Mariel Fernandes

Cheiro de terra molhada

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Toda vida nasce original, cheia de perguntas, repleta de saltos sobre o impossível. É aos poucos que vamos nos tornando uma produção em série, tomando partidos, partindo de nós mesmos, repetindo refrãos e repartindo certezas absolutas.

Tudo nascimento é uma surpresa se espreguiçando, não há pressa, somos presas fáceis para os risos pendurados no rosto de quem dorme bem. Não se trata de não crescer. Falo de não envelhecer. De resistir com bom humor à tentação de ingressar no clube dos perfeitos, esse lugar que só aceita sócios que gostem de 40 tons de cinza. De respostas fáceis. Dos textos que você entende de prima. De citações da Clarice no Face. De ser de direita ou de esquerda. De escrever tudo em caixa alta. De achar normal a miséria que a racionalidade séria produz em cada esquina do mundo.

Viver é gradiente, não cabe numa equação exata, não exija lógica de uma vida feliz. Coloque uma lupa ali e você vai encontrar decisões estranhas, joelhos machucados, cicatrizes diversas e alguma infelicidade. Parece incoerente? Só no clube dos perfeitos, onde tudo é cinza, há um compromisso fechado com o previsível. A proposta dessa turma é acompanhar você, aplaudir você, entender você, orientar você. Em troca por tanta gentileza, só precisamos transformar nascer, crescer e morrer num processo monótono e sem sobressaltos. O clube dos perfeitos acredita que só uma existência sem imaginação e originalidade vai nos levar ao paraíso certo, onde nos vingaremos dos impuros.

Pessoalmente, não acredito em velas acessas a anjos intermediários. Meu Deus não faz trocas. Ele trabalha como taxista numa cidade do interior e seu maior projeto não é o amor nem o perdão. É o fato de criar almas destinadas a si mesmas, incapazes ao ódio ou ao pecado. Concordo que isso não consola muito quando você vê o amor da sua vida partir. Entendo que sorrir não é o suficiente depois de um tombo feio. No entanto, são momentos. Por mais que doam ou durem, são um instante. Acredite quando digo que há sempre um milagre em curso, a surpresa da chuva, a terra molhada, a alma de tudo surgindo. Não precisamos nem acreditar. Basta saber pra onde não estamos está indo.

PS:

Estou devendo (não nego, pago em seguida) uma crônica sobre o Opala e um post sobre o que senti ao assistir “Show de Truman”. Em breve, tudo será quitado.
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59 comentários sobre “Cheiro de terra molhada”

    1. Preciso pedir desculpas pra ti, não havia visto o comentário, logo eu que adoro uma prosa. Você é um querido, também é fundamental registrar. Costumo dizer que eu descrevo ou que vi ou vivi, o “cheiro de terra molhada”e quase todas as outras crônicas são um resultado disso. Fico feliz, de coração mesmo, que tenhas gostado. Eu é que sou grato.

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  1. Pra variar seu texto vivo e cheio de afeto me surpreende! Estou aprendendo sim a “transformar nascer, crescer e morrer num processo monótono e sem sobressaltos” melhor assim né. Na atual conjuntura… dentro do possível e do impossível.
    Mariel, tudo bem? Eu lhe indiquei em uma TAG: LIEBSTER AWARD… espero que não se importe querido. Ia adorar conhecer um pouco mais de você. Um beijo…
    https://oterceiroato.com/2016/05/11/tag-liebster-award-11-fatos-sobre-mim/

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    1. Super hiper big mega Bia. Você não vai conseguir aprender, acho. E sim, isso é um elogio, uma espécie de abraço de urso, combinado? Fiquei feliz, feliz, feliz com a tua mensagem e com o convite. Assim que a timidez deixar, eu vou lá e pá, respondo. Beijos, querida.

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    1. Não é? Chuva (e o cheiro de terra molhada) é uma inspiração que me traz lembranças, experiências e emoções diversas. Parece que a água, saudosa da terra, corre para um abraço de urso. A terra, por sua vez, acolhe as gotas e se transformam nesse aroma do amor. Eita, me fizeste suspirar agora. Beijo e boa semana.

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  2. Que mais vale que uma história de opalão? Só a tua espontaneidade!
    Conheço muitos integrantes desse clubes dos perfeitos. Seguem suas vidas linearmente – pra perfeição, não cabe improvisos. E a vida, é improvisar…
    Nem vou falar mais nada, seu texto disse tudo lindamente.
    Grande abraço Mariel Fernandes “Pessoa” – pessoa é impessoal. Tu ė gente de qualidade.

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    1. Minha nossa, que frase essa: “pra perfeição não cabe improvisos”. Nem drible, nem jinga, nem o flerte com o improvável. Adorei a frase. E gente de qualidade então? Fosse eu gato estaria na base do rom, rom, rom, rom. Beijos!

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  3. Pois Mariel, não é que pulo fora desse Clube dos Perfeitos ai?
    Já fiz parte dele, mas não gostei não! Parecia que a perfeição que eu alcançava não era suficiente, sempre havia mais pra exigir… E eu, bem, eu não gosto de exigências! Sério, me deixaram “estressada” (autodiagnosticada)…
    Hoje não tomo partidos, nem faço parte de modas, ondas, nada. Sou só eu e a vida! E sabe, estou amando isso!!!
    Lindo texto!
    Concordo em tudo!
    Xero

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    1. O clube dos perfeitos é de uma sutileza só, vivo de olho pra ver se não entrei sem querer em uma das suas milhões de portas, convites, salas vips. Causa stress, dá coceira, impõe ritos, marcas, uia, olha o trabalho que isso gera, gente. Tens toda a razão de sair. Abraço de urso imperfeito.

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  4. Mariel, Mariel! Taí. A postagem que eu queria escrever e não consegui. Era para ser uma postagem assim, feita a tua, repleta de.. sei lá. Uma postagem na qual o postador diz que, por enquanto, não está sabendo de nada e está perplexo que tanta gente saiba de tanto. Acho que é o momento, o tempo sem graça em que vivemos. Precisava de uma postagem assim, de poder escrever uma postagem assim, mas acontece que choveu e eu não consegui. Daí que me senti mais confortado (estou precisando de confortos). Daí que me senti menos óbvio. Mas saiba que “assim não vale”, saiba que o caso é “devolve a minha bola que eu jogo mais”; como é que você ousa escrever a postagem que eu não tive verve prá escrever? Mariel, Mariel! Taí. Obrigado. E Obrigado.

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    1. Vou tentar assim: teu comentário foi uma transferência fundamental de afeto. Tratou-se de um recado da vida, meu querido. E você, como sempre, foi uma ponte de uma precisão (nos dois sentidos) fundamental para o momento que vivo. É um bom tempo, sempre é. Mas foi bom ouvir de você isso. Então, mesmo, eu é que agradeço.

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    1. O cheiro de terra molhada tem muitos significados pra mim. O lance daqueles primeiros pingos, o aroma daquilo, não é algo tipo assim, que coisa? Pois é, algo assim, um Deus fazendo poesia com o que tem à mão. Gostamos disso, tipo mesmo.

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  5. Então… Eu creio que trazemos algum “DNA de vidas passadas”… Que em algum momento irá se sobressair em nossa essência… O homem não pode ser só um produto do meio… Ele pode sair incólume mesmo tendo que conviver com coisas que ferem sua natureza…

    É o meu lado Kardecista falando ;)

    P.s: “DNA de vidas passadas” dá um bom artigo :) E a ideia surgiu lendo seu artigo! Grata!

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    1. Lella, agora fiquei pra lá de curioso com o tema que te desafia. Depois, DNA de vidas passadas é um bom título. Concordamos: não somos um produto do meio. O problema atual, como vejo, é que meio que nos tornamos um produto. Kardecistas ou não, precisamos resistir ao que não somos. É um trabalho e tanto ser o que se é. Abraço de urso reencarnado.

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      1. O bom de uma prosa pela internet é que se pode continuar de onde paramos voltando quando sobra um tempinho :) E isso é algo que eu não entendia quando o clima pesava em fóruns no Orkut. Pois as pessoas poderiam ir dormir, sair daquele debate acirrado antes que perdessem a cabeça até por não aceitar opiniões contrárias… Muitos acabavam deletando o perfil e criando outro…

        A pessoa pode ter certeza do que quer falar, do que pensa… Mas nem por isso precisa ser definitiva! Vida, estudos… podem levar a mudar as certezas de lugar… Ouvir uma argumentação contrária pode nos levar a rever nossos conceitos até para ver se não viraram preconceitos. O que por sua vez torna um debate algo salutar. :)

        Eu nunca me droguei. Nunca vi o barato nisso. Viajar na mente eu sempre preferi pelo livros :D

        Assim como trago em mim o pensar em prol de muitos… De um amigo, dizia que eu era “advogada dos oprimidos”… De um outro ao me apresentar a alguém, dizia: “Essa aí dá Bom Dia até a gari!” :D Eu ria feliz! Mesmo que da parte dele fosse uma crítica, eu via como um elogio! Era verdade! Eu cumprimentava a todos! E ele não era o único que via nisso como um defeito meu! Um já é falecido; o da “minha profissão”. Já o da minha “cordialidade” é atualmente um “coxinha” :D Já o outro faz décadas que não sei dele.

        Eu tento sempre me policiar para não vir a ser uma pessoa egoísta, arrogante, prepotente, preconceituosa… Mais até por conta do meu bom humor…

        Enfim, daí as minhas defesas apaixonadas lá no blogue podem fugir um pouco do meu controle, mas que também me levam a rever mais a frente :)

        E sobre as pessoas que se acham sempre certas e que não aceitam opiniões contrárias, escrevi aqui:
        https://cadeiranteemprimeirasviagens.wordpress.com/2011/12/13/nao-deveria-mas-eu-bem-que-tento-entender-as-pessoas-de-mao-unica/

        Bom Domingo!
        Beijos,

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        1. Lella, acho sinceramente que as nossas diferenças são as coisas que nos tornam iguais, humanos, mutantes. Fujo das certezas absolutas o quanto posso, mesmo que elas estejam disfarçadas de opinões razoáveis, de estatísticas confiáveis, de conclusões científicas. Ter razão, ou precisar ter razão, é pobre e raso, penso. Como vejo, não corres o risco da prepotência, nem aos abusos da arrogância. Já caminhei o bastante para reconhecer uma alma bondosa quando encontro uma e esse é o teu caso. Tens a aprender muito ainda? Mas quem será que não tem? Talvez os caras do clube dos perfeitos. Mas estes, sinceramente, não me inspiram. Defender apaixonadamente algo, como vivo, é um elogio ao outro, uma honra. Tornar isso uma questão de certo ou errado é que se transforma em algo que pode poluir. Vou ler as pessoas de mão única. Comento lá. Super domingo, querida.

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  6. 2016/03/31/cheio-de-terra-molhada/ ato falho! ou não… apenas Cheiro de terra molhada. “Mas imperfeito é tudo, nem há poente tão belo que o não pudesse ser mais, ou brisa leve que nos dê sono que não pudesse dar-nos um sono mais calmo ainda. E assim, contempladores iguais das montanhas e das estátuas, gozando os dias como os livros, sonhando tudo, so- bretudo, para o converter na nossa íntima substância, faremos também descrições e análises, que, uma vez feitas, pas sarão a ser coisas alheias, que podemos gozar como se viessem na tarde”. Fernando Pessoa <3 Adoro você.

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  7. O instante. Ah, o instante!
    Que torna tudo magnificamente lindo.
    Como cheiro de terra, o chão a adentrar o pé descalço, o teu texto.
    Tudo isso me permite a magia do instante.
    Grata tanto!

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