Carta da Solidão

Dia desses falamos sobre a felicidade. Então veio a frase do Drauzio Varella que é muito intrigante mesmo, além de certeira.

Cada vez que alguém que amo morre, minha felicidade diminui

Em uma interpretação bem livre, acho que a questão central não é o encurtamento da felicidade, mas o que colocamos no lugar, não em substituição, mas como química reveladora dos nossos desejos e crenças.

Vamos ficando sós aos poucos, na medida que passamos pelo tempo e as experiências que temos dentro dele? Não há escolha, então, está tudo escrito? É claro, desapareceremos, impermanentes que somos. Mas o que fazemos enquanto isso, mostra o nosso viço e denuncia alguns vícios.

Ou, então, que se desista. Que a normose vença, que seja vã qualquer tipo de razão ou resistência.

Desaparecem os amigos do colégio, por tomarem caminhos diversos? E as pessoas que nos atraíram para afetos variados e que deixamos por motivos que o caminho propôs? Se vão, ou ficam ali, moram no sempre das lembranças, das lambanças, da imperfeição que nos humaniza? Quem sabe vivam no riacho atravessado, na pesca feita, no tropicão, na barba rala, na falha, na primeira vez, nas noites de frio ou na praia quentinha, não sei. Acontece o mesmo com causas, casas, camas, cidades, quatis, cães, mães e fatos de estimação: vivem ou não. Ocupavam espaços em nós, os lugares secretos, os parceiros, outros amigos, talvez amores, ainda que estes menos e, no meu caso, um. Ou, ao contrário, apenas se vão e tudo, de desenhos na rocha à Turma da Mônica, estamos condenados ao triste ou, pior, o real não existe, somos algo como uma perspectiva, uma forma de ver, o vital que se esquece enquanto desaparece?

Se engana quem me lendo ou nos ouvindo veja em coisa ou outra um pessimismo carrasco diante da esperança ajoelhada. A pergunta de aço é o que vc mantém vivo enquanto morre, já que tudo se vai? Sarte, um existencialista afiado, dizia o seguinte, olha que coisa:

” A existência é uma sucessão de escolhas. Quando você faz cada uma delas, é como se toda a humanidade esperasse sua decisão para definir quem ela mesma é “

Quando alguém que a gente ama morre, nossa felicidade diminui pela falta que nos damos conta que aquele afeto fará. Mesmo? Mas porque aquele querer específico, de marido, conhecido, de mulher, primo, time ou fama e riqueza? E se não for isso, mas o susto ou a consciência de que fomos chinfrins e que não nos permitimos fazer aos outros tanta falta assim? Talvez Evita Perón quisesse dizer exatamente isso quando declarou o enigmático “Não chores por mim, Argentina“.

Gatos, teses, fatos, restos, ritos de passagem, edifícios erguidos, aviões derrubados, somos bárbaros bem educados? Ou depois de Tereza, Calcutá nunca mais será a mesma?

E se no lugar da infelicidade crescida na paisagem do que exista, alguém resistir e te amar por um minuto, uma hora ou uma vida? Ou te olhar na admiração do que és e na beleza que trazes e assim e por isso, por um momento a mais, o riso se mantiver vivo? Ou alguém, ainda que isso seja nada, te esperar na porta da garagem para que entres sem susto e isso importe por te fazer bem e que o gesto signifique por si mesmo, independente de ti, de mim ou dos nossos esquecimentos de nos mesmos? Te desconforta que te cantem o encontro? Que te contem o encanto que provocas, não pelo meu amor, mas pelo teu, por ti, agora e aqui? Vinicios estava enganado, de onde vejo. As coisas têm que ser eternas porque duram eternamente. Se fazem isso enquanto duram, esse é um eterno que mente em nome do desejo .

O que ha de maior em nós deve ter inspirado os Homeros, os lendários, os amantes, os piratas, os corsários. O que ecoa na eternidade não é felicidade diminuta, vencida, extraída do ser porque outros seres se foram. Não se trata de esperança, mas de Saramago. De Beatles. De Oscarito, de Chaplin. De Clarice. De Sidarta. Da Casa dos Fortes. De Nottin Hill, de Danuza e Rita e Elis. De Parra, de Allende e do Asterix. O que se apequena não me parece ser a felicidade. O que aumenta é a solidão que longe de ser um problema, é uma resposta. Vamos ficando sós, o que significa dizer cada vez mais perto de nós. Perdendo companhia e memória, nos afastamos pra dentro. Nos tocamos, caminhamos para o cerne e centro inevitável do que somos. E somos sós em grandeza e poesia. Sós de nós a nós, não o nada, o nós na versão eu comigo, cada um consigo, sós. Nus, revelados, sem espelho ou reflexo, nós sem explicações duvidosas e sem o que nos dava sentido, o que pode ser casamento, filho ou amigo. Nós sem desculpas nem culpados. Somos sós em nossos naufrágios, somos naus frágeis, e a solidão não passa de nós dando voz a nós. Vendo-nos, vivendo e sendo o instante glorioso que recebe um tal amor teu, de tanto tamanho e presença que a felicidade se alcança. Então e por isso, a solidão é feita da hora que me conduz, me traduz e não me devora

28 comentários em “Carta da Solidão

  1. Pingback: Carta da Solidão
  2. Dizem que a felicidade é coisa passageira e é tema de várias músicas e poemas…
    Eu, já penso que a felicidade é o instante… e como penso isso, cada instante que venho aqui sou mais feliz!

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  3. E eu que já havia lido com defesa de causa que a vida era um simples holograma e nada de fato existe, porém mesmo que essa loucura seja uma tese, cai por água quando entendemos que o universo continua criando e modificando e isso sim me acalma pois sei que serei eterno dentro dele, não em minhas rápidas lembranças. Tenha certeza, nos veremos em outras dimensões.

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    1. Sabe que na filosofia clássica grega essa ideia (fazer parte do eterno do cosmos, sendo justamente o passageiro no que é perene). Em todas as dimensões, seremos bons amigos

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  4. Maravilhosa divagação em redor de uma palavra que é de todos nós. Porque é realmente de todos nós.
    O último parágrafo é genial, com todas as palavras e verdades no sítio certo. Adorei!

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  5. (espero não estar a repetir um comentário, pois não percebi se o anterior foi enviado ou não…)
    O que quero dizer é que adorei esta divagação em redor de uma palavra que é de todos nós. Porque a solidão faz realmente parte de todos nós.
    E gostei especialmente do ultimo parágrafo, pois ele tem todas as palavras e verdades do sítio certo. Muito bom!

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    1. Dulce, minha amiga além-mar. Esse texto é praticamente uma reprodução de conversa, adorável, aliás. Eu e a alma que amo trocamos essas ideias sobre solidão, felicidade, o outro e a importância desse em nossas vidas. Que alegria me da tua vinda e teu comentário

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