Mariel Fernandes

Síntese

Tenho uma árvore de estimação. Nossa amizade foi construída entre acolhimentos e confissões silenciosas. Suas raízes aparentes formam uma espécie de poltrona natural, com vista para um lago, num grande espaço, singelamente batizado “Centro de Criatividade”. A visitava principalmente quando me afastava perigosamente de mim mesmo. Não a ponto de não me reconhecer, mas em um instante desesperante de uma luta em que estive por um triz pra perder. Nessa altura irresistível do inverno, a alma gela e tudo é parto com dor, alguma coisa se parte dentro. É o estalo seco de uma vida prestes a se transformar em partida, foi nesse momento que a encontrei. Dormi, chorei, li, olhei, me esperei, ri, fugi, aconteceu de tudo no meu tempo repleto de conversas encerradas. Minha árvore manteve alianimg_20170206_105525_processedças à salvo e quase sempre comemorei a chegada da primavera ao seu lado, às vezes triste, noutras feliz, na maioria simplesmente calado. Um dia, me despedi dela. Precisava me despedir de mim e seguir me procurando. Ficamos alguns anos longe um do outro. Dia desses, a revi. Cheguei devagar, ela é uma senhora, pode se assustar. Sentei como se nunca tivesse me levantado. Éramos outros, eu e ela. Éramos os mesmos, ela e eu. Me sorriu brisa, me abraçou vento, acalmou minhas tempestades. Penso no que Deus quis nos dizer com as árvores e sinceramente, não sei. O que posso contar é que minha tem raízes profundas, como devem ser a amizade e o amor. Faz sombra para as horas mais cansadas. É uma referência fincada no tempo, um elemento dos vendavais. Não vive no sempre, nem lamenta o jamais.

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64 comentários sobre “Síntese”

  1. Que a Frondosa refrigere teus momentos de secura e abafo. Ontem estive em companhia de uma; sob sua sombra pedi que afastasse a minha. O que ela fez? Me abraçou e na brisa que me trouxe, sussurrou: está tudo bem. Vai passar.
    Você me emudece, Mariel. E me faz derramar palavras que nem sei de onde vêm… Me prometo não voltar, pois que me falta o que dizer, e cá estou.

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      1. Sem ferir honraria minha caminhada, Mariel. Minha esperança é o “vai passar” e a ausência, que não permite ferir. Não mais. Tua síntese, tuas todas, são asteriscos milagrosos. Pouso meu olhar nelas e me perco em meus pedidos. Quero-os todos e rogo que o Cosmo não os conceda a mim; refugo frente a dor meramente suspeita. Blasfemo pedindo que as letras, palavras, tudo que fale, se cale. Emudeça como eu anseio. A adaga da expressão me fere a alma e me aguça os sentidos. E é aí que choro. Buscar o silêncio da pré-história. Pedir por ele. De onde estejam, lamentam Bardos e Musas por minha covardia. E você então cá está e solfeja. Me ignora Mariel! Eis que então o Silêncio se fará mais fácil. E o luto também. Gratidão querido. Gratidão.

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        1. Demorei pra responder de propósito. Melhor, havia o propósito do entendimento que não sei se alcanço. O que sei, Anna, é acredito que heróis são desnecessários e todos os sacrifícios também. A vista do meu ponto me inspira a te oferecer lugar no caminho, vibrando para que encontres sossego na tua expressão. É o que me toca, me motiva e me leva a de retribuir a gradidão.

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  2. ah, que delícia… sinto tanto saudades dos primeiros ano no Brasil, tinha uma jabuticabeira no fundo do quintal e eu adorava sua sombra. Depois me mudei para o centro de São Paulo (no velho Bixiga/Bela Vista) e tinha um abacateiro. Na minha infância/juventude tive uma laranjeira que quando dava flor, perfumava toda a casa. Atualmente só tenho as árvores das ruas. E como você não sei o que deus pretendia ou queria, mas que bom que elas existem. rs

    bacio

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      1. Árvores povoam nossas vidas, né? Tive uma quando pequeno (faz teemmmpooo) e vejo que muita gente tem (algumas sem saber) árvores de estimação. É bom entender isso. Árvores e amigos nos acompanham o tempo todo. Mesmo as árvores da rua. Ou principalmente elas. Beijo!

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  3. (Que estranho… eu havia comentado esse texto e cadê? rs)

    Não faz mal, eu comento de novo, porque sou teimosa… rs

    “Me sorriu brisa, me abraçou vento…” Coisa mais linda! Tenho um amor imenso pelas árvores e acho até que faço parte delas, que tenho raízes e galhos gravados no meu DNA e que a minha alma é de passarinho, porque sempre me sinto segura perto de uma árvore… É como se voltasse pra casa.

    Abraço :)

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    1. Então. Leio todos os comentários, respondo a cada um com um interesse genuíno de conversa e aproximação. Não sei o que houve, mas que bom que és teimosa feito um passarinho. Pelo jeito, és um pouco dois dois: livre, mas com raízes de profunda admiração pela natureza das coisas. Abraço arvoríneos pra ti.

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  4. a árvore da minha vida, a que me viu crescer e se tornou minha cúmplice desde a infância, perdeu a vida para o alargamento da rua. sangramos juntos. e hoje, passado tanto tempo, ainda não consigo passar onde ela foi derrubada. o movimento acelerado de muitas coisas ainda me assusta, mas lá no meu fundo, ela permanece viva e me acolhendo em seus galhos tímidos e silenciosos. abraço, querido amigo.

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    1. Me fez lembrar de uma árvore que tive em frente de casa, dava uma frutinha legal que chamavam “uva japonesa”. Foi minha parceira por alguns anos, até q8e saí de casa. Sinto que a rua tenha vencido a batalha. Mas como dizes, tua árvore está viva na lembrança. De lá, ninguém é capaz de arrancar.

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      1. Mariel, sou louca por árvores, se for feito um apanhado de minhas fotos desde a infância,uma boa parte delas estou às voltas com as árvores.Embaixo, em cima, ao lado, atrás, abraçando, de qq jeito. rsrs. Um lugar sem árvores para mim é um lugar triste.

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        1. Um lugar mais do que triste, esse sem árvores. Acho que os apartamentos têm esse estigma, se comparados às casas. Podemos ir no quintal, perseguir o cachorro, molhar a grama e plantar. Tudo isso é bico numa casa e quase impossivel num AP. Uma rua, uma casa ou uma vida sem árvores é mais ou menos a mesma coisa, concordamos.

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  5. Fiquei desejando abraços agora, seu e dela.
    Aqui em Salvador tem um dique com diversas árvores e, dentre elas, uma me é especial porque é a cara de Barbárvore, de O Senhor dos Anéis (que eu amo).
    Pensei nela enquanto me aconchegava nas suas carinhosas palavras.
    Beijo no pâncreas :)

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    1. Tem um jeito. As árvores falam entre si, não me pergunte como sei, mas falam. E se tocam via raizes umas das outras. Então você na Barbárvore e dê um baita abraço nela. Eu vou dar um big abraço na minha. Então, acontece a mágica: através das nossas árvores, nos abraçamos. Meu pâncreas agradece o carinho.

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  6. Eu me vi ao lado de sua árvore.
    Tenho um pé de vento – acho que já te falei sobre ele – achava que ele morava só no meu quintal. Hoje, percebi que ele passeia por aí, perto de sua árvore e traz o cheiro dela até aqui.
    Lindo! Bah! Muito lindo!

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    1. Vou te contar um segredinho. A minha árvore é capaz de falar em arovorês com todas as outras árvores do mundo. Elas se comunicam pela raiz ou pelo vento, como bem notaste. Não iria falar nada sobre isso, achava que era um segredo. Mas já que comentaste, fico feliz em compartilhar essa parte da história

      Curtido por 5 pessoas

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