Mariel Fernandes

Quando o existencialismo me mandou parar com o mi mi mi

Uma das coisas mais lindasmariel fernandes.sartre.blog.asteriscos já ditas a respeito da conexão existente entre nossas ações, sobre quem somos e a realidade na qual vivemos vem de Sartre. “É como se a humanidade inteira lançasse holofotes sobre o que você fará de si próprio para definir quem ela mesma é.” Então é comigo? O que me tornei tem minha assinatura? Não posso indicar um amigo desatento, a falta de oportunidades, o chefe injusto, o destino frio ou um ataque cardíaco seguido de dores diárias por todos os ocorridos? Pode, me conta o existencialista. Mas adverte, se divertindo por certo: “o que define alguém não é o que lhe aconteceu, mas o que fez com isso”. Assim, sem mais nem menos, o irresponsável colocara a vida que me cabe em minhas mãos. Não é pouca coisa, olhando bem. E sem desculpas católicas apostólicas romanas, sempre tão bem-vindas, eis a existência esculpida à nossa imagem e semelhança. Antes de livros, ensaios, filmes, peças, teses, ou músicas enluaradas, somos autores de nós mesmos. Produzimos e estrelamos o maior espetáculo da Terra, somos o que fomos capazes de tornar existente, é a vida. Ela e seus percalços, solavancos, encontros, abandonos, mãos bailarinas e despedidas cruéis ou injustas. E se não temos mais desvios e escapes, eis a boa notícia: deixamos de nos reduzir a desculpas para assumir as escolhas que nos pertencem, seus pesos, tristezas, risos e as experiências que produzem. Caminhar é o único caminho e acredite: estamos nessa sozinhos, ainda que possamos ser solidários às vezes. Nos amarão pouco, seremos abandonados, o Grêmio vai ganhar algumas e o mundo se mostrará muito competente na ideia de desfazer sonhos. Ainda assim, a natureza humana se distingue quando não desiste de si mesma e passa a construir abrigos onde a dor se exile, a esperança brinque, o perdão repare e os encontros tenham o aroma da terra molhada. Não há garantias, nem salvo condutos e talvez o amor da sua vida o ignore solenemente. Ainda assim, a decisão é sua. O que fazer com o excesso, com a falta, com a saudade, com o presente, com as alianças, com as lembranças, com a saudade, com o fugaz que se esconde em cada instante da eternidade? Na verdade, importa pouco o que vamos achar. Viver é sempre um grande espetáculo e o show não pode parar.

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71 comentários sobre “Quando o existencialismo me mandou parar com o mi mi mi”

      1. Também acho, mas preciso confessar que não é meu, por isso as aspas. é de um mestre, um cara que é quase um Aristóteles dos nossos tempos, acompanhado de seu baixo, sua sanfona, sua gaita, seus pedais, guitarras…ufa. Um polvo: Humberto Gessinger ;-) Tinha que ser gaúcho, né? hahaha Só tem um defeito…é gremista :-O
        Até!

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  1. Mariel olha que tento, mas me perco nesse mundo da rede. Ainda bem que deu tempo de achar, verificar e voltar a leitura sempre tão elaborada que mostra-me as entrelinhas. Tudo quando leio me faz ou me traz musica letras que descrevem bem algumas escritas. Parece coisa de sintonia mas a palavra “Natureza humana” sempre que a vejo me vem a lembrança do livro, “O Paradigma Perdido: a natureza humana” de Edgar Morin e claro como falei de musica entre tantas diria Esquinas de Djavan. Sabe aquela coisa de sermos uma metamorfose ambulante como diria o Raul, é o que percebo, sinto, respiro, vejo. Viver tornou-se algo de momentos, de instantes na mesma velocidade que evoluímos em tecnologia, também agimos e evoluímos para situações absurdamente inesperadas, ora com uma luminosidade ofuscante de beleza em ser útil, humano na mais profunda estrutura da palavra, ora com a obscuridade maléfica da própria natureza humana.
    Não somos nada Mariel, mas não posso te dar certeza disso, perde a graça de viver, perde a atuação de nós artistas, perde o que mais nos amedronta, o fim da vida.
    Há nos provérbios de Ifá um texto classificado como tesouros e que diz assim:
    “A fijó gba Awà; a fìjà gba Awà; bí a ò bá jó, bí a ò bá jà, bí a bá ti gba Awà, kò tán bí?
    Tradução livre por Kambami
    Se dançamos, tomamos posse/(CONSCIÊNCIA) de AWA, se lutamos, tomamos posse de AWA, se não dançarmos e nem lutarmos e mesmo assim tomamos posse de AWA, de qualquer maneira o resultado não é o mesmo?
    AWA – significa NÓS MESMOS.
    Parece que os tribais já entendiam o que agora começamos com muito estudo tomar consciência.
    Falei muito né? Mas deixa que foi muito bom pra mim. Abraços. =)

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    1. Nossa, querido. Consciência é tudo. Uma vez perguntaram ao Pelé por que ele cabeceava de olhos abertos. A resposta, simples como a de um rei: “porque assim eu vejo o gol antes de todos”. Como você pode ver, sou mais chucro que você em termos de referência, mas chegamos a um ponto parecido, a busca. Ganhei o dia com o comentário. Grande abraço!

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      1. A Mariel você sempre carinhoso nas palavras, nada de chucro amigo, apenas trocamos nossas “vistas do seu ponto”. Aprendo muito aqui e gosto como se fosse um local onde sei que ao chegar sou recebido com uma belo chimarrão para prosear. O abraço é meu e a gratidão também! :)

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  2. Nossa, Mariel, que coisa linda que você escreveu agora!
    Algo lindo, que precisamos aprender, que precisamos aperfeiçoar depois de ter aprendido: a resiliência! Isso aprendi em uma fase da vida em que as coisas deram meio errado, e tive que parar de culpar os outros pelo que acontecia comigo, e assumir minha responsabilidade pelo que faço da vida, sendo ela amiga ou traiçoeira, pois ela é assim mesmo, não é? E aprendi a perdoar, aprendi a ser forte e a priorizar minha felicidade, e aprendi a ver os desafios como forma de me fortalecer diante da vida!
    Amei seu texto, disse tudo!
    Xero

    http://mulherpequena.wordpress.com

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    1. Mari, ganhei o dia. É interessante ver que este post propiciou a quem me deu a alegria da leitura uma oportunidade de mostrar-se um tanto mais, a partir das experiências vividas. Aprendi contigo e me emocionou de fato o que escreveste. Beijo pra ti!

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  3. Olha eu aqui.. (….) “Estamos nessa sozinhos, ainda que possamos ser solidários às vezes. Nos amarão pouco, seremos abandonados”. Não sei o por que mais esse trechinho mim lembra os cachorros de rua,são tão solidários no amor eles não são egoístas eles fazem de tudo pra está perto do humano e mesmo assim são abondonados.

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  4. Não acho que temos tanto domínio assim. Mas, sim, as escolhas em parte são nossas. Agora, deixar de mimimi é muito mais que uma ordem do existencialismo. É sobretudo uma escolha também. Inteligente. Até porque a saliva da boca dificilmente salvará oceanos. Mas não podemos esquecer que ela tem químicos que podem amenizar feridas. Claro, na intimidade.

    Preciso dizer que gostei?

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  5. “Show must go on”…já dizia meu querido Freddie. Falou tudo e um pouco mais. Viver é isso. A gente compra o pacote todo. Não dá para comprar à parte. Temos momentos bons, outros nem tanto, alguns muito ruins mas o importante, é nossa visão para tudo mudar e enxergar a beleza e sutileza da vida. Uma das coisas boas que a vida me ofertou foi ter encontrado você e seus escritos aqui, na blogosfera. Bom demais!!!

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    1. Roseli, não tinha pensado nesse ponto de vista, a impressão que a crônica está causando e que tem este aspecto que tu vês e que eu mesmo não pensei. Faldo da vida como um pacotinho completo. Tô aqui, pensando a respeito. Quanto ao encontro, concordamos: amigos são essenciais sempre, existencialistas ou não. E tu és uma amizade dessas, que a gente ganha e nunca mais deixa de ganhar.

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  6. Mariel,
    explosoes de sentimentos sempre se farao presentes em nossas vidas, mas roubo tuas palavras finais em concordancia total, “Viver é sempre um grande espetáculo e o show não pode parar”.
    Beijo enorme

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  7. Lindo texto, Mariel!
    Uma das coisas mais difíceis da minha vida foi assumir as rédeas e aceitar que eu era a responsável pelo meu destino e pela forma como levantaria após cada tombo. É tão mais simples jogar essa responsabilidade nos outros, não é?
    Quando assumi e aceitei, nesse momento, apenas nesse momento, amadureci. Aos poucos veio a paz e alguma tranquilidade. Nem sempre é fácil. Aliás, é muito difícil.
    Um lindo dia pra você!
    :)

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    1. Silvia, assumir as rédeas é algo, não? A conclusão de que somos autores de nós mesmos é alegre e assusta ao mesmo tempo. O melhor da paz é que ela venha com a tranquilidade que os aprendizados sempre trazem. Outro dia lindo pra ti.

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  8. Confesso que algumas vezes me pergunto no porque sigo em frente… carga pesada demais para se levar sozinha… mas aí uma força interior me leva a continuar… antes ela vinha com mais tesão… agora diminuiu em intensidade, mas mesmo assim me agarro a ela… Lágrimas rolaram enquanto eu escrevia… Sei lá, devo ser burra em apesar de tudo ainda querer continuar nessa vida…

    Não pare de mi-mi-mi :) Você faz bem a alma!
    Beijos e Flores,

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