Se trata de viver

Algumas músicas me tocam, com o perdão do trocadilho besta. Estava ouvindo uma desses caipiras geniais Renato Teixeira e aquele outro, o Almir Sater, chamada “Um Violeiro Toca”. A bela canção começa assim:

Quando uma estrela cai no escurão da noite
E um violeiro toca suas mágoas
Então os óio dos bichos vão ficando iluminados
Rebrilham neles estrelas de um sertão enluarado

No escurão da noite, que lugar bom para uma estrela cair, hum? Mas acho mesmo que ele fala de começos e finais, a comunhão conectiva das coisas vivas. Sentimentos, momentos, cães, estrelas, leis universais e o cara que faz um gol pro Inter. Acredito que ao dizer que um violeiro toca suas mágoas há dois sentidos aí. Tocar no sentido violeiro, a capacidade de transformar em melodia e letra algo que não nem é uma nem outra coisa. Há um outro tocar, que penso seja no sentido de reconhecer a existência, tocar naquilo que se sente para que o sentido ganhe direção, força e forma. É quase um manuseio artesão. O que acontece depois que essas coisas acontecem? Então os óio dos bichos vão ficando ilumandos, rebrilham neles estrelas de um sertão enluarado. Esse naco de filosofia aplicada valeria o ingresso do show. É de uma sensibilidade profunda. Trata de contar, cantando, que há uma relação de causa e efeito entre tudo que vive ou pulsa, um relacionamento invisível e permanente, em eterno movimento. Em primeiro lugar, o acontecimento. Em seguida, a coragem essencial de tocar naquilo. Finalmente, o rebrilhar em outro ponto daquilo que já foi um lume estrelar. Eles podiam parar por ai, mas quem segura gente desse calibre?

Quando o amor termina, perdido numa esquina
E um violeiro toca sua sina
Então os óio dos bichos vão ficando entristecidos
Rebrilham neles lembranças dos amores esquecidos

Eles afirmam que sim, há o tempo do final do amor, mas não do seu fim. Aqui vejo um condicionante: “Quando o amor termina, perdido numa esquina e um violeiro toca sua sina”, o “e” se transforma num condicionante. É preciso que o amor termine e um violeiro toque sua sina. Não dele mesmo, mas do amor perdido numa esquina. Então o tocar ganha uma outra possibilidade às duas já existentes: a de significar seguir em frente, comandar, lidar com o que há naquele término. Nesse caso, a causa e efeito é o entristecimento na bicharada, porque se ressignifica neles o lembrar, talvez uivante, dos amores e amares esquecidos. Eu acrescentaria um uia aqui. Como se tudo isso fosse pouco, lá vem o refrão.

Tudo é sertão, tudo é paixão, se o violeiro toca
A viola, o violeiro e o amor se tocam
Tudo é sertão, tudo é paixão, se o violeiro toca
A viola, o violeiro e o amor se tocam

Não há nada fora, nada deixado ao largo, nada abandonado: tudo é um sertão apaixonado e, “se” o violeiro toca (é preciso agir, o “se” se presta a isso), a viola, o violeiro e o amor se tocam. Será que é tudo uma coisa só? Será que falam em fusão, em conexão? Será que são coisas inseparáveis não por uma obrigatoriedade, mas pela harmonia afetuosa que têm? Não sei, mas dá boa música. Que termina, enfim, de uma forma que deveria ser taxada pelo fisco,

Quando o amor começa, nossa alegria chama
E um violeiro toca em nossa cama
Então os “óio” dos bichos, são os olhos de quem ama
Pois a natureza é isso, sem medo, nem dó, nem drama

Ciclo de si mesmo, o amor começa, quando “nossa alegria chama e um violeiro toca em nossa cama“. Aqui a canção fica proibida para os recatados. O recado me diz que primeiro é preciso ser feliz para amar, só assim para a alegria chamar. E a cama é lugar sagrado de descanso e declarações acalmantes. O que acontece a partir daí? Os bichos e as almas, as almas e as plantas, as plantas e a água, a água e os ventos, tudo são “os olhos de quem ama“. Afinal, a natureza é isso. Sem medo, nem dó, nem drama.

Vou dormir em paz, no escurão da noite. E desejo, de alma, o mesmo. O presente de hoje não poderia ser outra coisa senão esse hino. O arranjo reafirma: tudo é sertão, tudo é paixão se o violeiro e o amor se tocam. Toque. E se deixe tocar.

8 comentários

    1. Não digo que não seja da minha preferência, mas escuto os caipiras de vez em quando. Não suporto os sertanejos de última geração e não os escuto, talvez até perca algo, mas não dá pra mim. Renato não canta bem, desafina, mas é o Renato de sonho e de pó. Continuem se cuidando, a rua pode esperar

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