Vim, vi e vivi

De onde eu venho, o tempo faz seus desenhos. E ensina que quedas podem ser bem-vindas como as do Muro de Berlim. Guaíra, por onde meu pai entrou, não existe mais e o mesmo aconteceu com o velho lobo do mar. No entanto, às vezes surge pra mim um cheiro de mato, a paixão pela água, o gosto da gargalhada em mar aberto, seu olhar bondoso e longo. Ele faz falta não porque existiu, mas porque existiu pra mim. E por que ensinou a receber a vida como uma onda gentil, capaz de me banhar em alegrias.

Vindo, trouxe comigo Fungêncio corrido da ilhota, uma confusão de passeatas, o argentino brigão ganhando a parada. Torci para as flores vencendo os canhões em terras lusitanas. O fado foi mesmo triste e, numa questão de horas, a revolução dos cravos foi de redenção à crueldade. A primavera árabe, os caras pintada, a expulsão de Allende, a bondade de Tereza, os chineses colocando Dalai pra fora. Quando Senna foi embora. Quando o Inter ganhou do Barça. Quando tive filhos. Quando leitura me pegou de jeito. Quando quase me fui. Quando me perguntaste de Cuba. Quando silenciei você. Quando resolvi te escrever. Quando me perdi pelo caminho, te recebendo de fresta em fresta. Tancredo, que história foi essa? Medici não me acertou, nem toda a turma que viria depois, a não ser um, que já se foi. Torci por Tupamaros. Chegaram meus netos. Aprendi a deixar de fumar. Fui para meu interior. 7 a 1, quem diria? Torres gêmeas, olha o que a tristeza faz. Mercedes calou-se depois de me calar fundo. Quando você me contou de você. Quando eu te falei de mim. Quando nos encontramos. Quando o encontro tornou-se a inesperada entrega, expressão de tudo que pacientemente se espera, ainda que seja urgente.

Enquanto crescia, olhava de longe uma gente estrangeira. No rádio, ouvia um mágico falando de mar da tranquilidade. Mar da Tranquilidade Lunar: aquilo se tornou um amigo imaginário. Era o espaço de uma natureza sem gravidade, suave, leve, eclipsada às vezes. Fui seu protetor secreto, a vigiava de uma árvore na madrugada. Te via viajante, não te reconhecia, te mirava, enquadrada que estavas em sua vida enluarada. Emudeci, resisti, estive de joelhos, sempre olhando seus movimentos. Cheia de saudade. Solidão crescente. Liberdade minguante. Nova e radiante cura, foram tantas luas longe, serão tantas distante. Todas serão refeitas de rendenção dos dias, a ressignificação do tempo e dos sentimentos. Faces lunares, teus olhares. É a vida, influenciada por marés e teus amares.

Às vezes tenho que fixar bem o olho para encarar o tempo que em muitas ocasiões me testou a paciência, com recíproca verdadeira. É incrível como basta uma desatenção e surgem estranhos seres, tiazinhas, o cigano Igor, a boa Blitz, Rita aqui e a Lee, Chico às vezes, Queen, Fábio Júnior em cartaz. A moda estressada e colorida, o tuctubtuctituctibum das boatinhas. Um entorpecimento, o fim dos milicos, comer marisco na beira da praia, sobreviver ao Rio, Itamar Assunção e aquele outro, de mesmo nome, mineiro e de sobrenome oceânico, Itamar. Tive Milton, o Clube, os Beatles, Criolo, Chico, Bob, Queen e Marley. Dario, falcão, gerson e Jair, nao o Messias. Te vi e te vivendo, conheci o bom do amor que é, sendo. Todo resto cabe numa gaveta, é iogurte que vale por um bifinho.

Teoria das cordas, o tempo que não se movimenta, a esperança matemática, o amor quântico, a partícula, o vácuo transformado em crônica. A paixão atlântica, uma vontade amazônica, a solidão feita de aço, a farsa disfarçada de vermelho e subtons. Vivi o súbito, os súditos de São José, o fim da história e os mistérios da fé.

Houve um ano que fiquei em casa. Outro que viajei. Houve o ano que te cantava. E o ano que me calei. Fiquei tão assustado quando esqueci da tua voz para que a minha resistisse. Então, aos poucos, os fantasmas me acalmaram. As figuras de areia se foram vagarosamente. O tempo fechado se abriu, as caravanas chegaram, os sinais me guiavam e meu big bang se deu. Os ciclos são vivendas, instantes em movimento em um tempo parado. Claro que os poetas dizem isso melhor do que eu. Olha que captura do real:

É assim como se o ritmo do nada
Fosse, sim, todos os ritmos por dentro
Ou, então, como uma música parada
Sobre uma montanha em movimento

Acho, assim olhando longe de onde vim, que tudo está descrito. Me coube escrever sobre o que vejo nas paredes das histórias que encontro. Ela, as histórias, me cochicham e mostram caminhos. O que nos sustenta -e às histórias que encontramos- são os sinais emitidos, como fazemos parte, como autoramos os dias. Aqui e ali um trecho de livro te dirá o que é inesquecível. Um pedaço de filme trará projetado teus sentimentos. Gente de todo tipo, sem querer ou de propósito, vai cantarolar uma marchinha de carnaval, um tango, uma citação. Escultor, o tempo vai nos tirar os excessos até que sejamos exclusivamente a arte que essencialmente somos. A curiosidade. A bondade. O carinho. As coisas que sabemos fazer bem. Aquelas que desejamos aprender. As que jamais saberemos. Talvez viver seja isso, uma equação, uma dança, um equilíbrio que permeia o feito e o desfeito, não sei. Sinto mais como um acordo firmado entre os muros que levantamos e as pontes que construímos sobre o impossível.