A única

Foi impressionante, reinou absoluta na minha vida, até entrar no rio de onde jamais sairia. Antes dela mergulhar pra sempre no que há de bom a recordar, é fundamental dizer que não haverá outra. Yara, assim com y, foi amor em todas as direções. Começou no exato momento em que a vi chegando e permanece criando memórias pelo tanto que andamos juntos. Antes do acidente que terminou no rio onde a deixei, percorremos juntos dias felizes e suspirantes. Entendimento completo, equilíbrio absoluto, uma intimidade que enfrentou, alegre e divertida, o que havia de tempo e suas chuvas, além do que existia de sol e as sedes que provoca. Não houve distância entre nós. Posso sentir agora mesmo minha mão percorrendo suas formas proporcionais, unidas por curvas e retas diversas. Sempre fomos táteis, sutis e fáceis um para o outro. Gostava de ver seus enfeites, conhecia um a um os sons que emitia e até o baque no rio, não olhei para outra. Lembro do dia exato, era um domingo dedicado à pescas no Guaíba, praia do Lami, Porto Alegre, 11h45. Chegamos cedo, sem pressa, não sabia que jamais a veria novamente. Nem que não haveria nada que eu pudesse fazer. O sol escaldante exigia Minuano, um refrigerante local, doce como cana de açúcar. Fmariel fernandes.monarcomos buscar e na volta, aconteceu o descuido. Um gesto em falso, a ponte chega, uma batida seca, ela cai no rio. Depois do susto, apareceu gente de todo tipo, eu em desalinho, sem fôlego e descrente daquela separação. Foi como chegou, causando uma surpresa. Quando meu irmão mais velho me tirou à força do rio, já tarde da noite, ninguém mais acreditava que a encontraria. E foi mesmo a última vez que vi minha primeira bicicleta, uma  Monareta Dobramatic, Yara para os íntimos.

65 comentários

  1. Mariel, fiquei meio sem fôlego…
    Acho que já estava emocionada, quase chorando, quando cheguei à parte em que você fala da bicicleta!!!
    Um texto maravilhoso!
    😊🌷

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    1. Silvia, Yara tinha alma, acredite. Nos falávamos, havia um entendimento perfeito. Portanto, sei como ela é capaz de emocionar mesmo. PS: que bom você por aqui.

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  2. Eu já estava aqui chorando 😢. Coitada da Yara. Mariel quase indecente: “Posso sentir agora mesmo minha mão percorrendo suas formas proporcionais, unidas por curvas e retas diversas.”
    Aí fechou com chave de ouro… Chorei de rir.

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  3. Quando crescer, vou querer escrever tão bem quanto você.

    Parabéns, por mais um belo trabalho como de costume.

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    1. Gustavo, querido. Eu descrevo o que vivi. Vendo ou lembrando, anoto e compartilho a experiência. Depois, é contar com corações gentis como o teu, capazes de se motivar com a vida. Grato, de coração, por isso.

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  4. Um nome muito apropriado para acabar no rio. Desde o início já se sabia como e onde acabaria… Excelente crônica.

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      1. Minha nossa digo eu! Desculpe-me tive a impressão de ter lido Yara. Mas se é Yama, fica o dito por não dito! ;)

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  5. Sempre foi uma das minhas paixões – platônicas – nunca acertamos as contas.
    Escrevo sobre isso em um texto com o nome de inanimada.
    texto lindo como sempre, Mariel!
    beijo

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    1. E onde está o inanimada? Fiquei curioso pra ler… Sempre é tempo de começar a andar, Mariana. E depois que você começar, garanto, nunca mais vai deixar de fazer isso

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  6. Pensei em tudo, do sobrenatural a uma amor antigo, mas vi a foto…rsrsrs
    Maravilhoso seu texto e acho, inclusive, que dispensaria comentários, só que não, obviamente.
    Quem sabe, um dia, eu chego perto e escrevo algo assim, tão bem.
    A primeira bicicleta a gente nunca esquece, assim como outras primeiras na vida.
    Parabéns! Lindo, mas muito lindo seu texto.
    Bjoooo
    P.S.: Feliz 2016!!!!!

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    1. Tenho uma crença sobre o que escrevo, sabe? Na verdade, descrevo e isso é diferente de escrever. Descrevo o que vejo, é contar o que estou vendo ou – nesse caso – recordar o vivido. Lindo 2016 para você também, com todas as letras!

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  7. Aprendi a pedalar em uma BMX amarela… era a bicicleta dos garotos. Menina usava bicicletas com garupa, certinhos e tiras saindo da luvinha no guidão. Mas a minha paixão era a bike dos garotos, que faziam manobras na rua, passavam pelas calçadas, saltavam pilhas de tijolo.
    Até os seis anos tive um triciclo e o adorava… até hoje os meus tornozelos são sensíveis por causa dele. Fazia coisas que nenhuma garota se atreveria a fazer com ele. (risos).
    Ao completar seis anos ganhei minha Pantera… meu pai prevenido, me deu capacete, cotoveleira, luvas e joelheiras. Aprendi a andar de um dia para o outro… meu pai disse “vai que eu te seguro” e eu fui, confiante de que ele me segurava, mas ele tinha apenas me dado impulso. O problema é que as crianças crescem, mas as bicicletas não…
    Bacio

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    1. Lunna, fiquei pensando no teu comentário. BMX é para os (ou as) fortes. As manobras falam sobre a gente, teu triciclo (e tornozelos) que o digam. Pantera era o nome dela ou a marca? Então quando li a frase “vai que eu te seguro”e a tua conclusão sobre ela (pais dão impulso), conclui que tu, tuas bicicletadas e o teu pai estão de parabéns.

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  8. Todo grande amor tem esse estigma, a gente nunca esquece. Virou sereia… e hoje canta suave pra te acalentar nas noites à margem do rio.

    Agora sério, adorei ler isso.

    Massss num sei não, me pareceu escape.

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    1. Olha só. Quando Yara chegou, eu era um meninote, estamos falando da pré-história portanto. Aprendi os primeiros pedais com ele, presente de pai e mãe, então imagina o quanto significava. Eu polia todo dia, limpava, arava, colhia, dava brilho em cada raio, lustrava os pneus, uma coisa. Adorei a imagem que tu me emprestas, ela cantando pra me acalentar é simplesmente de chorar num cantinho de tão emocionante. O escapismo talvez more ai: não há como disfarçar meu amor incondicional por ela.

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  9. Depois de aplaudir mais uma das suas criatividades literárias, compartilho o prazer de estar na sua extensa lista de fãs. Sou grata pelos comentários no blog sempreviva e o incentivo na retomada dos posts. Não é por acaso que defendo resguardar as comparações… Cada pessoa tem seu universo particular. São as diferenças que iluminam a paleta de cores e criam o aspecto incandescente que causa o encanto do arco-íris humano. Desejo um aconhegante fim de semana a você e a todos que nos leem. Um beijo.

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    1. Querida amiga, me perdoe pela falta de resposta mais rápida. Foi um més absurdo de fio a pavio, de manhazinha até tarde. Nossas diferenças nos aproximam, como penso. Recebe aí minhas mentalizações de carinho, que tu mereces e retribui tanto e sempre. Fica bem.

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    1. Ana, a gente não vê as coisas como elas são. A gente vê as coisas como nós somos. Feitas as rasgações de seda, Yara é inesquecível. A sua deve ter sido maravilhosa também. Nunca deixe de lembrar, ela sabe e sente hum? Beijos, yarescos.

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