Ao dia

Entre outras coisas, sou publicitário e todo publicitário se acha bom demais no que faz, fez ou ou fará. Todos os outros publicitários são questionáveis, menos o (aqui o publicitário em questão coloca o nominho). Na maioria dos profissionais da publicidade, principalmente os de criação como eu, todo o espaço é ocupado em confirmar a essencialidade da sua existência, mesmo que isso não seja mesmo necessário: obviamente, a importância está previamente confirmada por nós mesmos.

A Filosofia, por outro lado, fica na margem de lá da publicidade. Mas ela não é exatamente na academia, na estrutura, no plano de aula, no tipo de discussão que se tem, ou nos livros que se lê para que o próximo ano aconteça, nos desafiando para outras provocações, sutilezas, ideias em expansão. Ali se aprende as técnicas, os métodos, a ciência que rege o pensar sobre o bom, o belo e o justo. Refletir à respeito de algo te propicia a surpresa, o olhar encantado do homem que viu pela primeira vez a primeira labareda que trouxe a primeira fogueira, precursora do primeiro rodízio de assados na floresta. Filosofia é, fundamentalmente, um modo de vida. Você escolhe o modelo que te habilita a encontrar respostas, não certezas. Coisas que mudarão, à medida que a tua régua mostre que um terreno (portanto os pontos de vista) são verdadeiros e falsos ao mesmo tempo. Você passa a olhar por cima do mundo e tenta a entender o que rege as coisas por dentro. É algo diferente da propaganda, que tenta convencer, valorando o que existe por fora de tudo. Então, uma vez escolhido e aplicado o método pessoal de viver, o aplicamos com os talentos que nos são natos e as imperfeições que são tantas. Mas pode acontecer de mudarmos de bússula por conveniências, circunstâncias, crenças ou necessidades existenciais. Quando e se isso ocorrer, é boa providência avisar. Se você não disser, como vão saber?

Receber o Dia é um conceito de uma escola do pensamento que conheci há muitos anos, andando de bicicleta, matutando sobre um campanha cuja ideia brincava de se esconder comigo. Receber o Dia é aceita-lo em seus diferentes enfoques, nem todos na temperatura certa, a maioria em desordem e a minoria feitos a mão, por artesões delicados. e com tempo de sobra. É um exercício que exige alguma meditação. Afinal, ninguém chega aos portais do sempre sem passar pelos portões de casa.

Receber o Dia é um tipo de call to action, aqueles comandos mentais que colocamos em quase toda peça criada. Ninguém gosta, mas todo mundo põe. Faça, venha, corra, ande, olhe, passe, fique, as possibilidades são intermináveis. No entanto, Receber o Dia tem outra missão. A de nos neuropreparar para um encontro que é tão inevitável quanto gigantesco, chamado agora. Nele, imutavelmente, tudo será novo e reinaugurado. Em algumas horas, caminho do trabalho, milhões de células recém saídas da necessidade de existir, absolutamente tudo é outro, ultranovidade, nada é o que existia nesse exato instante. A maioria não nota. Mas não estamos falando de maioria, estamos? A maioria votou em, bom você sabe em quem.

Nos telefonamos, nos encontramos e nos colocamos frente à frente uns dos outros como se as horas fossem uma continuação rotineira e sonolenta de mais horas, formando blocos corriqueiros de acontecimentos em repetição. Não são. Não há nada garantido, nem eterno, não falamos com os mesmos filhos, pais, amores, amigos, caminhantes que encontramos outro dia. Esses não existem mais. Se voltamos a nos ver, o encontro estabelece inéditas e completamente diferentes condições de temperatura e pressão. Éramos outros, todo encontro é outro encontro, não há próximo assegurado.

Isso é Receber o Dia: transformar gestos em mais e mais capacidade de entendimento e surpresa, uma especialidade da publicidade, olha ela ganhando valor.

“Como se fosse a primeira vez” é um dos poucos filmes que gosto com o Adam Sandler. Nele, o protagonista precisa se apresentar todos os dias para a mulher que ama, já que ela foi acometida de amnésia e sua memória dura apenas 24 horas. A película estreou dia 13 de fevereiro de 2004 e, quase incrivelmente, a história foi baseada em fatos. Forte, não? É a vida citando ela mesma como exemplo. Ou como lição, depende de caso.

Quem deseja manter-se alguém cujo valor se renova e o prazer do convívio resista ao tempo não pode cometer um engano: substimar a força da inércia, mãe de toda rotina. Ela é uma correnteza, te cerca, tem poder hipnótico, acabará vencendo se não for combatida. Transforma o homem da sua vida num mané, um desconhecido a ignorar. A mulher estupenda ganha algo estranho em suas ruelas, becos, avenidas, urbes, ninguénsabe ir. Faz de você um arremedo, testemunha de fracos, de fracassos e de fracassados.

Receber o Dia não é antídoto contra o veneno de processos que, ainda que necessários, são repetições tediosas sobre o passar das horas, do continuo em sono profundo, o esquecimento de si. Receber o Dia é o exercício de quem olha para o lado e se vê montando seu destino, senhor de si mesmo e sujeito capaz de tornar-se o melhor que poderia ser.

O presente de hoje é um pedacinho do filme, 4 minutos. Dublados, mas esqueça isso e não esqueça de lembrar do que é importante.

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