Mariel Fernandes

Um

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Fiquem em seus postos. Amores precisarão de portos antes de singrar seus amares. Se mantenham atentos, será permanente o desafiar dos deuses e implacável o rugir das tempestades. Não desistam, mesmo que inexistam horas amenas. Mesmo que existam poucos momentos amáveis ou porque tudo dá a impressão de que o todo é descartável. Lado a lado, estão o amor, as canções, os ditadores, os dragões, sapos e princesas, a escuridão implacável e as poucas luzes acesas. Vejam os limites da imensidão, o sim, o não, a legião da boa ou da má vontade. Lutam nesse momento efêmero e eternidade e teremos que decidir o destino das nossas mentiras e entender a origem das nossas verdades. Vamos precisar, mesmo sendo impreciso o navegar, correr os riscos de reabrir os portos, contar os mortos e prosseguir. E se antes nosso perigo era desconhecer profundeza oceânica, agora o que ameaça a raça humana é rio seco, o raso riso, o rir, o ir de nada a nada em braçadas largas. No entento, em todos os livros sagrados, da bíblia ao novo curso em milagres, há muitas línguas e muitas linguagens. Seus profetas pedem por esperança, a plantam e afirmam que origem e destino é nosso lugar comum. Que somos Um por todos. Que estamos  todos por Um.

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72 comentários sobre “Um”

  1. Escrevi uma vez que você me parecia um homem de boa vontade, no sentido neotestamentário, ou que deveria ser: um homem que não condescende com a ira sem sentido. Mas aí, bem aí, amigo meu, é onde está o busilis, o nó. As tempestades costumam ser barulhentas e as vozes se perdem. Nós somos um povo de dura cerviz, pois não? E aí está você, escrevendo e escrevendo e dizendo que o importante não é ser ouvido, mas falar. Mas e sempre existe um “mas”, quem sabe a época não seja nada mais que isto: uma época. Uma coisa cheia de camadas como uma cebola: os bons, os que se acham bons, os maus e os que se achando maus não são maus, os delirantes, os comedidos, os rasos e os profundos. Coisas boas, coisas planas e as coisas profundas talvez não sejam, não sejamos, mais que camadas ou amálgama. Pausa. Gostei do seu texto e me permito um comentário: já notei que você desconfia da eternidade e desconfia mais ainda da busca da eternidade. Posso estar errado, mas acredito que você ambiciona parar de correr. Porque dentro de você alguma coisa sussurra que a eternidade está perdida dentro de um momento. Só falta adquirir a arte, o dom do artífice para descobrir, construir este efêmero cheio de eternidade insuspeitada. Enfim, adoro ouvir minha própria voz, releve. Abraço.

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    1. Então, fiquei uns dias olhando teu comentário, pensando em responder, contrapor ou -pelo menos- discordar de pontos aqui e ali. Foi quando percebi que você tem esse seu jeito de ler as coisas, os não ditos, as pessoas. Sua voz, imagino, deve ser boa de ouvir. Saiba que me emocionou, tocou gente que amo e que contribuiu para que a decisão de parar de correr seja adiada.

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  2. “teremos que decidir o destino das nossas mentiras e entender a origem das nossas verdades.” O que posso dizer? Tive vontade de imprimir esta frase em papel nobre, colocar numa moldura e suspender sobre a minha cabeceira, pra repetir como um mantra. Acabas de evoluir de compadre para mestre, neste instante. Namastê.

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      1. Como eu disse ao Manoel e à Mariana Gouveia, nós todos aqui precisamos nos encontrar qualquer dia pra tomar um café, pra eu me certificar de que vocês existem. Tenho a sensação de que eu mesma inventei vocês pra mim. Valha-me Deus, se vocês não existissem, compadre! Abraço.

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          1. Prova incontestável, meu caro. Sem mais questionamentos dessa ordem, então. Que bom. Seria trágico se um dia, por força do envelhecimento ou de uma sequência de desencantos eu deixasse de recriar um amigo imaginário tão, tão… enfim, ufa, sua existência independe de mim!

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  3. As vezes alguns textos me deixam em suspenso, repetindo suspiros. Salto de um blogue ao outro – vou viajando entre mundos. Deixo de ser o que era para ser essa figura em branco. Fecho o livro e, me demoro um pouco mais ali no canto do sofá porque não posso libertar-me de imediato do que li.
    Meu caro, em tempo em que tudo se descarta, não sei dizer se o amor está de fato a salvo, mas ao ler-te sei que alguém em algum lugar pondera o reinventar-se sem o contrair o novo, visando apenas dar continuidade a si mesmo… rs
    Bacio

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    1. Acho que você precisa saber, porque amigos fazem isso, se traduzem. E se há algo aqui desse lado do atlântico que tenho buscado sob todas as coisas é dar continuidade a mim mesmo. Não um continuismo caduco, sei que me entendes, mas um proseguir feliz, repetindo suspiros, saltando de uma verdade para outra, viajando entre mundos onde se não habito, sei que sou bem vindo. Você é bem-vinda aqui também. Beijo pra ti.

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  4. Assim como nos textos aqui publicados, também seus comentários no meu espaço de devaneios e reflexões estão sempre carregados de criatividade, sarcasmo, realismo, ilusão, loucura e sanidade… adoro teu estilo de escrever Mariel, embora, as vezes, precise me esforçar um pouco com os jogos de palavras, mas é dessa forma que aprendemos e enriquecemos nosso repertório.
    O presente texto me lembrou alguns artigos de Teilhard de Chardin e sua perspectiva de evolução e desenvolvimento do Cosmos; paradoxos gerando vida e complexificando a vida.
    Sem os paradoxos e as incertezas a vida não teria graça (no sentido de ter gosto, desafios, tesão, assim como se não houvesse os contrários – “bem e mal” por exemplo – não haveria a opção de agirmos ou não com graça) seriamos uma pasta homogenia e praticamente sem vida; bonecos de ar.

    Uffa, escrevi demais só para dizer que adorei o texto! rsrsrs

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    1. Eu adorei o comentário, que me enriquece, me alerta, me põe em movimento. Quando imaginei este blob, Jetro, pensei em companhias como as tuas, gente incerta, mas que busca e que não tem lá muito problema com o não sei. O não sei é o caminho mais curto para uma vida de sabedoria, imagino. E sinto em ti a sede de quem precisa encontrar respostas. Podemos fazer isso juntos, tenho certeza que será divertido e muito rico. Super abraço, querido.

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      1. Concordo com teu comentário, só não estou lá muito preocupado com as respostas, não as deixo me tirar a paz, se elas vêm e da forma que vem ou se faltam.
        Vamos nessa então, as descobertas são sempre mais saborosas se temos com quem compartilhar.

        Ah, e quanto ao comentário lá no blog foi só um descuido meu, ainda me sinto obrigado a ficar dando explicações sobre algumas coisas (se indico um livro de um pastor, digo que é interessante até para não cristãos, não importa se a pessoa seja ou não cristão) preciso acabar com isso… rsrsrs

        Abração!

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        1. Você tem toda a razão, querido. E invejo tua não preocupação, confesso que não consigo isso, não em tempo integral pelo menos. Pode contar comigo para os compartilhamentos, as motivações e os desejos de grandes descobertas. Quanto ao resto, deixaremos para os restantes.

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      1. Olá, Mariel, muito feliz com sua visita. Muito feliz de ver a poesia expandir-se por todos os lados, de todas as formas. Clau é de Claudenir (meu nome de batismo). Combinado: as trocas continuam. seja bem vindo!! Obrigada!

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  5. Texto de uma perspicácia e sentimento monstruosos! Esse trecho fez um ‘clic’ em minha emoção: “E se antes nosso perigo era desconhecer profundeza oceânica…” Simplesmente, lindo! E o jogo com as expressões do Dumas ficou de uma riqueza litero-poética sensacional! Amei! :)

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    1. Estamos aprendendo juntos, eu contigo, nós com todo mundo, Elizeu. O teu entusiasmo é um conforto pra mim, porque assim me sinto acompanhado na visão (nem sempre otimista) do mundo que vejo com a visão (esta sim muito otimista) do mundo que podemos construir. Super abraço.

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  6. Caramba, amigo, primo, irmão e mestre (aqui é o Fernandes português falando), que inspiração !

    Uma vez lemos um escritor confessando repetir o texto de dedicatórias em noites de autógrafos, pois era impossível encontrar em pouco tempo algo interessante a dizer para todas pessoas naquela fila de gente.

    Ele disse isso porque não conhecia o amigo, primo, irmão e mestr ! Seus textos são extremamente interessantes e importantes. Mas cada uma de suas respostas também é !

    Diziam na Grécia antiga que havia 9 musas. Temos a impressão que o amigo, pruimo, irmão e mestre fez uma clonagem e tem pelo menos 999 trabalhando para você. 8-)

    Com certeza há muito amor e respeito pelos leitores em tamanha produtividade. Mas não podemos esquecer sua extrema qualidade.

    999 musas ? Talvez mais: 999 ficariam cansadas de ter que inspirá-lo em toda essa produtividade e qualidade.

    Parabéns !

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    1. Primo, toma lá um abraço. Fico sempre pasmo com o tanto de coisas que você sabe, o lance das 9 musas, aquele conceito de que poeta é saber viver delicadamente, a inabilidade colorada (do espanhol), o lance dos mil fãs no twitter. E talvez o segredo seja esse: não são leitores, são pessoas em quem me inspiro para que as coisas interessantes do mundo se tornem um mundo interessante. Quem precisa de 999 musas tendo vocês ali, de segunda à segunda, hum? Quanto ao amor, você está certo, amo cada palavra dita ou calada, elas são radicais. Vivem entre o tudo e o nada. Obrigado, de verdade, uma verdade que faça a diferença. É o que nos liberta de perder tempo com o BBB e que faz olhar pra você.

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    1. Patricia, sempre soube que escrever me acalma. Continua sendo uma verdade e tanto pra mim. Acompanho seus dias descritos e somos colegas de classe, a classe dos amigos que olhando o mundo descrevem o dito, fazendo o possível para que o amor e a verdade sejam benditos. Beijo

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  7. “Caminhando e cantando e seguindo a canção…” Mariel estamos juntos nessa caminhada que se chama vida. Muito feliz em fazer essa caminhada ao lado de você e de tantos que conheci aqui, nessa blogosfera infinda. Obrigada por permitir essa caminhada a seu lado. Beijos e um ótimo carnaval pra você.

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    1. Obrigado a você, Roseli. No meu caso, mais caminhando do que cantando e seguindo a canção, penso que Vandré fá foi mais importante pra mim. Digo o mesmo: tenho recebido motivos os mais diversos para declarar quanto gente como você têm sido gentil comigo, me reservando um tempo de leitura, comentários, trocas. É indescritível a alegria que isso causa. Super obrigado. Beijos e bom carnaval também.

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  8. Mariel,
    Li palavras, mas recebi emoções. Li frases, mas acolhi reflexões.
    Perfeito e muito, muito belo!
    Sem bem saber a razão, vieram-me à memória versos de Quintana:

    “Se as coisas são inatingíveis… ora!
    Não é motivo para não querê-las…
    Que tristes os caminhos, se não fora
    A presença distante das estrelas!”

    Mario Quintana

    Grande abraço!

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    1. Dulce, amiga querida. Estive ali ali, do lado do Quintana umas três vezes. O sujeito era dado a poucos humores e fumava, fumava, fumava. Acabei de dizer para uma pessoa que a gentileza com que pessoas queridas como você tem ofertado pela presença aqui se compara às estrelas do Mário, que iluminam o caminho e inspiram. Obrigado por isso também. Um super abraço pra ti também

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  9. Recebo e-mail contando que há novo texto, no seu espaço. Abro sorriso, respiro fundo e me preparo para receber coisa boa.
    Sou apaixonada por livros e tenho certa dificuldade para ler em tablets, pcs e afins, mas esses meios tecnológicos me trouxeram algumas preciosidades em escrita.
    Agora, entre Isabel Allende, Zafón e alguns outros, tenho a felicidade de ler você.
    Tornou-se um dos meus autores favoritos, cujos textos são convites para o leitor sentir mais, pensar mais, doar-se mais. É um gozo de alma ler seus escritos. De verdade.
    Obrigada por escrever e partilhar-se.
    Beijo,

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    1. Cláudia, o dia está ganho. Sua gentileza é tocante e muito, muito motivadora. Penso que escrever é isso que você diz, partilhar-se um tanto e, também, dividir pesos, compartilhar alegrias, visões e espantos. Escrever me acalma, quem me acompanha sabe. Mas, acima de tudo, tem sido um espaço de conversas entre bons amigos de todos os lados. Nem sempre vamos juntos, nem sempre concordamos, mas sempre somos e estamos. Obrigado, de coração, pelo carinho da companhia.
      Beijo.

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  10. “A verdade vos libertará” belo lema latino, a liberdade só é possível através da verdade, verdade com o próximo, verdade consigo mesmo. Belo texto Mariel e sem dúvidas… “Lado a lado, estão o amor, as canções, os ditadores, os dragões, sapos e princesas, a escuridão implacável e as poucas luzes acesas”.

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