Mariel Fernandes

O título que não veio

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Era um jogo do Inter. Angustiado e atento, eu era um garoto grudado no rádio. O locutor descrevia a cena e exagerava como todo locutor faz. Nos levava aos trancos, solavancos e chiados ao estádio adversário, gritando que “o colorado enfrenta de tudo aqui na Argentina. São heróis da pátria rio-grandense, são gaúchos, são vermelhos, são poucos, mas são imbatíveis”. Assim que disse imbatíveis, houve um silêncio. Algo longo e estranho, incompatível com a fé de quem transmitia o jogo, descrito como “uma luta de gigantes, centímetro por centímetro do campo”. É impossível tentar determinar quanto tempo durou aquele momento parado, tenso e mudo. Mas passado aquele hiato repleto do nada dito, o gol do River Plate foi anunciado. Procurei certeza de reversões num irmão mais velho. Sua expressão era lívida e apenas me disse “pode não acontecer”. Como era possível não acontecer? Já já entra o nosso, alguém vai passar por um, passar por dois e então viria o gol salvador, o gol dos imbatíveis, o gol da redenção, o gol que não veio. Lembro de uma tristeza só possível aos inconsoláveis e aos apaixonados, aos lunáticos e aos esperançosos sem motivo. O garoto que era não compreenderia a reação do homem que reviu aquele jogo graças às coisas da tecnologia. Achei a partida ruim, lenta, desprovida de maiores emoções e, sinceramente, o River era melhor. Não havia heróis e o placar deixou claro, não eram nem imbatíveis, sequer havia uma pátria rio-grandense. Por anos lembrei dos sons daquela partida. Quando a vi dia desses, quase não a reconheci. Algumas emoções são assim, acho. Precisam de tempo para que o apego das lembranças afetivas não surta mais o efeito que um dia teve sobre a forma como entendemos amores, rancores, vitórias e derrotas. Imagino que a experiência dos dias nos ofereça a chance incrível de perceber a falta de importância de certos fatos, ainda que fatos sejam. O que me faz torcer para o Inter não foram suas vitórias e sim o fato de tê-las acompanhado, acabando com as unhas e cutículas, dependendo do jogo. Foi o tempo que vi o time crescer e que eu mesmo cresci. Foi saber decor e salteado as escalações, foi ter acordado cedo quando o jogo era no Japão. Será que meu amor pelo Inter nasceu porque gostei do vermelho e do símbolo do clube ou por que estava ao lado do meu irmão, os dois grudados no rádio e ouvindo o narrador exagerado? Talvez essa resposta venha com o tempo, talvez não. O que entendo agora é que o essencial na construção de qualquer história é a oportunidade que ela te dá de experimentar forças que temos em nós. Somos formados por inexplicáveis possibilidades, o que inclui certezas que serão abaladas, confirmadas ou esquecidas. O Inter, naquela noite fria de chuva, perdeu. E isso não o impediu de ser campeão mundial de clubes. O garoto esteve triste. Isso inspirou o homem a lhe mandar boas notícias.

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60 comentários sobre “O título que não veio”

  1. Mazah guri! És gaúcho como eu então! Eu e a Bruna do Divergências Vitais e o Eduardo do Verdades de um Escolhido! Bom saber que há mais um no time! Belo texto, inspirador :)
    Abraços!

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  2. O maior de todos os títulos: ser do Inter. até hoje, o vermelho de sua camiseta me emociona tanto quanto o vi pela primeira vez no velho e saudoso Eucaliptos. Assim, além do Inter, os textos chegam e se acomodam em minha leitura. Meu abraço.

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  3. Quem mais nesse mundo seria capas de transformar uma partida de futebol numa poesia? Você sempre me surpreender haha :D

    “O locutor descrevia a cena e
    exagerava como todo locutor
    faz.” Faz parte do show, não é?

    Amei teu texto, Mariel!

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  4. Revisitar nossas crenças de infâncias. Nossos sonhos quase realizados. Nossas tristezas incrustadas. Revisitar-nos… muitas vezes faz-nos crescer… mais que o tempo… mais que os anos… É bom ver aquela criança que chora, que ri, que sonha… é bom… nos dá vida!!
    Linda publicação… do futebol da infância só trago as promessas que fazia pra ver o Brasil campeão… bons tempos aqueles em que as orações eram menos sofridas (mas ledo engano se achas que menos sentidas).

    Beijo ternurento e simbora voltar pro presente…e torcer para daqui a anos quando revisitar-me também cresça… mais que o tempo…mais que os anos.

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    1. Clau, que bom você, suas observações e a motivação que causa. Bom, acho que sempre é tempo de começar a torcer pro inter. Falando em presente, hoje tem jogo contra o Grêmio, nosso arqui-rival. Vamos? Conto com tua torcida!

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  5. Para mim foi o Euro 2004 quando Portugal perdeu contra a Grécia. Não ligo muito a futebol. Mas quando joga a selecção portuguesa até fico com palpitações. Acho que estas coisa do amor do futebol advém mais da partilha que temos com quem amamos. Aquela emoção toda, o sofrer ou alegria partilhada. :) Lindo texto. Parabéns.

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    1. E quem era o técnico? Luiz Felipe Scolari, o Felipão. Hoje ele é o técnico do Grêmio, arquirrival do Inter, em Porto Alegre. Lembro que torci como nunca para Portugal e que fiquei até triste com o resultado, que considerei injusto com o que o time havia feito na campanha toda. Adorei teu comentário, assim, de verdade.

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  6. Para alguns foi o jogo, para outros uma voz, para outros ainda, foram papoilas que aterravam o cobriam um jardim, pintado-o de branco. Agora já não há jardim, a voz calou-se e o jogo não entrou na posteridade. Mas resta-nos a lembrança de um momento de eternidade que para sempre preenche a alma.
    Belíssima forma de trazer poesia a um momento :)
    Abraço, Mariel!

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  7. Você me fez lembrar do jogo do Milan (time para o qual torcia na infância) contra o São Paulo (desconhecido time brasileiro para mim). Era impossível perder. Éramos melhores e por lá, nem se dava importância ao mundialito japonês. Era um amistoso contra um time brasileiro apenas para mostrar aos que se consideravam “os donos da bola” que futebol não era pelada. Era coisa séria. Perdemos. Não entendi a derrota, lembro-me bem… e eu fui pesquisar o tal time desconhecido, que na época tinha como tecnico o homem que mio nono dizia ser um maestro dos Campos, o senhor Tele. Me encantei com o toque em campo. Era um futebol moderno taticamente. Me apaixonei e passei a questionar o estilo truculento da azurra em campo.
    Quis o destino, anos depois, que eu viesse vive aqui em Sampa, vendo de perto o São Paulo, time pelo qual passei a torcer, mas nos últimos anos, me desanimei, não apenas com o São Paulo, mas com o futebol brasileiro em si. Perdeu a graça, o charme, falta um Mestre. Falta futebol….

    Bacio

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    1. Minha nossa, Tele Santana, o mestre de todos os mares. Sabe que o técnico de um time europeu (não vou lembrar o nome agora) deu uma declaração exemplar sobre o time do São Paulo daquela época. Ele perdeu, acho, de 2X0 e disse o seguinte: “bem, fomos atropelados. Mas pelo menos era uma Ferrari”. Disse tudo, né? Aquele time era uma poesia. Não desanime: temos o inter, hum?

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  8. Não sei se ira repetido, mas o WordPress anda com “bugs”. Se repetir são 2 X 0, rssss.
    Mariel dizem que o que não tem remédio, remediado está. Se o Inter te deixa assim vivo e falante, aceitando o vencer e até as derrotas, voltar na lembrança e também te deixa assim na saudade, com certeza é por envolver sua mente e emoção da idade. Bom jogo esse narrado, não seria o Galvão ou estou enganado? Rsssssssssssssss.

    Abraços amigo! ;)

    Curtido por 1 pessoa

  9. Mariel dizem que o que não tem remédio, remediado está. Se o Inter te deixa assim vivo e falante, aceitando o vencer e até as derrotas, voltar na lembrança e também te deixa assim na saudade, com certeza é por envolver sua mente e emoção da idade. Bom jogo esse narrado, não seria o Galvão ou estou enganado? Rsssssssssssssss.

    Abraços amigo! ;)

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  10. Essas inexplicáveis possibilidades que te formam é que abrem também os caminhos que desconheces. Sempre tememos o desconhecido, e sair da “zona de conforto” , ao contrário do que imaginamos,talvez traga um confortável desconforto. Muitas vezes as “derrotas” são apenas uma questão de perspectiva, daí aquelas ip’s mudam em nós o modo como percebemos, sentimos e analisamos as circunstâncias. O que a princípio os olhos não alcançam pode gerar em nosso íntimo preciosas expectativas e sensações esperançosas.

    Bola pra o gol meu querido! 8)

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  11. Bah! Quanto entendimento da vida nessa ficha aí, hein? É, muitas vezes, nesse lugar do exagero que somos subjetivados, de onde brotam paixões… caiu uma bigorna aqui agora.
    Saudações de uma colorada que não acompanha futebol…rs
    ;-)
    Até!

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  12. Fiquei pensando.. as coisas que esperamos e que não vem, o quanto elas dependem mais do externo ou de nós mesmos.. a quebra da esperança. A noção de pátria inexistente e a relação da emoção em conexão à memória para gerar a forma como entendemos os sentidos./o mundo. Como a vida pode ser reconfortante em sua continuidade de aprendizado, mesmo depois de decepções, pois continuamos crescendo.. Os símbolos do nosso amor, respostas que esperamos, o tempo de construção da nossa história e suas versões..a reviravolta do mundo..

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    1. Você fala em quebra da esperança e é um jeito interessante de olhar. Digo isso porque imagino que estou tateando naquilo percebido como as derrotas do amor. Confesso uma imensa dificuldade, porque fui formatado no “foram felizes para sempre” e “o amor sempre vence no final”. Tenho pensado sobre isso, talvez ele perca às vezes. Talvez não seja o sentido da felicidade. E agora você traz isso: talvez seja a quebra da esperança. Imagino que vai ser uma viagem e tanto. conto com tua companhia.

      Curtido por 1 pessoa

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