Mariel Fernandes

Carta aberta aos meninos da seleção

Meninos, saibam que eles chegam, devidamente acompanhados de suas certezas absolutas, Estão por todos os lados, os que sempre sabem exatamente o que fazer, como agir, o que falar. Eles tem um mantra: “eu avisei”. Não tremeriam diante de um adversário mais poderoso, mais preparado e melhor. Nem gaguejam, não tropeçam no cadarço, não têm tatu no nariz. Ele têm direito à vaia porque jamais esquecem de nada, se antecipam e são precavidos. Ninguém sabe como conseguem ter as rotas todas impressas, as conversas repassadas. Nem que tempo usam para treinar tanta sabedoria, os eles todos, esses que não fariam nada daquilo, que diriam tudo na cara e nunca, jamais teriam algum traço de dúvida.

Como será que se aprende sem o furo, sem a parte escura dos dias, sem as alegrias de um remendo bem feito? Qual virtude existe na canela sem cicatriz? Não há glória na derrota, mas pode ser glorioso o que se faz com ela. Aos 54 anos do meu segundo tempo, digo sem medo de errar: se fosse vocês, eu teria muito medo de errar. Penso que choraria antes, durante e depois do hino. Que não conseguiria entrar em campo, marcar alguém, correr. Ficaria paralisado caso 60 mil pessoas resolvessem me apoiar. Quando aos que vaiaram, acho que são um bando de traíras reunidos num amor condicionado ao sucesso. Que exigência é essa, onde só presta quem ganha sempre? Quem consegue viver sem errar o pênalti, a frase, sem perder a chave ou sofrer por besteira? Quem nunca tomou uma rasteira, não percebeu a tramoia, nem perdeu a namorada? Quem nunca teve um apagão, não soube o que dizer, esqueceu a senha na boca do caixa, soltou um pum sem querer, ou usou um sapato novo com a etiqueta aparecendo? Eu não preciso da seleção para amar ou odiar o Brasil. O meu país não fica maior se um time seu foge à luta. Torci pelos meninos e dessa vez não deu, vão brincar que essa dor já passa. Mas os donos do olimpo não perdoam o que existe de humano nas quedas, mesmo as volúveis como as esportivas. Na verdade, eles têm medo de saltar, naufragar e morrer na inanição que os mantém vivos. A vista, aqui do meu ponto, pondera que o pavor certo talvez devesse ser outro, o de existir num tédio bem decorado e com vista para o mar. Então, inexpressivos, viveríamos à salvo de naufrágios não porque enfrentamos as correntezas, mas porque evitamos (prudentemente) a aventura de navegar. Então, meninos, esqueçam os falsos comandantes, os reis do marketing, os caras dos discursos emocionantes. Eles queriam isso, justamente isso, pra poder olhar para a câmera e dizer: “bem que eu avisei”

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34 comentários sobre “Carta aberta aos meninos da seleção”

  1. Só consegui através do Face. Evidentemente estou com problemas nos botões. O comentário não apareceu por aqui, mas quando tentei de novo o site me disse que eu estava repetindo o comentário. Veremos.

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  2. Gostei muito do texto. Errar faz parte do aprendizado… Não devemos dar as costas a quem não conseguiu o que não estava preparado para conseguir, não estava no momento de conseguir.

    Estou surpresa sim, agora, passados alguns dias, com a indicação do Dunga — porque vejo comentaristas falando de futebol arte, com um saudosismo que não leva a lugar nenhum. O passado é passado. O mundo do esporte está em outro tempo, em outro momento.

    Enquanto isso, ninguém se preocupa com as outras ‘Artes’ brasileiras da educação à economia… Sei não, parece que o futebol, quer ganhemos ou não, continua a ser a fantasia preferida a nos esconder do espelho da nossa vida.

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    1. Olha, vou te confessar: com o Dunga (acho que ele gaúcho demais e olha que sou gaúcho) no comando me licencie como torcedor, até porque ficou um pouco over essa coisa toda. Agora você tem razão: nas outras artes estamos perdendo de goleada e ninguém pra fazer alguma coisa, nem que fosse contratar o dunga dessas áreas. Valeu por ter vindo, obrigado pelo comentário, volte sempre: estou torcendo por isso

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  3. Não assisti ao jogo meu caro, porque ando sem paciência para com o futebol. Ando sem paciência para tanto marketing e tão pouco esporte. Não torci a favor dos canarinhos, mas já fui fa confessa do futebol brasileiro. Aquele da era do Tele, do toque de bola, do fino trato, sem a graça que certos meninos insistem em fazer. Fosse o Brasil a estar vencendo o jogo contra a Alemanha, estariam esnobando em campo com um jogo desnecessário, visando humilhar o adversário. Já vi isso antes e achei lamentável. Mas todos, com certeza, aplaudiriam e sentir-se-iam regozijados…
    Enfim, o Brasil, ao meu ver e não é de agora, precisa rever seu futebol, porque o local, aquele do campeonato brasileiro, e de dar sono tanto quanto o da seleção canarinho.

    Bacio

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  4. E no meio de tanta coisa eu encontrei um ponto… um resumo, um momento de reflexão apontada…”o pavor certo talvez devesse ser outro, o de existir num tédio bem decorado e com vista para o mar.” Já que buscamos tanto o prato pronto e, agora que os temos aos montes, sofremos a saudade do plantio… não é não? Ótimo texto ;-) Até!

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  5. Fiquei absolutamente assustada com o resultado desse jogo com a Alemanha… nunca havia visto um resultado desses… mas temos que seguir em frente. O Brasil não é uma partida de futebol, não é mesmo. Vamos fazendo a nossa parte e virando o jogo! Abraços, amei o texto!!

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  6. Mariel, sempre atento Mariel. Sabe, a tua postagem, eu gostei mesmo foi do texto. Fluido, barroco, mas com aquela aparência de ter sido feito de um jato. Não sei se me faço entender, apreciei a forma, talvez em detrimento da essência. Sou desses apressados que primeiro apreciam a estátua, o quadro, as harmonias e só depois se detêm no significado. Mas vamos à essência (vamos, venha comigo…), vamos ao busílis, Mariel. Gostei da ternura com os meninos, embora não concorde com os meninos, nem mesmo concorde que são meninos, gostei da ternura, do desvelo. É que acho que a coisa é muito grande e os meninos são só parte dela (talvez a menos importante). Mas são parte, não obstante. concordo contigo quanto aos profetas do caos, deliciando-se com o desastre, desfilando suas platitudes. Mas os meninos, Mariel, não são meninos. Minha opinião. No mais, permita-me dizer que ando gostando das tuas últimas postagens, porque me parecem que têm um só motivo condutor, como se você estivesse introduzindo um assunto, uma conversa. No mais, mais uma vez, teu texto: muito bom. Crônica pensada com as entranhas, seivosa e quente. Um abraço, Mariel. Caloroso.

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    1. Meu menino querido, além de parente por parte de textos. Acho que, na verdade, escrevia pra mim, o menino que fui, não sei. Escrever me acalma e me descreve, mistura o fogo e a neve que exigem nas coisas. Não sei, te conto querido, não sei: talvez não sejam meninos, mas não creio que esse seja o ponto, é? Não é, te conheço. Agora tem uma coisa: você me lê no original, fico absolutamente surpreso e emocionado com tamanha sensibilidade e percepção. Você entendeu as potagens, elas me trazem num assunto que eu mesmo ainda não consegui decifrar. Vou continuar escrevendo. Então descobriremos juntos. Você, certamente, antes do que eu. Abraço pra você também. De urso.

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  7. Gostei muito mesmo desse seu manifesto em favor da Seleção Brasileira diante do “7×1”!

    Eu estou com ela desde antes do início da Copa e continuarei com ela sempre. Com qualidades e defeitos!

    Eu não vaiei o tal apagão. O que disse é que devemos aprender com os próprios. Até por ser uma das lições que aprendi ainda em criança com meu pai. Como contei no adeus a ele:
    http://cadeiranteemprimeirasviagens.wordpress.com/2012/09/08/o-adeus-ao-meu-pai/

    É que houve um erro, dai em vez de simplesmente esquecer precisam encarar essa sombra (Linguagem Junguiana) mesmo que só entre eles: técnicos e jogadores.

    Não foi um esquecer a senha, até por conta de que quando esquecemos algo voltar ao ato anterior quase sempre nos leva a lembrar do que iríamos fazer.

    Bem, atualmente com tantos códigos numéricos para memorizar, às vezes me dá um branco sim. E nem é pela idade: 56 :)

    Enfim, o meu manifesto é mesmo que não “apague” o erro, mas que tire lições daí. Até porque aquilo que você resiste, persiste em si. Irá as-sombra-r no futuro. Como também diria Jung.

    Orgulho de ser brasileira :)

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