1984

O livro distópico foi escrito até 1948 (84 invertido) e publicado pela primeira vez em 1949 (10 anos antes de 59, o que não quer dizer nada). Mas 1984 não fala só das relações de um estado-tudo com seus habitantes-nada. Acho de fala de nós, os humanos. Andamos cheios de certezas, tentando domar o outro, enjaular comportamentos, fiscalizar desejos, julgar e vencer. Não importa o que, nem quem, nem porque. Não basta ter uma razão gradiente, que nos seja própria, o nosso jeitinho, uma visão pessoal do mundo e das diversidades. Ah não. É preciso ter razão absoluta, soberba, menosprezante do diverso. Ao brilhante e multi colorido, sonhamos fazer do cinza a coisa mais normal do mundo.

Leio 1984 amedontrado, porque há um desejo amalucado em nós pelo autoritarismo, conversar dá trabalho. Votar bem é difícil. Pensar é um trauma. Fazer dos relacionamentos um encontro entr iguais, que ideia besta. Um ditador resolve essas e outras questões em 1984, somos doidinhos por um ditador. No livro o estado-tudo inverte os significados semânticos (forca passa a ser fraqueza, pobreza se torna luxo e, claro, amor vira inútil). Ainda bem é só no livro, hum? As inversões ou resignificação das palavras têm um objetivo ideológico, visam causar confusão lógica e desorientação emocional. Evidentemente que não fazemos isso em casa, no trabalho, em lugar nenhum. Claro que religiões, igrejas, gurus, filósofos, ninguém tem nada com isso.

Você consegue ver 2019 em 1984? Oscar, em 1948, viu espiando o caráter humano. Falando, ou fingindo que falava só do totalitarismo de estado, Oscar (gosto de parecer íntimo de quem leio) colocou em trezentas e poucas páginas a tirania nua, crua e que hoje causa saudade em muitos, além de mostrar a pouca originalidade de gente como Trump, Magri, Lula ou Bolsonaro. Todos têm ideologia, discurso e prática descrita em 1984. Cada um deles (fiquei em 4 exemplos, mas exemplo é no que não falta) tenta impor a realidade criando um molde do que seria o belo, o bom e o perfeito. E o perfeito é que sejam idolatrados pela realidade retocada que impõem. Todo o resto, todinho, é imperfeito e deve ser corrigido. Você entende que não se trata de direita ou esquerda? Se trata de nós, os humanos.

Há duas coisas que Oscar reproduz do cenário 1984 e que me impressiona. O primeiro é uma profissão, o de “reescritor”, espécie de antijornalista, que refaz manchetes, fatos e fotos do passado, os reestruturando em acordo com a agenda do regime. Qualquer semelhança com a realidade dos atarantados não é mera coincidência. Na vida política ou na política da vida, estou falando de 1984, que tristeza. Falo de nós, os humanos sendo nós, os emaranhados.

Talvez por ter sido a vida toda apontado como diversas coisas boas e ruins, talvez por serem diversas as coisas ruins ou boas que me apontavam, 1984 me apavora porque o autor entendeu ser possível uma sociedade sem amor, olhe a loucura disso. Uma sociedade sem amor é capaz de legitimar o risco de vivermos sem um norte humanista. Acha que não? Dê uma espiada embaixo das marquises, nas coberturas, veja na desatenção geral, falo só do livro, claro. Nele, o Big Brother está de olho em tudo e o amor é um ato totalmente ilegal. E como só o amor escreve notas novas na vida e se desdobra como os nomes dos afluentes do Amazonas. Viver sem isso é raso, aterrorizante e cinza.

Amor se disfarça de empatia, perdão, simpatia, riso, poesia, chance, coragem, inovação, mais riso, canções, romances (mesmo os duros, como os 1984), Exupery, Fábio, Chico, família (sim, família), proteção, estudo, curiosidade, amizade, confidente, confiança, silêncios, gemidos, cumplicidades, lealdade, tudo que nos faz bem. O amor nos torna dispostos, mesmo que opostos, lado a lado apesar de diferentes, compreensivos, mesmo contrariados e apaixonados, ainda que distantes. Tudo que nos traz amantes e desenha em nós o novo, é o amor que nos renova e isso não interessa a nenhum sistema.

Reescrevi como jamais achei que faria com um texto. Fui um reescritor, um corretor, um 1984. Cada palavra apagada sofria pela mutilação que alterava o sentido da sua existência, deixando o entendimento capenga. Compreendi que se pode errar escrevendo ou reparando o escrito. O que Oscar não sabia é que tentar rescrever o sentido não altera a descrição, apenas nos afasta do exato. Amar é um fato, estando ou não escrito, demonstrado, registrado ou não dito. Há marte, é bonito, o bem dito, o amor em suas paradas. Oscar olhou só um lado da coisa. E Big Brother não vê é nada.

6 comentários

  1. Tenho refletido sobre… Sim, acho que há muita gente que gosta de um ditador para resolver tudo, enquanto fica na sua vidinha sossegada e cega, em cima do muro.
    Quando parece surgir alguém que parece que vai fazer a diferença e quebrar todo esse elo, então eis que vem um reescritor desse jornalismo ctrl c+ ctrl v, e trata de fuzilá-lo.

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    1. Pensei que ia passar desapercebido… Só você mesmo. Fábio é um compositor e músico. O coloquei ao lado do Chico como quem faZ um carinho. Que ordens tu darias, não consigo de ver ditando regra. Mas acho que seria divertido te ver tentando

      Curtido por 1 pessoa

      1. Belo carinho! Ao lado de um dos grandes!

        Você não imagina como é nítida e às vezes assustadora a minha veia autoritária. A controladora você conhece desde sempre, basta que tenha me observado tentando conter, desviar, sair ilesa… Seria fácil, acredite. ☺

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