Bilhetinhos do tempo

Nada é tão forte quanto uma ideia cujo tempo chegou (Dicodallma)

Tempo é dinheiro. É? Mesmo? De verdade? Sério? Então me diga agora quanto vale qualquer coisa que tenha de fato valor. Depois, tente a partir disso me contar a soma em que é possível chegar. Tempo não é dinheiro, nada mais inútil do que dinheiro quando não se tem tempo e o contrário não é verdadeiro. A ideia de tempo associada ao dinheiro é pequena, quase uma estupidez funcional. Mas o ponto aqui passa longe longe de uma conversa de boteco, coisas que se podem ver em prateleiras de supermercado, frases de Facebook, repetições. Lendo uma entrevista do angolano Valter Hugo Mãe, percebi algo extraordinário. Olha a verdade disso e já conversamos:

Se eu fosse impedido de voltar ao Brasil, nunca mais regressaria inteiro a Portugal

O entendimento de que somos as experiências que vivemos, vamos nos lanhando, polindo, esfolando, rindo, sendo, vivendo, indo. Tudo isso acontece ao longo do tempo, não do dinheiro que temos. Dinheiro aqui é um valor, é qualquer coisa que passa, o que não ocorre com o tempo. Ele fica, mostra, flexibiliza, enrijce, lembra, esquece, esfria, anoitece, vai, cai, orienta, levanta, ostenta, se impõe. Outra forma de dizer isso é mais poética. Foi pé por Heráclito, ele era dos bons.

Ninguém pode entrar duas vezes no mesmo rio, pois quando nele se entra novamente, não se encontra as mesmas águas, e o próprio ser já se modificou. Assim, tudo é regido pela dialética, a tensão e o revezamento dos opostos. Portanto, o real é sempre fruto da mudança.

Da esquerda para direita (talvez literalmente), eu, Zico, Onofre, mãe (Lucila) pai (Norberto), Lívia (no colo) Nita, Manoel e Ariel. É uma festa de 15 anos, acontecida em algum lugar do tempo, como diria Bob Dilan. Recebi esse registro como um carinho para me proteger de solidões, apaziguar vozes, acalmar tumultos. Afinal, há sempre formas de estarmos juntos. O tempo nos acompanha em sua sucessão de momentos. Não há nada que pague o quentinho da família em reunião. Nada que apague o afeto tido, oferecido e compartilhado. Mas não dá para não tonar: veja em quantas direções estão os olhares e justamente os mais lindos do clique se permitiram o toque do gesto. Talvez seja isso, hum? O tempo só torna mais algumas afirmações corporais, mas quer saber? Essa gente me divertiu, cuidou, fez crescer, brigou por mim. O que me cabe é recebe-los, compreender em mim o que foram, resgatando o que farei com o que aprendi. É o tempo rasgando desculpas, como quem diz “então seja mais do que eu”.

Quando se respeita alguém não queremos forçar a sua alma sem o seu consentimento

Simone de Beauvoir é quase covardia citar. Mas o tempo é um elemento fundamental no crescimento da liberdade que é, em uma análise pessoal e certamente cheia de parcialidade, amar alguém a ponto de reconhecer que seu destino lhe é próprio. É onde nasce o respeito pelo teu desejo manifestado, você teve pouco, bem pouco, pouco mesmo disso. Reconhecer que a existência da tua alma, a simples noção desse tempo moldado em gente, isso alegra e faz seguir em frente. Não se trata de estar junto, não se fala em casamento, não se diz sem ti não vivo. Meu assunto és tu, que me felicita ao longo dos dias em que exercito a própria vida. Quero dizer aqui e agora que sim, o tempo todo é você. É justamente por ser você que há tantos modos de me aprontar, de resistir, de viver e de ser feliz. Afinal, há Marte em mim e não me perdi porque sempre andei olhando em ti.

Toca Milton Nascimento, seus mil tons, seus mil nascimentos. Ele não tem uma voz, é um dote, um dom, algo elegante e terno. Sinto tua presença e descanso de um ano longo, de dias bons e cheios de efeito sanfona. Há tantas possibilidades, lugares, cidades, filmar com o nosso garoto Du, ensinar. Me sinto na fronteira de mim mesmo, não há perigo, mas serenidade como em Eluarada. Entrei em acordo com o tempo, chega de tentar supera-lo, hum? E sabe que não se trata disso ser possível ou não? Quero ser o que vim ser, vencer o que há de fútil, desconfiado e errante em mim. São planos grandes, não? Os fogos começam a dar os primeiros sinais de 2020, allminha que amo. Os anos 20 chegaram, não te parece estranho, nós dois nos anos 20? Porque te conheço de outros registros no tempo, onde mora a verdade que sinto.

Encontrei um lugar incrivelmente saboroso para pizzas, junto com o Du, que está mais engraçado do que nunca. Ainda vou te levar lá. Quero fazer tanta coisa, não? Por hora, te deixo com água na boca e a lembrança do simples, do gostoso, do trigo e da semeadura. Precisa ser fácil, se lembre. Precisa ser forte, se anime. Precisa ser fato, se inspire. Você é a melhor ideia de um tempo cheio de ideias geniais. Cante, toque sax, encontre, aponte, acolha, se escolha, seja impertinente. Gingue, mexa, abra, enterneça, permaneça, nosso tempo é ontem, nosso tempo é sempre, nosso tempo é já.

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