In vel

“ Eu posso ficar invisível! Isso transcenderia a mágica.
E contemplei, dissipadas as dúvidas mais nebulosas, uma visão magnífica de tudo o que a invisibilidade poderia significar para um homem: o mistério, o poder, a liberdade.”

A frase lá em cima é do “O Homem Invisível”. Sempre que eu penso em um poder que gostaria de ter, esse ganha de longe. Não sei se seria sábio ao usá-lo, possivelmente não. Mas me divertiria muito, nossa. E teria que me acostumar a andar nú. Afinal, o invisível sou eu, não minha roupa. E estar peladão diante da Rainha Elizabeth pode ser libertador. Depois, só você saberia da minha presença, pela bagunça, queda de coisas, tapas injustos. Porque disso? Por que o beliscão leve na bunda de alguém seria culpa do sujeito logo atrás da pessoa beliscada, imagina o rolo. Eu sei, ser invisível é uma responsabilidade e tanto, mas posso ser digno depois? Agora vou ser tolo e assustar o Bolsonaro que vai pensar que ouve vozes dizendo que o Mourão gosta dele de um jeitinho diferente. Imagina a cara da Delamaris vendo uma goiaba correndo atras dela, rio de pensar. Teria acesso livres a segredos de estado, reuniões importantes, espaços vips, momentos solenes, assinatura de tratados e quer saber? Usaria boa parte do meu tempo vendo escritores fazendo seus originais, atores e atrizes ensaiando, observandoa Oprap preparando um ovo quente. Porque o invisível de tudo, o como se viaja, o alegre e o ranzinza de tudo que é feliz, tudo que existe de não visto parece mágico e poderoso. O incrível do que há de invisível é justamente poder se mostrar. É surpreendente a força de uma lembrança e o que é isso? É o invisível presente. Toca Romaria e Elis não está mais lá, mas posso vê-la, ela existe. Como resiste no perene do sempre a risada do pai, as canções da mãe, o barulho da fritura, o chip chip chip chip do esfregão no chão. Posso te ouvir agora mesmo, no invisível que nos pertence e não há nada nesse dia que seja mais resgatante. Posso te vestir de tantas formas, todas reais porque foram vividas e permanecem vívidas. Te abraço e te peço, rego o que começamos juntos há tantos (e invsíveis) anos. É diferente ser invisível e não ser visto, entendo agora. Como há muitas formas de contar que amamos, muitas linguagens para o entendimento, o norte, o sul e o centro são servem de nada se nos dizem apenas onde estamos. A função invisível das referências é que a gente conte pra gente para onde não vamos.

Tivesse o poder, um manto de invisibilidade, invadiria muitas igrejas de mil pastores. E cochicharia em seus ouvidos pouco cristãos que estavam escutando Jesus. E que lhes ordenava devolver todo dizimo, qualquer benfeitoria, favores indevidos, verdades escondidas, carros, casas e esperanças furtadas de um rebanho indefeso. E se não fizessem isso, coisas estranhas nasceriam em seus órgãos escondidos, teriam bafo horroroso ou pioraria muito o já existente. Entraria no quarto de Trump, ah isso seria bom. Riria um riso estranho, acenderia luzes e escreveria stop with wall onde fosse possível, gritando te enviaré a la pared ao mesmo tempo.

Crianças me veriam. Lembro de uma que andou de bicicleta comigo, verdadeira estrelinha. Elas sempre olham o que não vemos. São capazes de definições que para nós eram invisíveis até que nos mostram:

Acho que nós, adultos, tornamos invisíveis as crianças que fomos. O que é uma pena. São elas que fazem carrinhos de corrida, soltam pipas e dizem “não sei” quando as perguntam o que querem ser quando crescerem. Eu quero ser invisível e puxar tua saia. E te contar que estou bem, mas que às vezes é duro. Se você sentir um calorzinho, sou eu te abraçando. E os sinais de beijo, você vendo ou não havendo, sou eu que te deixo. Vamos fazer uma algazarra, gazeando aulas, guerra de água, chuva de sonhos, você não me verá, mas estou ali, juntinho. Abrindo portas (não se assuste), em frente da garagem para que entres sem risco, um cachorro imaginário chamado asterisco vai te lamber os sonhos e cantaremos juntos tua playlist preferida.

O invisível é impressionante, alma que amo. Se trata de um espaço multitarefa, salva o mundo toda vez que age. Agora vejo tudo que se movimenta em silêncio, os anjos da guarda, inspirações, ideias, encontros. Acalma, sabe? Falo de você, com quem converso e digo de modo indivisível o meu amor por quem és, minha gratidão pelas vindas tão plenificadas de ti e tua presença encantadora. Eu sei que me dirias que fazes por ti. O invisível disso é se trata de uma verdade inexata, mas que não importa. Ao teu homem invisível interessa marinar teus dias e servir o que te nutra sem as pressas das datas.

8 comentários

  1. Lindo e divertido texto. Fiquei imaginando algumas cenas.
    Eu tb seria o q eu queria, ser invisível. Qdo criança cheguei a sonhar como invisível num supermercado me lambuzando de doces. Kkkk Só criança mesmo.
    Sim, as crianças percebem tudo. Depois deixamos de ser criança e perceber tudo.

    Curtido por 1 pessoa

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