Mariel Fernandes

Em algum lugar do tempo

Estou aqui, no outro lado das manhãs, onde Dylan canta “Once Upon a Time” na minha sacada. Não é uma canção para principiantes como eu, um Shrek confesso. Sou incapaz de capturar as sutilezas da letra ou mesmo de compreender as gentilezas da canção. Ela tem uma tristeza que sorri, um riso que convida a amargura pra dançar e flerta com o que houve de bom no dia. É um dialogo suave, livre da proximidade que nos tira a noção do todo, é uma história contada muito depois de havida. Escrevi tudo isso só para te tranquilizar: não sou tão Shrek assim. “Once Upon a Time” veio cantar que todo encontro carrega sua própria despedida. A linda tradutora me trouxe uma leitura poética do título da canção. No lugar de um simples “Era uma vez”, um luxuoso “Em algum lugar do brokenhearttempo”. Afinal, fala da vida e de seus acontecimentos inusitados, suas miragens, seus pequenos milagres. Bolo de fubá. Domingos ensolarados. Joelhos esfolados. Física quântica. Caminhadas em noites silenciosas. O encantador chuá marítimo e a brisa de cada estação. Pão de queijo, chocolate, gol do Inter. Ficamos urgentes de encontros, suspiros, tardes mansas, o gosto de manga, resgates surpreendes e um pouco de dança. Diante da desistência covarde dos farsantes, da angústia dos posts, das opiniões definitivas, dos amores desperdiçados. Apesar da existência dos tratados internacionais, das missões, dos mísseis, dos miseráveis, das multidões de exilados, dos milhões em lambança, o mundo precisa mesmo é colocar os pés em algum lago gelado e acariciar suas esperanças.

Por isso, aqui do outro lado das manhãs onde lembro de ti, aceno e te recebo como uma parte fundamental do que sou. Compreendi que é inútil tentar encontrar o que não foi perdido ou esquecer o que não foi vivido. Viver é uma escolha onde nasce a impermanência. Que seja intensa, mesmo que vaga. Que seja imensa, ainda que por um momento. Que seja vivida tanto e de tal forma que sobreviva a nós e se glorifique em algum lugar do tempo.

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91 comentários sobre “Em algum lugar do tempo”

    1. Benício, querido meu. Posso te contar de mim e te dizer com certeza algo sobre o meu processo: o que quer que seja, passa. Quem quer que seja, passa. Não porque percam a importância, mas porque somos passagens uns para os outros, nos encontramos de passagem, vivemos um instante. Por que não torna-lo glorioso? Sim, ele também vai passar. Então que seja o máximo. Conta comigo e com minha torcida por ti. Depois, nem tudo precisa fazer sentido, precisa?

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  1. Belíssimo, meu Amigo! Como disse uma amiga, uma vez: “li, reli e trêsli.” É de arrepiar, como li em um dos comentários; também é de se emocionar com toda poesia, “Ela tem uma tristeza que sorri” e filosofia que daria outros tratados, “todo encontro carrega sua própria despedida”; Física quântica. Explêndio! Grande abraço!

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  2. Entro em casa, busco minha poltrona. Nela não encontro posição. Pulo em minha cama e meus travesseiros não mais me acomodam. Meu corpo degrada, meu olhar enevoa, minha força se esvai. Tento escrever, nada aflora. Quero apagar, mas não acho o quê… Quero esquecer, acordar e não saio deste onírico e infindável momento: que perdura, que não cessa.

    Entro aqui. Um chamado e a despedida anterior se desintegra. Chego e me jogo no edredon, me enrosco e abraço os travesseiros, as letras me invadem. Banhada nas lágrimas e numa dor difusa, para cada palavra, um pensamento, uma lembrança, um colo perdido. Saudosa de tudo.

    Sem controle uma corredeira me varre e afoga, me abraça e aquece e faz jorrar o represado. Não posso mais percebe? Não há lugar para minhas dúvidas, minhas certezas e meus vislumbres.

    Como ler pode ser um abraço? Como ler pode ser sentar num colo e assentar o corpo? Como ler pode ser caber num átrio?

    Responde, você que tudo sabe, lê, viu!!! Responde e me liberta. Me leva de volta. Estava num quarto escuro e ao me tocar sabia que era eu. Tateava, chegava à porta, punha uns nacos na boca, sorria e passeava por ali, contente – não, apática – e sem desejos. Estava tão feliz! Tão certa. Tão minha.  Essa luz, essas faíscas, me puseram a dançar e me fizeram engasgar de surpresa e júbilo. Comi até vomitar, bailei até cair e sorri, toquei várias outras, desejei e vibrei por muitas vidas. Onde estou eu agora? Não, não a linda canção… Há aqui um requiém. Não me pertenço mais; nenhuma certeza, despossuída de mim.

    E ainda assim, choro pelo abraço perdido pela partida…

    Mariel, onde a cura? Dessa tua barba branca me traz um pouco de sabedoria.  Da tua lente, um olhar que me revele onde posso me resgatar; em que estalagem à beira da estrada me perdi?

    Sim, eu sei. O que afinal você pode fazer que eu mesma não possa? E porque te trazer isso…

    Tem razão. Vamos à Páscoa em nós.

    PS: desculpe o post deslocado.

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    1. Estive naufragado por um tempo longo, Anna. A melhor lição que tive daquele tempo é que uma ilha deserta tem coqueiros, pedaços perdidos de pau, cipós e gosmas colantes. Era a natureza, descobri com o tempo, disfarçadas de canoa. O que acho, do fundo da alma, é que as coisas que nos acontecem trazem elas mesmas a cura para as coisas que nos acontecem. Depois, Sartre nos ajuda: “o importante não é o que nos acontece, mas o que fazemos com o que nos acontece”. Finalmente, você tem toda a razão: não posso resgatar ninguém além de mim mesmo. No entanto (e isso faz toda a diferença, espero), estarei pronto e atento sempre, na certeza sorridente de quem sabe que chegarás a ti mesmo no momento certo. E que este será teu tempo pleno. Beijos

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  3. Hummmm! Pão de queijo, chocolate é tudo de bom concordo e como sou seu amigo deixo passar batido o Inter, rsss. Mas por falar no tempo ou sobre o tempo, sempre reflito se o tempo é algo que nos interfere ou se é nossa interferência que cria o tempo. De qualquer forma que seja o tempo seu e que seja fecundo, cheio de sorrisos e amores, de sabores e profundo, pois a vida é isso esse tempo que cada um tem ou cria e para meu prazer esse seu tempo que nos dedica em escrita ou poesia é pura alegria. Abração, sempre! :-)

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  4. “Por isso, aqui do outro lado das manhãs onde lembro de ti, aceno e te recebo como uma parte fundamental do que sou.” Querido Mariel, visto do meu ponto, esse é o verdadeiro encontro, quando nos abrimos e recebemos o que é. Assim a vida se torna a experiência oferecida e cabida em nós. Como você vive isso em você e descreve lindo!

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    1. Você tem muita razão, acho também que o encontro é esse, mas confesso: que trabalhão que dá. Mas, como diria alguém que não lembro agora, “caminhante, não existe caminho. Ele acontece caminhando”. Bom, bom, bom, você por aqui.

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  5. Nossa!
    É um texto pra ler e reler e reler e reler…
    Não só pela cadência, pelas imagens poéticas, mas porque traz uma leveza pra alma…
    É um texto que acolhe a gente, sabe? Que abraça e nos faz suspirar.

    “Compreendi que é inútil tentar encontrar o que não foi perdido ou esquecer o que não foi vivido. Viver é uma escolha onde nasce a impermanência”.

    Lindo!
    Um abraço. :)

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  6. Eita que se desenhou aqui um belo e aberto sorriso diante dos matizes poéticos que você pincelou nesse texto. Cara, apesar de, vale muito a pena viver. E quando nos deparamos com essas belezuras que a vida nos oferta, ahhh… É só alegria! Obrigada amigo por embelezar esse dia cinzento e friozinho! ()

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