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Viver é artesanato. Algo feito de gestos (nem sempre pacientes) moldando o cotidiano. Não há vida em série, nem linha de produção para a existência. Somos individuais, não podemos ser compreendidos separados de nós mesmos. Posso descrever a saudade que sinto. Lembrar teus gestos. Lamentar as solidões ou comemorar em mim o que me trazes. E ainda assim, tudo que te chegar, por mais que te toque, será outra saudade, outro gesto, outro silêncio e outra comemoração.

Viver é tradução. Algo feito de falas (nem sempre sábias), dialogando com os dias. Não há declaração definitiva. Nem existe entendimento coletivo sobre o que quer que seja. Parece que a ilusão é o que temos de mais real. Infinito, dito, não dito ou simplesmente omitido, o que entendes não depende do que digo. Mesmo assim, depois da tua chegada, será outra palavra, outra lavra, outros caminhos, outros baús e outros pergaminhos.

Viver é desenho em todos os seus riscos. Não há manual confiável, devoluções são impossíveis e o entendimento sobre origem e destino é precário. Estamos por nossa conta, à bordo de uma gordinha apaixonada pelo sol. Irá manter-se assim, nem tão perto que morra por excesso de calor, nem tão longe que desapareça em dias de frio.

Viver é entendimento. É a permuta entre o eterno e o momento, um desfile de imprudências, a mistura de experiências, o resultado de milhões de escolhas. É uma ponte, um instante, um exagero. De qualquer modo, teremos outros experimentos, outras passagens, outras viagens e outros finais. Somos humanos. São nossas diferenças que nos tornam iguais.