Renascimento

Comecei meus estudos em um lugar chamado Grupo Escolar Jerônimo de Albuquerque. Esse cara tem uma biografia macia, tipo “pacificou tribos no Maranhão”, o que normalmente significa “ajudou na carnificina dos índios”, mas o ponto é outro.

O Grupos Escolar era desses espaços feitos de madeira (será que gosto de casinhas de madeira por isso?), muito limpinho, um pátio enorme, campinho do lado, lanche e até professoras às vezes. Camisa branca e calça azul era o uniforme. Lembro de uma pasta, dessas de plástico, onde levava caneta, livro, caderno, régua e um compasso, além do livro do ano.

Ninguém em sã consciência, vindo para a cidade, escolheria o meu bairro para morar. O Partenon era longe, era pobre, era sistematicamente violento, havia uma mistura eterna de bagunça e falta de saneamento, tudo demorava a chegar, enfim, era uma delícia pela gente que havia lá. Tênis? Os corredores da Etiópia estão de sacanagem se pensam que foram os primeiros a correr descalços. Banho todo dia, como assim todo dia? Quente? Você disse quente? Quá, quá, quá.

Na Marista, 300 havia uma árvore de uva japonesa onde um meninote passava horas no segundo galho depois da forquilha, no meio do tronco. Ali, à salvo dos olhares adultos, eu tinha um programa de rádio, o B12, cantava, declamava e contava o número de fuscas que passavam. Normalmente 2. Dormia na cama de cima de um beliche, que dava exatamente naquilo que eu fingia ser a escotilha de um navio, já que era uma janela arredondada, muito bonita. Quando aberta, era possível mandar sinais sonoros ao amigo da casa da frente, até que o sono ou a mãe chegassem oficializando o final do dia, fosse ou não nossa vontade.

Franzino e muito rápido, adorava correr. Muitas vezes isso me ajudou a escapar de brigas onde a derrota era certa. No colégio, era imbatível na “corrida de costas”, uma competição bizarra onde os times eram formados por trios de mãos dadas. Dois deles corriam de frente e um de costas, de modo que eram fundamentais a sincronia e a falta do que fazer para entrar numa disputa desse tipo.

Ia cedinho pro Jerônimo, que ficava a uns 5 km de casa. Ao longo do trajeto feito à pé, íamos nos encontrando, chutando pedra, contanto vantagem, pulando valeta, cruzando o riacho, a turma ia engordando em número, as algazarras aumentavam e ali pelas 7 e meia ou 8, lá estávamos nós cantando que ouviram nas margens pláquinas do Ipiranga de um povo hebraico um sarro deslumbrante. Não era uma gozação com o hino, oh não. A gente não sabia mesmo e, em posição de sentido, cantávamos compenetrados do jeito que sabíamos. Quando minha mãe me ouviu um dia, quase teve um AVC com tantos erros e desentendimentos. “Você tem que entender o que está cantando, a letra é a parte falada do que a música quer dizer”. Foi assim que me tornei a forma escrita de tudo que vendo, vivo. Fui tomando gosto, descobrindo o que eram margens plácidas. O que é plácido? E retumbante? E fúlgidos?A liberdade é quente por que é um sol? (o sol da liberdade em raios fúlgidos). O que Djavan quis dizer com Açaí, guardiã, Zum de besouro um ímã? Não sei, mas branca é a tez da manhã.

Uma das nossas brincadeiras era ir no Lami, uma das muitas prainhas de água doce que o Guaíba oferece de graça. Chegávamos lá de todas as formas possíveis. A pé, de bicicleta, carona. Ônibus não havia para o trajeto. No Lami, aprendi a pescar e a caçar cobras d’água, algo que valorizava muito quem conseguisse, já que se tratava de ato de coragem, destreza e estupidez, virtudes escritas em bold na periferia de mim mesmo. Também ali aprendi a amarrar barbantes em perninhas de besouros, comandando na marra os seus voos. Garotos de drone, babem de inveja assim que descobrirem o que é um besouro. Lá perdi Yara, minha primeira bicicleta, num acidente envolvendo barberagem, fuga de uma turma rival e pneu dianteiro careca. Até os inimigos me ajudaram na tentativa de resgate, mas não houve jeito. Fiquei doente sem ela, minha emoção é regida pelo amor que disponibilizo ou sinto. O corpo só reage a isso.

Estar no Jerônimo era estar com os caras e as gurias da rua, éramos todos da rua. Nos conhecíamos por apelidos cruéis, nos ajudávamos, a gente mesmo limpava a rua, prepara emboscada, se escondia no mato uns dos outros, pisava no barro em dia de chuva, rimos e choramos as perdas em comum. O sentimento de família, de grupo, a vontade de pertencimento teve no Partenon um bom momento. Aconteceu quando se foi o Bibum, um bêbado pouco anônimo, numa briga de bar. Tucano, um narigudo bom de bola, que foi-se para o ITA e voltou outro. Tanto, que seu apelido passou a ser Engomado. Teve o Deixa que eu Chuto, que levou tiros que não o acertaram, morreu mesmo foi de susto.

E teve eu que não morri de nada. Nem de medo, nem de noite, nem de faca, nem de fome, bala, navalha, soberba, angústia, ignorância, canivete ou a pior de todas as mortes, o falecimento da crença no amor. Não me mataram a ponto de não conseguir ver crescer o moleque que tornou-se mais do alguém que, estudando filosofia, não esqueceu de onde vinha. Foi assim que aprendi a cortar cordões umbilicais existenciais com Gilettes reais.

Nos lugares onde estive, fui me reconhecendo devagar, alvoroçando o ambiente, aplicando a lição básica da quebrada:

Chegue apavorando. Só quem não corre de nada é que vale a pena conversar

Não digo que isso está certo, apenas sei que fiz assim por um tempo. Afugentei, fugi, disse suma daqui, aprendi, li e recentemente desci da árvore, a que dava uvas japonesas. Arisco, fui tateando devagar, te achei vindo de um pais lá longe, onde tudo é dito em tom cordial, se pode dormir sem medo de acordar assustado ou tendo que correr. Bati o pé e continuaste ali. Urrei e você permaneceu, me perguntando de ilhas, contando histórias, trocando bilhetes, ouvindo, vendo, vivendo, sendo vista e visitada mais e mais. Me apaixonei pela tua força delicada. Tua escuta, nossa conversa. Tu, a canção, nós, uma dança. Não há letras de hinos a desvendar, nem segredos guardados, há um calor tropical que trocamos, a aliança pelo encontrado um no outro, sem tirar nem por, exigindo nada, que uma forma de entregar tudo.

Entendi, depois de tanto encantamento e afeto, que amar é um dialeto complicado. Tem crase onde vai vírgula, ponto junto com exclamação, não há futuro mais que perfeito e a conjugação é sempre nós. Regra um: respeitar tuas reticências como espaços sagrados onde eu expresso a liberdade que te pertence.

Tenho medo de ser esquecido, não é estranho? Gente tendo receio da queda da bolsa, de usar máscara, de acabar comida, de morrer, de viver, de faltar leito, de uma dor repentina no peito, de mil coisas diferentes como ter ou não ter emprego. E eu aqui, tendo medo de me tornar lembrança. Não para o mundo, isso é inevitável e não me importa. Tenho pavor é que agindo em tua proteção (desejo de quem ama) isso se torne um silêncio mal compreendido, uma distância e, finalmente, uma desimportância. Teus ditos me trouxeram essa sensação, a praticidade de tocar os dias sem que eu esteja neles. Nem foi o dito, foi a natureza do dito, a que torna possível me tornar invisível. A nossa sinceridade de sempre, indispensável é constitucional, não me relacionaria com você sem isso. Eu nem saberia como tocar as horas do meu dia sem minha allminha ao lado, não há como, existes em tempo total, falando ou não, estando ou estando.

Isso me rondou o dia inteiro e a minha criança está aqui do meu lado, tentando me acalmar do susto. Ela, que me ensinou a não ter medo de nada desde os tempos de Jerônimo, tirita de um frio estranho. Chegou um medo que não sei se passa. Disse hoje e é pra valer: é no sempre que amo você.

Feliz páscoa com a casa cheia de carinho. O céu estava assim no mês do nascimento, palavra da Nasa.

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