Mariel Fernandes

Um dia por vez

amor

A mais bela definição para saudade que conheço vem do Chico. “É como um barco, que aos poucos descreve um arco e evita atracar no cais”. A descrição chega a ser cruel. É possível ver a cena, a nau se movimentando lentamente, a esperança à vista, o olhar descrente, o abandono vagaroso do porto, o mar impondo distâncias entre você e as suas lembranças. Ainda que seja mais bonita do que a verdade, sugiro uma atenção cuidadosa da saudade. Ela arde, dá boa poesia, mas não liberta. Ah, o pão de queijo da minha vó. Bom mesmo era o Opala. No tempo dos militares isso não teria acontecido. Acontece que passado é fascinante porque passou, não está mais lá, pode ser editado e prosseguir te confundindo infinitamente. O passado não é um lugar, é um covarde que descreve um arco e evita atracar no cais. O futuro é um bom inspirador de filmes, contos, livros e pessoas. Mas se trata, ele também, de um farsante. Trata-se de uma promessa, uma premissa, uma aposta. É assim e por isso que desejo algo além da poesia. É o amor que levo de presente em cada um dos teus dias.

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74 comentários sobre “Um dia por vez”

  1. É realmente uma boa inspiração, mas sem cuidado te toma a vida.
    Dói, machuca e faz sangrar, não tem como viver assim.
    Mas como não viver assim? Esse é o truque.
    Se descobrir, engarrafa e vende. Eu compro. ;)
    Agora, compro três vezes mais, se descobrir como não viver no futuro, aquele que nunca chega.
    Parece que um faz parte do outro e por isso amei seu texto, mais uma vez.
    Bjooo Mariel.

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  2. Preciso comentar aqui, mas só comento com calma e elndo com cuidado. Agora estou correndo, então não vale. O pouco que consegui ler, me fez lembrar de você assim que ganhei o prêmio. Se não curtir, não tem problema, mas gostaria que soubesse assim mesmo.
    Te indiquei para o prêmio DARDOS!! Se já tiver ganho, tranquilo, é um prêmio e vai assim mesmo com todo meu carinho.
    É seu.
    https://morgauseds.wordpress.com/2015/12/16/premio-dardos/
    RESPOSTA

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      1. Opa! tenho que produzir algo então. :) Estou em falta com meu blog e com aqueles que sigo. Mas é uma cobrança interna, nunca vou me acostumar com ela. rsrs
        Adorei o que escreve e como escreve, ainda não li tudo, mas o que li já fez valer a indicação. Parabéns! ;)
        Vou criar mais tempo, estou precisando. Vamos ver como me saio.
        Bjo

        Curtido por 1 pessoa

  3. Caro Mariel, gosto do seu pensar.
    E quanto a saudade, preciso falar dela, sob a minha ótica. Estou vivenciando a descoberta de que até hoje eu não sabia realmente o que, ou quem, era essa tal saudade. Mas essa danada decidiu estabelecer uma relação muito íntima comigo. Relação que dói, arde, aprisiona e consome… Porém, é necessário deixá-la se expressar para conhecê-la e saber como tratá-la e como impedi-la de se instalar definitivamente em minha vida, em meus pensamentos. É um exercício diário para não convidá-la a fazermos um brinde às boas (ou más) lembranças que ela trás. Já nem sei o que dói mais, se é a saudade ou o exercício de impedir a sua permanência.

    Penso que a saudade pode ser saudável se não resolvermos fazer dela a nossa melhor companhia.

    PS.: Há dois meses minha mãe dá continuidade à sua evolução em outro plano, merecidamente.

    Abraço.

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    1. Solange, que bom que vieste e que gostas do meu pensar. Sendo sincero, meu pensar é estreito. Mas minha sede me motiva a alargar os limites. Fiquei aqui conjecturando. Se a relação arde, dói, aprisiona e consome, o que há de simétrica e útil nisso? Claro que falo a partir do meu filtro e penso que se o sofrimento é inevitável, a saída dele é uma escolha. Entendo que é preciso tempo e defendo que as dores são legítimas. Como vejo, saudade não é companhia em momento nenhum. É um instante cuja duração depende dos nossos acordos com a vida. Imagino que sua maezinha faça falta, elas sempre fazem. E se é verdade que existe um outro plano, talvez você possa concordar comigo nisso: estamos conectados uns aos outros por laços que nos escapam. Como te disse, a saudade é um lamento pelo hiato que causa e pelas distâncias que impõe. Mas se algo precisa nos comandar que seja a o amor ou a fé: ambos removem montanhas. Fique bem,
      outro abraço.

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  4. Bem, há de sempre tentar vivenciar bem o momento presente! É viver o agora :)

    Agora, sobre o passado… daquilo nos deixa saudades… Podendo e querendo revisitá-lo porque não?

    Quando eu ia visitar minha avó, passar umas horinhas com ela…. Ao me levar no portão, após me dar um beijo na testa e ainda com as mãos em minhas faces, olhando dentro dos meus olhos me dizia: “_Você vai onde o seu coração te manda…” eu então dizia: “_Vó! Enquanto minhas pernas me levarem, eu irei sjm!”…

    Hoje em dia minhas pernas não me deixam ir livremente… requer até custos… Assim, meu barco fica muito mais atracado… Pelo menos a nau que segue pelos mares da internet essa sim ainda me leva livre em matar as saudades de alguns :)

    Beijão!

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    1. Lella, que bom você por aqui. Recomeçamos nos nos frequentar, o que é bom. Sua vô era uma sábia, querida. E sabia o coração bom e a alma guerreira da neta que tinha. A vista do meu ponto ensina que há muitas formas de se ficar parado e outras tantas de se movimentar. Você encontrou a sua. É o que conta. Beijão também!

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      1. Mas é verdade Mariel, as vezes passo tanto tempo sentindo saudade de tudo, de tempo em que as coisas eram assim e assado, e você fica, fica e fica na saudade até esquecer do presente. É de se preocupar, porque o presente anda tão mal que meio que criamos uma maquina do passado na cabeça, como naquele livro “em algum lugar do passado” do Richard Matheson.

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        1. Mas a minha resposta era pra reforço a pertinência do teu ponto de vista. De fato, criamos uma máquina do passado. E como você, não tenho dúvidas: é uma máquina poderosa. “Em algum lugar do passado” é um livro ótimo.

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  5. Bom, já que ele será adotado, deixá-lo-ei:

    Não sei não se ela é mais bonita que verdade. Eu diria que não. No entanto, é uma delícia sentir. Acontece que ela não existe só em razão do que passou. Existem outrassss razões. Quanto ao futuro não posso discordar, até porque ele às vezes chega, sem chegar. E é aí que a definição cai como uma luva. Agora, pra mim, antes e depois da poesia, só poesia. E, claro, ela é muito mais que aquilo que se vê. Nela cabe o universo. haha, quanta abobrinha né? tá bom. Fuiii!

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  6. Bem calculado. Não perdeste a medida, lindo e tocante texto. Sim. É o amor que conseguistes transmitir. Um mestre.
    Mas, bem que poderias contar alguma aventura de opalão. Outro dia mesmo eu estava aqui a matutar o que é que os garotos vêem tanto em turbinar, enfeitar, enfim, gastar um grana no xodó de quatro rodas. Pode contar editado, com o verniz do tempo.
    Um grande abraço Mariel

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  7. Incrível seu texto, Mariel!
    Acho que eu deveria lê-lo todos os dias, porque tenho uma enorme tendência de viver com saudades daquilo que passou. Vou tornar essa frase o meu mantra:
    “Acontece que passado é fascinante porque passou, não está mais lá, pode ser editado e prosseguir te confundindo infinitamente.”
    Uma ótima semana!

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    1. Doutora, vou contar um segredo pra ti. Achava que devia declarar guerra ao passado. Até que entendi, não assim, sorrindo como agora, que ele não está mais ali.Não é que se esconda, simplesmente não existe, é uma sombra, a tentativa triste de tentar prender o momento em uma fotografia. Presente, presente, presente. Esse é o meu mantra para andar ao lado de gente boa como você.

      Curtido por 2 pessoas

    1. Mariana, o que vale e o hoje vivido, errado, acertado, visto, tentado, o hoje dos que arremangam as mangas e fazem a semeadura tanto do chão de virão as coisas quanto da poesia, que é pra onde elas vão. Se bem que sabes mais do que eu a respeito disso. Grato a você, grato a você.

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  8. Poética definição. Coisas do Chico.
    O passado é como um covarde q não quer ir só, e q quase nos cega, a ponto de caminhar um pouco com ele, p um lugar q não se consegue chegar, muito menos viver como antes.
    O futuro é outro malandrinho q quase nos cega, e por vezes, impede-nos de viver aquele q está mesmo conosco, o nosso verdadeiro amigo, o presente.
    Abraços, O Miau do Leão

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