Lembra

Eu sendo eu, esqueço quase tudo que seja ficcional. É muito comum me perguntarem sobre um texto que eu tenha escrito para terceiros, uma ideia, documentário ou campanha que esteja fazendo e eu não conseguir lembrar uma palavra, imagem, dito, entonação desejada ou instruída, nada. Não se trata de algo pretendido, não exige qualquer esforço da minha parte, simplesmente puft, desaparece. Isso não acontece com filmes, livros, textos, gestos, expressões, frases, encontros e diálogos inteiros que eu tenha, de algum jeito, experenciado. Nesses casos, posso descrever com riqueza de detalhes as cores, a entonação, a legenda, o que senti, qual era a temperatura, o que tomei.

Mas para quase todo o resto, sou uma espécie de desastre em duas pernas. Tenho um semi pavor de casualidades, não sei me portar em situações amenas. Mas alguns combinados precisamos ter. Vamos lá.

Em encontros casuais, dou uma dica preciosa na guerrilha social urbana: não segure a pessoa, principalmente se você é o mais forte.

Não fique ajeitando o botão da camiseta da pessoa.

Pessoas: não tenham aquelas babinhas no canto da boca. Aquilo vira um ponto focal, não é possível argumentar, a babinha é imbatível no quesito encontros nojentos.

Nada contra a gíria, mas tenha um plano b ao boralá e seus assemelhados linguísticos. Mas entenda: boralá é a fronteira. Quem a cruza, corre o risco de viver se expressando via emotion. Depois, tem uma coisa, Auto da Compadecida é bom demais. Boralá ler? Até porque vai que o carinha ou a carinha que você procura gosta. Então vem a pergunta. “Você leu Auto da Compadecida?”. Se você disser sim, isso pode render horas ao lado de quem te dá frio na barriga. Mas se você disser “boralá”, é isso, leva 5 segundos.

Voltando ao ponto, um pedido: dê uma chance a tipos esquisitos. Eles não são ruins, apenas esquisitos. Normalmente não lembro de nomes, datas, figuras geométricas, mas reparo na cor da unha. E faço isso sem combinar meia e calça, ou andando de bermuda a maior parte do tempo. Não carimbo o ticket de estacionamento, perco chave, trombo com lixeira, remarco hora com o dentista, dou um certo trabalho, mas na maior parte do tempo só tenho a intenção de existir. Não quero impressionar ninguém e ao mesmo tempo, tudo é tão impressionante, aquele pode ser um instante total, o ápice de uma encarnação. A moral, me ensinas, é um elemento de violência. Uma opinião é isso, uma opinião, um elemento da verdade, não ela por completo. E que importa se Jesus era ou não homossexual, olha a mensagem do cara. Estão crucificando o Porta dos Fundos por certo e errado. Que raso. Pronto, desabafei.

Confesso que às vezes é constrangedor, muitas vezes na verdade. Como em uma ocasião em que sugeri uma cor, sei lá, verde para uma equipe de ciclismo. Então, um dia, me param e perguntam “que tal?”. Antes de te contar que não lembrava do conselho, preciso declarar algo: não se faz isso. Você não deve interromper ou interpelar pessoas na rua, perguntando “que tal?”. É preciso um protocolo e acredito que a abordagens desse tipo sejam proibidas pela ONU. Acho inclusive que é expressamente proibido.

– Ivonete, vem cá, olha quem encontrei, o grande Mariel! Ela está de verde, ele sabe meu nome, eu quero correr por 250 quilômetros. Sou muito ruim em encontros casuais, preciso de um tempo para ser visto, ver e ficar à vontade. Nas equipes que faço parte é a mesma coisa. Sou um especialista em piadas ruins. Elas ficam melhores na exata medida em que as pessoas entendem que a graça é a ruindade do gracejo. E isso se dá na medida em que o conhecimento mútuo acontece. É só um exemplo. Outro? Te dou. Sou bem ruim em cuidar de mim. Então se marco um médico, mantenho o peso, ando ou durmo, é uma mudança abismal do modelo antigo. Normal, vendo de fora. Mas um super avanço, vivendo dentro.

Tudo isso pra te contar que esquecimentos e auto esquecimentos à parte, tô tentando não me distrair de mim. É um jeito de estar ao teu lado, lembrando desde criança que sempre sempre fui amado. Esqueci, quase. E você vem e recorda.

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