Mariel Fernandes

Carta ao amor distante

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Aqui estou eu, nesse cantinho do lado de cá da gente. É bem menor do que esperava, confesso. A cozinha é acanhada, a sala é tímida, mas a paisagem, nossa, ela ajuda muito. A vista do meu ponto é espetacular e o silêncio nas (poucas) horas vagas, indispensável. Você já reparou como o horizonte muda? Num instante, é um pontinho lá longe, brincando de lá pra cá e daqui pra logo ali. Mas nas horas de sol escaldante a coisa complica e olhar para o que há de distante exige uma concentração danada. É quando se misturam as muita miragens, e as grandes ilusões. É dessa dessa união que surge a nossa realidade e, gesto contínuo, a maioria dos milagres que acreditamos. Talvez essa confusão explique, entre outras coisas, porque os publicitários ganham mais do que os filósofos. É uma questão de prioridades: slogans são curtos e o mito da caverna, convenhamos, tem que pensar um tanto pra entender.

Há dias que nem te conto de tanto que chove. Nesses, o primeiro sinal que procuro é o cheiro de terra molhada. Alguns aromas são mesmo uma coisa, não? Eles traduzem o momento raro de uma pororoca existencial. É quando a água bate no chão e o resultado do encontro equivale a Deus cantando Over the Rainbow num inglês obviamente perfeito sobre todas as coisas.

Aconteceu de tudo um pouco nesse tempo. Praticamente te vi dia desses, milhares de anos depois que me contaram da tua ida. Estava bestando, distraído e puft, ora, ora, ora você. Fiquei olhando a cena até que desaparecessem tu e o momento. Lembro de ter ficado feliz. Lembro de ter ficado parado. Lembro do quanto gosto do teu rosto familiar. Logo eu, veja só. Logo eu, que sempre tive tudo a declarar, entendi que o silêncio nos distancia, mas também nos torna inseparáveis. Não sei mais o tom da tua voz, guardo os bom conselhos e me mantenho curioso, com os pensamentos em desalinho. Será que esquecemos uns dos outros para não sofrer ou sofremos justamente porque nos esquecemos? Não sei, mas viver coloca algumas perguntas difíceis pelo caminho e algumas respostas nos deixam falando sozinhos.

Aqui do lado de cá da gente, levei um tombão, daqueles de tirar o ar. Ah sim, ganhei uns arranhões, mergulhei em águas turvas e me arrisquei em trechos desconhecidos das estradas. Como sempre, vivo no tempo contrário, entendi que o teu amor é meu amigo imaginário. Sim, ainda consigo enxergar no escuro, de modo que aprendi a saber onde estão as coisas que precisam ser achadas, mesmo quando o tempo fecha. Isso explica porque passei um tempo imenso tentando ouvir te amo em cada estação do ano. De qualquer modo, não recomendo o exercício: esperar pode se tornar um vício. Pode ser uma aventura extrema, cujo final é uma pena pelo desperdício do tanto que poderia ter sido.

 Conto sobre o vão que existe entre eu e você porque foi nele que aprendi a tecer uma vida desconfiada da esperança. Ela oferece centenas de razões pra ficar. Abre baús e álbuns, mostra fotos antigas, fala sobre razões de Estado, declara a importância da família e informa que não há como explicar no momento. Então se embala na cadeira de balanço do tempo ou dorme na rede sossegada das crenças, dos pai nossos, das ave Marias, do onde houver guerra que eu leve a paz. Mãe do céu, como eu queria te abraçar agora. Falaríamos a nossa língua preferida, a vida. Te diria que passei de ano, que ganhei mais uma eleição, que o azul é minha cor original. Dormiríamos então, num canto do lado de cá da gente. Longe do bem e do mal.

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51 comentários sobre “Carta ao amor distante”

    1. Eridan, escrever me acalma, é um dos efeitos. Também me traduz, é outro. É a primeira vez que me dizem que a escrita por ser passar a limpo algo, sentimentos inclusos nisso. Bem bom o ponto. PS: estive no seu espaço. Bem bom também. Voltarei mais vezes.

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  1. Estou afetada!
    Não canso de ler esse texto que acabou por desvendar meu misterioso território das esperas!
    Tens razão, Mariel! Esperar é uma aventura extrema, por vezes, até desumana… Mas não há outra saída!
    Que sorte que encontrei suas palavras! Eu necessitava de um olhar poético sobre o meu desamparo existencial, do qual somente uma presença poderia me livrar.
    Obrigada pelo aconchego literário!

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    1. Gabriela, você é uma querida. Na verdade, eu descrevo o que vi ou vivi, não é outra coisa. Agora tem uma coisa: se o descrito, visto ou vivido te toca, olha que coisa boa, é uma experiência servindo de ponte para que a gente compreenda melhor nossas vidas. É exato o que me acontece, te lendo.

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  2. Viu…eu aqui só lendo e leio tudo mesmo, até os comentários me servem, me acrescem, me passam energia. Não vejo tristeza mesmo quando é fácil de ser percebida, vejo vida e como bem disse, vejo troca, vejo química, vejo amor incondicional, trazer de dentro pra fora, colocar com delicadeza para ser respirado, deixar entrar e encher o peito e claro nosso maior sonho, acreditar que nosso mundo tem jeito. Abração! :)

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    1. Querido meu, que fantástica a vista do teu ponto. Sempre acho que tem jeito, acredito que vai dar e procuro agir para não atrapalhar a inevitável vitória do bom e do bem. Enquanto isso, me divirto caminhando com gente boa como você.

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  3. Adote mais esse e embale minhas lágrimas. Elas tem sido fartas mas não são baratas. Não tenho caminhado, estou de asa quebrada e voejar não posso, mas retribuir uma visita é um valor pra mim, então tenho que agradecer duplamente a tua, já que me trouxe até aqui. O silêncio também aproxima, mas não mais do que o afeto, mesmo ainda os que já guardamos em nossas gavetas. Bah.

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    1. Anna, primeiro percebi que não te seguia, o que acabei de passar a fazer. Depois, pirilampos, fadas e o combo todo sempre são bem-vindos na minha vida. Ainda mais que a casa é de sapê, lugar pra lá de conveniente pra brindarmos nossa amizade

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          1. Não voejo mais… Mas hoje senti muita falta do belo, dos tantos. Estive cercada dele. Meu olhar se acostumou com um certo ângulo, com uma textura, palavras postas num viés tão de cada um… Sinto falta de todos e de cada um. Mas não é costume, é amor. Janelas fechadas, silêncios impostos. Recusas. Aceito-as, respeito cada senão, rosnar, fecho, escolha. Mas meus olhos não entendem o véu. E produzem o seu próprio. Sem controle sobre eles, vago. Eis aqui a menininha de outro dia. Deixe-a ficar. Logo passa uma borboleta e ela se vai. Ela se foi Mariel… Recomeçar.

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            1. Viver não seria um tanto isso, Anna? Um ciclo, talvez? A concordância, nem sempre fácil e feliz, com as coisas que têm que ir porque é da natureza das coisas a partida? Talvez isso não não deixem alegres. Mas por que razão haveríamos de ficar tristes? Ouça Corsário. Você vai entender do que estou falando. Com João Bosco, não restará dúvida

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  4. Olá Mariel, passei para uma visita rápida mas o difícil é sair daqui. Antes de ir quero dizer que ‘A vista do meu ponto’ é um lugar cativante e confortável para os que amam estar entre letras tecidas com bom senso, elegância e sensibilidade. Um abraço. Bom fim de semana pra você e seus leitores.

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          1. Labouré, esse lugar é teu e de amigos e amigas como você. O que faço é anotar o que vejo, descrever as paisagens e repartir entre nós, os caminhantes. Então, querida, te sou grato pela palavra que incentiva, motiva e acarinha, de coração tá? Bom fim de semana pra ti também!

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  5. Nas ida e vindas pela vida penso que o mais importante é aprender… “onde estão as coisas que precisam ser achadas, mesmo quando o tempo fecha…” é reviver… Ora, tudo que é bom deixa saudades. É coisa boa! Se vier com cheiro de terra molhada melhor. Sempre me emociono com seu texto. Abs.

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      1. Não tem sido assim, Mariel. As alterações climáticas notam-se muito bem em Portugal. Até parece que estamos no Brasil, face às temperaturas, mudanças no tempo e claro, não podemos esquecer aquelas delícias que caracterizam o nosso país, como a corrupção, a violência,… No mês de agosto, por exemplo, as temperaturas rondaram quase sempre os 42.ºC. Um inferno na Terra. Sente-se a falta de água, há reflexos na agricultura, mas mesmo assim, ainda há quem adore este outubro, agora com temperaturas ligeiramente acima dos 20.ºC, sem chuva. :(

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  6. Olha, esse texto me fez lembrar bem de uma pessoa que amo e já foi “pro lado de lá”. Não que eu possa vê-la passar novamente, nem de longe, ou coisa do tipo, mas quando vejo alguém parecido, me dá aquela parada no corpo, no olhar, é como se uma avalanche de lembranças quisesse e “quase” conseguisse voltar a vida, mas então o momento passa… Triste, ao mesmo tempo feliz!
    Sei lá, parece meio contraditório e o é, mas queria muito deixar esse sentimento que você me trouxe através das palavras…
    Xêro!

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  7. Venho me juntar ao tantão de lágrimas que brotou na leitura desse belo e tocante texto. Amigo que isso? Devia de avisar antes de iniciar a leitura: Cuidado! Inicie sua leitura mas saiba que sofrerá grandes emoções! Respirou fundo? Se preparou? Então pode começar. Rapaz! Não esperava essa avalanche de emoções e imagens que passou para nós, pobres e despreparados leitores. Termino agradecendo a belezura e o instante que nos ofertou. Tu é o Cara man! Pausa para uma furtiva fungada porque estou te lendo durante o horário de trabalho. Fui!…Me refazer, rs

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    1. Roseli, dia desses me falaram algo que ficou gravado: “a falta da percepção do amor é a geradora dos traumas e a causadora da percepção que temos do mundo”. Não sei se exatamente isso, mas algo em torno disso. Trata-se de uma verdade, claro. Mas e o contrário? Uma avalanche de carinho, não teria o poder da cura? Penso que sim e foi exatamente o que você fez, pelo que agradeço tão emocionado quanto você. Beijo, guria. Grato, de coração.

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  8. Quando eu era bem pequeno desafiava o sol escaldante só para ver se a linha do horizonte quebrava já então amadurecida pelo tempo ali parada; agora, amadurecido estou eu e o sol e a linha do horizonte continuam conspirando entre miragens e desafios enquanto do lado de cá a vida é a saudade do ainda vamos descobrir. Meu abraço sempre.

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