Mariel Fernandes

Vistas do meu Ponto

A única

Foi impressionante, reinou absoluta na minha vida, até entrar no rio de onde jamais sairia. Antes dela mergulhar pra sempre no que há de bom a recordar, é fundamental dizer que não haverá outra. Yara, assim com y, foi amor em todas as direções. Começou no exato momento em que a vi chegando e permanece criando memórias pelo tanto que andamos juntos. Antes do acidente que terminou no rio onde a deixei, percorremos juntos dias felizes e suspirantes. Entendimento completo, equilíbrio absoluto, uma intimidade que enfrentou, alegre e divertida, o que havia de tempo e suas chuvas, além do que existia de sol e as sedes que provoca. Não houve distância entre nós. Posso sentir agora mesmo minha mão percorrendo suas formas proporcionais, unidas por curvas e retas diversas. Sempre fomos táteis, sutis e fáceis um para o outro. Gostava de ver seus enfeites, conhecia um a um os sons que emitia e até o baque no rio, não olhei para outra. Lembro do dia exato, era um domingo dedicado à pescas no Guaíba, praia do Lami, Porto Alegre, 11h45. Chegamos cedo, sem pressa, não sabia que jamais a veria novamente. Nem que não haveria nada que eu pudesse fazer. O sol escaldante exigia Minuano, um refrigerante local, doce como cana de açúcar. Fmariel fernandes.monarcomos buscar e na volta, aconteceu o descuido. Um gesto em falso, a ponte chega, uma batida seca, ela cai no rio. Depois do susto, apareceu gente de todo tipo, eu em desalinho, sem fôlego e descrente daquela separação. Foi como chegou, causando uma surpresa. Quando meu irmão mais velho me tirou à força do rio, já tarde da noite, ninguém mais acreditava que a encontraria. E foi mesmo a última vez que vi minha primeira bicicleta, uma  Monareta Dobramatic, Yara para os íntimos.

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65 Responses to “A única”

  1. Ana Teixeira

    Mariel como vc é lindo! Chorei… Já tive uma “Yara” na minha vida. Lembro-me dela até hoje, agora mais do que nunca! Infinitamente obrigada!

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    • mariel

      Ana, a gente não vê as coisas como elas são. A gente vê as coisas como nós somos. Feitas as rasgações de seda, Yara é inesquecível. A sua deve ter sido maravilhosa também. Nunca deixe de lembrar, ela sabe e sente hum? Beijos, yarescos.

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  2. Labouré Lima

    Depois de aplaudir mais uma das suas criatividades literárias, compartilho o prazer de estar na sua extensa lista de fãs. Sou grata pelos comentários no blog sempreviva e o incentivo na retomada dos posts. Não é por acaso que defendo resguardar as comparações… Cada pessoa tem seu universo particular. São as diferenças que iluminam a paleta de cores e criam o aspecto incandescente que causa o encanto do arco-íris humano. Desejo um aconhegante fim de semana a você e a todos que nos leem. Um beijo.

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    • mariel

      Querida amiga, me perdoe pela falta de resposta mais rápida. Foi um més absurdo de fio a pavio, de manhazinha até tarde. Nossas diferenças nos aproximam, como penso. Recebe aí minhas mentalizações de carinho, que tu mereces e retribui tanto e sempre. Fica bem.

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  3. modoabstrato

    Há anos não ando de bicicleta. Dizem que não desaprendemos. Preciso descobrir, rs.

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  4. Cris Campos

    Todo grande amor tem esse estigma, a gente nunca esquece. Virou sereia… e hoje canta suave pra te acalentar nas noites à margem do rio.

    Agora sério, adorei ler isso.

    Massss num sei não, me pareceu escape.

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    • mariel

      Olha só. Quando Yara chegou, eu era um meninote, estamos falando da pré-história portanto. Aprendi os primeiros pedais com ele, presente de pai e mãe, então imagina o quanto significava. Eu polia todo dia, limpava, arava, colhia, dava brilho em cada raio, lustrava os pneus, uma coisa. Adorei a imagem que tu me emprestas, ela cantando pra me acalentar é simplesmente de chorar num cantinho de tão emocionante. O escapismo talvez more ai: não há como disfarçar meu amor incondicional por ela.

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  5. Lunna Guedes

    Aprendi a pedalar em uma BMX amarela… era a bicicleta dos garotos. Menina usava bicicletas com garupa, certinhos e tiras saindo da luvinha no guidão. Mas a minha paixão era a bike dos garotos, que faziam manobras na rua, passavam pelas calçadas, saltavam pilhas de tijolo.
    Até os seis anos tive um triciclo e o adorava… até hoje os meus tornozelos são sensíveis por causa dele. Fazia coisas que nenhuma garota se atreveria a fazer com ele. (risos).
    Ao completar seis anos ganhei minha Pantera… meu pai prevenido, me deu capacete, cotoveleira, luvas e joelheiras. Aprendi a andar de um dia para o outro… meu pai disse “vai que eu te seguro” e eu fui, confiante de que ele me segurava, mas ele tinha apenas me dado impulso. O problema é que as crianças crescem, mas as bicicletas não…
    Bacio

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    • mariel

      Lunna, fiquei pensando no teu comentário. BMX é para os (ou as) fortes. As manobras falam sobre a gente, teu triciclo (e tornozelos) que o digam. Pantera era o nome dela ou a marca? Então quando li a frase “vai que eu te seguro”e a tua conclusão sobre ela (pais dão impulso), conclui que tu, tuas bicicletadas e o teu pai estão de parabéns.

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  6. MorgauseDs

    Pensei em tudo, do sobrenatural a uma amor antigo, mas vi a foto…rsrsrs
    Maravilhoso seu texto e acho, inclusive, que dispensaria comentários, só que não, obviamente.
    Quem sabe, um dia, eu chego perto e escrevo algo assim, tão bem.
    A primeira bicicleta a gente nunca esquece, assim como outras primeiras na vida.
    Parabéns! Lindo, mas muito lindo seu texto.
    Bjoooo
    P.S.: Feliz 2016!!!!!

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  7. Corintiano Voador

    Mariel, irrequieto Mariel. Começando a ler a postagem pensei: é pessoa próxima, amiga íntima ou mesmo um amor que se foi. Daí, no final, confirmou-se: era. Abraço.

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  8. Mariana Gouveia

    Sempre foi uma das minhas paixões – platônicas – nunca acertamos as contas.
    Escrevo sobre isso em um texto com o nome de inanimada.
    texto lindo como sempre, Mariel!
    beijo

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  9. peregrinacultural

    Um nome muito apropriado para acabar no rio. Desde o início já se sabia como e onde acabaria… Excelente crônica.

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  10. Gustavo Roubert

    Quando crescer, vou querer escrever tão bem quanto você.

    Parabéns, por mais um belo trabalho como de costume.

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    • mariel

      Gustavo, querido. Eu descrevo o que vivi. Vendo ou lembrando, anoto e compartilho a experiência. Depois, é contar com corações gentis como o teu, capazes de se motivar com a vida. Grato, de coração, por isso.

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  11. Michele Viviane Vasconcelos

    Eu já estava aqui chorando 😢. Coitada da Yara. Mariel quase indecente: “Posso sentir agora mesmo minha mão percorrendo suas formas proporcionais, unidas por curvas e retas diversas.”
    Aí fechou com chave de ouro… Chorei de rir.

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  12. Silvia Souza

    Mariel, fiquei meio sem fôlego…
    Acho que já estava emocionada, quase chorando, quando cheguei à parte em que você fala da bicicleta!!!
    Um texto maravilhoso!
    😊🌷

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