nonino

Era outubro e ele estava em New York, vivia lá. Então chega a notícia da morte do seu pai. Dias depois, o falecimento de Nonino inspiraria uma das canções mais lindas já feita por alguém. O que há nessa peça? Um tango é muitas coisas ao mesmo tempo. Une o imprevisível e o provável, dança e imobilidade, humor e tragédia, além de sensualidade e caricatura. Dizem que é uma mistura com tantos rituais que só poderia, mesmo, acontecer na Argentina. O piazinho Piazolla ganhou de su papá o primeiro bandolion. Foi o seu Vicente (nonino) quem mantinha a vitrola ligada com tangos, muitos tangos, durante a infância de Ástor. Viviam onde? Em New York. Seu pai era amigo de Carlos Gardel. Apresentados, o garoto e o cantor se tornaram amigos na hora. Isso a ponto de Gardel o convidar para acompanhar sua turnê. Onde a primeira parada? Medellin, mas houve um problema: Nonino não deixou que o garoto fosse, imagina a frustração. Gardel seguiu viagem, num voo que terminou com todos mortos em uma queda perto do destino.

Me atrevo a dizer que esse pai pariu o músico e inspirou sua música. Algo aliás debatido pelos argentinos, já que muitos achavam que piazolla era rebuscado, difícil, excessivo. “Adios Nonino” acaba com qualquer discussão e todos se reúnem em volta dela para ama-la. Quando a ouço, é um exército chegando, o inevitável vindo, a invasão da notícia indesejada. Os primeiros acordes são brincadeiras, correrias pelo apartamento, a rotina, o inacreditável nascendo. E um filho todo só pra si.

Até que chega, e chegando, aquela morte passa de pai pra filho, desaquece uma vida. Tem o lamento da alma perdida e o sentimento profundo da gratidão, num solo em que até o bandolion chora. Não há letra nesse tango, mas tudo fala eu amo você. É uma canção de despida que diz que sinto muito mais que sua falta. É uma melodia sentida, que afirma que tenho tua presença. Há dissonâncias, repetições, algo estremece, geme, entristece, ouça o violino. O perceba em seu dueto perfeito, exlclamando o que sempre seremos.

É um menino pedindo pelo pai, não se vá. Fique, que te obedeço. Me aqueça, que permaneço. Não morra em mim.

É como se nonino dissesse como é possível, filho? Que ideia é essa de vida? Entre nós não há despedida, toque um tango pra que eu te ouça, diga assim que me amas pra que eu saiba. Fique pequenino, polegar, beleza de filho, som de filho, amor de tudo que é infinito meu, toque um tango pra mim.

14 comentários

  1. Tempo árido e uma bênção ler tudo isso de lindo que você generosamente deixa fluir pra deleite dos seus leitores, Mariel! O meu “tom” há muito tempo me faz pouco merecedora já que me fugiu a alegria e a esperança. Mas nunca a gratidão. Que beleza esse presente! Espero encontrar você em paz na chegada dessas linhas. Namastê!

    Curtido por 1 pessoa

      1. Amigo, entrando nessa segunda semana confinada, confesso que bateu certa melancolia, saudade da família pois estou sozinha e dos amigos. O que salva é o trabalho remoto, as conversas via skype e redes sociais, leitura e escrita. Mas olhar pela janela, ver o céu azul te convidando para um passeio e não poder sair, ah amigo, não está fácil. Mas sei que tudo passa. E você, está bem? Força também.

        Curtir

Estou adotando comentários. Deixe o seu aqui

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.