Juízo

Quero ter olhos pra ver a maldade desaparecer

Vi a solidão tornar as ruas em um baile aflito de máscaras. O medo falou em línguas e as máquinas desumanizadas suspenderam suas fumaças. Homens brancos, gente amarela, seres negros, peixes, florestas, mulheres de olhos puxados, pajés, papas e pagãos entraram em sofrimento de múltiplos formatos, urrando pelo perdão dos pecados esquecidos. Vi a dor imposta pelos impostores do amor, pelos salvadores do nada. Olhei fundo para semeadores de vento e lunáticos uivantes pra lua. Eles existiam há muito tempo, mas estavam dispersos. Então o pavor lancinante deu início ao seu reino errante, feito de isolamento e pensamentos amedrontados. Muitos foram levados para seus castelos de aço, submersos em subterrâneos, presos em com vista para o mar, bankers, bueiros, esquinas escuras e sinais de rádio. Era um temporal de phds de facebook, mestres do ouvi dizer, graduantes do pensamento desertificado.

Enchente, fogo, o adeus tufão, o clamor líquido e incerto, um silêncio incrédulo, as febres subindo, a falta de ar, o sufoco estupefato, os superfatos, a eloquência engajada, a loucura partindo pro tudo ou nada, especialistas em capim seco, ratinhos, Galvões, unicórnios, estudantes de medicina, franceses da Etiópia, a turma que tem um amigo médico. Nada acalmará a turba que precise de algo mais magnifico e menos pró-científico do que lavar as mãos.

Hiperconectados estarão desligados. Teóricos praticarão. Ignorantes explicam, amantes se afastam, solidões se encontram, áridos plantam e iludidos enfeitam a realidade. Cada um estará dormindo seu sono certo e absoluto. Eis que passam carros de bombeiros, correndo no tempo hesitante, a velocidade perde a luz, a verdade não liberta, o sonho não desperta, a pressa atrasa, a reza cega, a milícia abençoa, a política medita, a multidão vira um molde desfigurado. Todos elevam o pensamento coletivo, concluindo que Deus existe, mas que Ele é vingativo.

Dizem de tudo, sabem do todo, têm teses internacionais. Foi o grande vermelho. Ou o velho urso gelado. O tio San zangado, um Brasil desavisado, o Butão distraído. Iêmem desavisado. O juízo final é um espetáculo onde jornalistas publicam o que leram nas mãos de ciganos. A cidade apavorada se quedará paralisada, como na canção do Chico. Então anjos descobrirão as causas e alguns diabos distribuirão a cura. Arrependei-vos, está nos cânticos. Escutem o barulho que estão fazendo, porque não haverá soneca disponível, estejam alertas, o tema é sério e cheio de mistério inalcançáveis, transmitidos aos espirros. A ciência negada, a evidência mascarada. A moda do gel virá com tudo e seremos obrigados uns aos outros.

Parem as máquinas. Suspendam os jogos. Segurem os voos. Cancelem as rifas, acabem o café, estoquem feijão, esqueçam as opiniões, ninguém tem razão.

E assim serão os dias da pasmaceira geral. Novas bruxas, outras fogueiras. Dinossauros diferentes, cavernas como antigamente, fronteiras fechadas como nunca e as almas enclausuradas como sempre. É o cão se livrando das pulgas, o joio e o trigo assumindo a relação, são as águas de março e o mundo lavando as mãos.

Terão que conversar. É como se todos agora olhassem em frestas e contassem o pedaço que enxergam. Avós dentro de caixas falam que é um boto o que aparece. É um lobo. É um pelo. É um olho. É um marido. É uma abelha. É a semana que vem. É um comunicado. É a mulher, o filho, o namorado, cada um em sua cabana fechada, cerzida, explicada, bem requinte, nem vigia, nada.

Até que alguém saia do calabouço onde e se depare com algo estranho. Não um aplicativo, mas um ser de mediano tamanho. Não a internet de coisas, mas com memória capaz de receber e retribuir um riso sem medo de colapso. Em paz com o simples, de bem com o dia, sem guarda-chuva ou botas, olhando do lado de fora da vida. Estará ali, ocupando a rua deserta, entendendo o que se passa enquanto saboreia um bom pedaço de goibaba, o passante, um anjos sem asas ou inocência cega. Será um ser comum em suas rotinas, possivelmente um ciclista, um bailante, um menino, uma menina, uma estrelinha cadente, um vendedor de maria mole, um sábio em sinais de trânsito, entre os não veículos circulantes. Quem sabe te pergunte como é Ithaca, já nunca esteve lá. Se a resposta for “é uma ilha onde entendi o que é te amar”, então estará tudo certo. A partir dali, talvez sem que nada nem ninguém perceba, o algo acontecido é o encontro permitido entre estranhos. Ampliado e reduzido, revisto pelos autores, vivido em corpos desejantes e almas apaixonadas. Talvez dividam o pouco que compram e compartilhem o muito que sentem. Eles não se mentem, se tocam, se estocam de afeto, é uma longa viagem. Sentem faltas, se tatuam em almas perpetuadas de carinho. Se escutam e conversam em volta da mesa. Dormem separados por que vivem lado a lado. São inseparáveis, o que é diferente de só estar junto, mas se acreditam e dão mais um passo. Tocam os dedos. Trocam impressões, comparam medos, acompanham solidões. Se perguntam o que é preciso. Sabem entre si, algo lhes diz e se acreditam que ser feliz é porque sim.

Então, de Havana aos donos da Havan, não nos repartiremos mais, não partiremos mais um de outro, seremos cais de recebimentos e nosso alimento será paz e espaço. Sol e cheiro de terra molhada. Azul e significados. Cuidado e desejo. Farinha e pão. Feijoada. Arroz doce. Filosofia. Água gelada, pizza, Saramago, Mãe, cinema, meia entrada, caminhada, festival. Passeio, bosque, Morretes, casa no Uruguai, Asterisco, paisagem, canções, bilhetes, namoro. Um apelido exclusivo, nadar, escrever, conversar, resistir, abraços arvorísticos. Lembre de não esquecer, de incluir, de intuir, de olhar além e de manter o olhar por um momento a mais, hiato mais do que imenso para que o outro saiba o necessário. Não tenha tantas trancas, tantas senhas, seja o foram felizes no sempre com quem você precisar. Não fique doente. Tenha um amuleto pra se lembrar do que não funciona. Respira. Se guarde. Se doe. Se ame. Se reparta e receba. Então, quando os monstros se mostrarem de areia e os parques continuarem lá, nos contaremos o que aprendemos sobre nós quando não foi possível respirar o mesmo oxigênio. Daqui a um dia ou a um milênio, não há pressa. Haverá um momento que não passa e a hora de abraçar o nosso espaço, sem hora para desabraço.

o presente de hoje é um samba que Clara Nunes eternizou pra mim. Esperança não é esperar. É saber.

4 comentários em “Juízo

  1. Mano Mariel, você é o Cara!!!! Mergulhar em seus escritos é um banho, um renovar da alma. Gratidão por suas palavras que tocam, que moldam, que emocionam e nos faz resgatar a esperança muitas vezes esquecida em algum canto. Namastê!

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