados de pessoas que generalizam o pouco ao todo. Mas ao mesmo tempo, nós mesmos nos rebelamos contra este grupo que no fundo só quer mesmo, matar o trabalho para sair as ruas para gritar suas mágoas e frustrações pessoais. Porque sinceramente, existem formas muito melhores de se reivindicar por direitos sem precisar pedir esmolas ou agredir e matar pessoas.
    Beijos meu Querido Amigo

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    1. Com toda a certeza, o que vc está recebendo aí tem muitos filtros, acredite em mim. A impressão que tenho é que o controle das forças, vontades, interesses, estratégias e objetivos (a maioria torpe), está entrando em colapso. Junte a isso os burros com iniciativa e começaremos a encontrar muitos teóricos, muita conspiração e muitos corpos.Beijo pra ti, guria. Não deixa de escrever, que isso é fundamental para o bom humor aqui desse lado do atlãtico.

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  4. Mariel, espetacular essa sua postagem. É triste, mas é realidade e tem que ser refletida. Nada melhor que seu texto para puxar as orelhas dos “insensíveis” como eu. Inflamado na hora e esquecido logo depois. Como diria o Gonzaguinha: “Não dá mais pra suportar…Explode coração”.
    Um abraço,
    Manoel

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    1. Nossa, que coisa boa de ler isso. Não pelo elogio em si (que adorei, claro), mas por me saber acompanhado, por entender que estamos lado a lado, que se isso não é possível agora, não deve deixar de ser sonhado. Meus dias vivem disso, de preparar um tempo sem armas na mão.

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  5. Já ouvi de tudo. Que esta é uma época de culto à violência, de repúdio à tolerância, da rapidez em rotular e da maior rapidez ainda em condenar. Ouvi que esta é uma época de decadência, onde as pessoas se amontoam em blocos, onde as pessoas escolhem um lado para amontoar pedras que jogaram contra outras pessoas em outros blocos. Não sei, não entendo e nem consigo discutir sobre o tempo e a moral do tempo. Prefiro pensar que se tratam das mesmas coisas de sempre: a condição humana. O humano, o “humus”. Capaz do pior e do melhor. Poderia dizer também: capaz do melhor e do pior. Viu? É questão de escolha. Mas entendo a tua ira e prefiro pensar, não, eu penso mesmo, que é a ira de um homem de boa vontade. É o que transparece. Um grande abraço, amigo.

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    1. Não tenho ira, essa coisa inebriada e sem foco, a raiva governando sem oposição. Mas acho que há razão em tudo o que você ouviu. Somos violentos, rotulamos rapidamente, estamos em declínio, vivemos em blocos e temos pedras nas mãos, somos tudo isso e penso que estamos esquecidos da nossa humanidade, o humos, o humor, o básico da nossa condição humana, capaz do pior e com uma incapacidade crônica para o melhor, ainda que as duas coisas sejam uma atribuição moral, e concordamos quanto à pouca valia disso. Quero mesmo ser um homem de boa vontade e de vontades boas. Viu? Isso é uma questão de escolha. Você me traduziu com uma sagacidade impressionante, uma delicadeza emocionante e uma objetividade surpreendente. Você me representa.

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    1. Fiquei tão cinza, creme, furta cor, fiquei ali, olhando a notícia dessa vida ida, dessa história sem fim e no entanto acabada pelo pior tipo de estúpido que existe: o com iniciativa. Mas tem gente como você, que visito, que me visita, sempre tem, então escrevo. E escrever me acalma. Muito valeu.

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    1. Roseli, acho que o limite foi ultrapassado faz algum tempo. Não podemos nos comportar como fantoches para jogos políticos. Não podemos ficar calados enquanto os gritões estouram nossos ouvidos. Em paz, mas firme, a humanidade terá minha participação (e tenho certeza que a sua) na construção de um tempo onde a vida -toda vida- não seja tratada como algo efêmero. Beijo

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  6. Belíssimo texto meu caro. Suas palavras calaram meu intimo e me emocionaram. Ontem enquanto escrevia e tomava meu café, soube da morte do profissional e ao meu lado um rapaz disse “pena que não foi alguém da globo pra eles sentirem na pele”. Fiquei tão sem ação porque não importa a emissora por trás do homem, importa sim o homem e os seus. Foi um ser humano que morreu ou será que não sei eram conta disso? Por isso amo os passarinhos e, adoro meu cão..

    Bacio

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    1. Seus passarinhos e seu cão estão em boas mãos, Lunna. Não se pode dizer o mesmo do brasil que existe para a situação e para a oposição. Não aceito mais as opiniões fast food, as conclusões óbvias, os comentários de rotina, aqueles com marcas de gordura de pastel num canto da folha. É por isso que sigo gente como você: enquanto caminho, sei para onde não estou indo. Beijo

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