parábola do grão de areia

Havia um grão de areia diferente, lá longe, distante, vivia na beira de todo mar que existia. Olhava dali navios, borabora, aurora, entardecer. Era bem queimadinho o grãozinho, amava o sol tostante, sim, o amava bastante. Mas não tanto nem com tanta intensidade quanto ao vento, mas quem quer comparar? Quando se gosta de um e de outro, um e outro são indispensáveis. Um é brisa. Sopra, acalanta, leva, você quer sentar, ele te levanta, sua natureza é movimento, quase um beijo. Ah, você vai gostar de beijos, mas isso é outra história, de muitas outras que haverão. Se um é brisa, o outro é sol. Luz, calor, trópico, vitamina D. O graozinho de areia o adorava. Era uma alegria a chegada e outra alegria a partida, porque ambos se conversam, trocavam bicocas e pega pega, era um jeito de brincar, de tocar e de divertir.

O sol se pondo não se opõe ao sol nascendo, oh não. O graozinho de areia soube assim que entendeu a giringonça das coisas. Entendeu então que as coisas giram, fazem um looping, sobem, descem e, às vezes choram. Até o sol chora, é a chuva e caso as duas coisas aconteçam juntas (sol e chuva), é sinal de casamento de viúva. Quando você assistir a água caindo do céu e o sol mandando ver, corre pra varanda da tua alma, allminha. Então respira o mais profundo que puder e sinta o aroma da terra se molhando, se ensaboando, ficando cheirosa igual a você. É um encontro fundo e gostoso, igual a pisar em poça dágua, banho de mangueira, pipa feita em casa, cafuné e café com leite, Nescau quentinho, carinho, a gente junto, inexplorando pressas, sem promessas, só ali, no dia que é o único dia possível, já que ontem foi embora e amanhã? Amanhã nem existe.

Você jura que não sabia que os italianos chamam café de Capuccino? O grão de areia não sabia e não sabendo, não conhecia que há muitas formas de se chamar as coisas. Dia, noite. Amor, anel. Tonel, túnel, palito, paletó, moça, maçã, muquirana, manhã. Chico, Milton, Djavan. Um, dois, três, feijão com arroz. Quatro, cinco seis, feijão inglês. É tanto nome que te deixariam zonza. Tonto é cavalo do Zorro, morro é um monte e morte é morro. Mato é um lugar cheio de sementes que ninguém matou. Mato é um gesto amargo e amargo lembra chimarrão. Tudo que passa é passageiro, porque procuram ali o eterno? Terno pode ser roupa ou afago. Quero tirar tua roupa e dormir no teu umbigo, domingo a domingo, no teu colo toda segunda, no teu abraço nos feriados, no teu amor todo santo dia, mesmo nas quintas de futebol. Como é a primeira vez que se ama? Agora eu sei você.

Um dia, o graozinho de areia chegou diferente do seu jeito de sempre chegar. E na beira de onde estava, passava das seis. Em muitos lugares, quando isso acontece, a noite vem. Devagar, sem susto, sem pressa ou necessidade de apoio. Graozinho nem notou, nem se assustou e o céu ficou num azul noite estrelinha, noite estrelada, noite em que se você me dá teu dedinho mindinho, eu não preciso de mais nada, só que você cresça em mim, aconteça devagarzin, e se eu disser saúde, você atchin.

Outras vezes, menina, vou te pedir a alma e te entregar uma vida encontrada em si mesma. Uma vida não Severina, sem severidades, uma vida escarlate, cheia de gols do Inter, bicicletas com nome, histórias dentro de caixas. Ah, allminha que amo, você precisa saber, nosso menino entendeu que fico “alguém que sorri toda hora” assim que de veijo (mistura de ver e beijar), depois que entro ou saio da tua casa que é minha, do teu desejo que é meu. De uma conversa besta. De uma piada ou de uma história como essa, do graozinho. Dizia que ele estava lá quando a noite chegou e quando a noite chega, não nega sua presença, distribui inspiração como quem dá um presente.

Se uma estrela já linda, imagina trinta. Imagina milhares de milhões piscando pra ti, que ciúme e que gostosura. Grazinho resolveu contar. Um, dois, três, doze, treze (número lindo), 16 (número misterioso), 80 mil. Enquanto contava, foi entrando pacificamente no Atlântico e, inspirado nas águas, como nada havia a fazer, nadou. E rodopiou em recifes que em 10 anos nem existirão, entrou em correntes, deixou-se, bateu em tartarugas, conheceu cardumes, foi ao fundo, reconheceu algas, percebeu navios, lanchas, pés de patos, profundezas e algumas tristezas, namorou tartarugas legais, viveu tanto e de tal modo e maneira que algo lhe acontecia enquanto mergulhava: sentiu saudade da beirada, de ser areia molhada, amante oceânico, pequeno monte, grão finito, no meio de infinitos grãos. Então amou-se a si mesmo, um descanso profundo, algo se despedia enquanto outro algo nascia devagar. Cansado, o grãozinho dormiu e quando viu, acordou estrelinha do mar.

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