Cochilo

Me serena pensar no tempo e como vou ficando superlativo à medida em que ele me toma. Estou vivo há muitas luas e meus joelhos avisam quando vai chover, o que decreta o óbvio: estou ficando caquético, um pierro velhote, que gosta de dormir, ou de cochilar depois do almoço, antes do jantar ou durante a noite.

Tomara que isso seja um exagero da minha parte e que o momento gagá da minha existência leve ainda 3 ou 4 dias para chegar. O fato é que cada lugar que eu bati ou que me bateram dói ou range, sem exceção. Que sou assim seja, amém e oxalá. Tudo, ou quase tudo, me parece divino e maravilhoso. Levanto panos, pergunto à vida, me informo em mistérios mais velhos do que eu. Durmo o sono dos cães, tudo me desperta e devora. Tinha aquela a pressa de quem perdeu a hora e pensava ser possível colar tempos partidos. Não é, informo aos jovens. Essa é a boa notícia, não é? Reparou que o “não é” tem duas funções, inclusive contraditórias? A primeira, uma afirmação. A segunda, uma dúvida. Viver é um pouco isso, estar entre afirmações conclusivas e dúvidas existenciais. Entre uma coisa e outra, acontecem os dias em que ambas flertam, guerreiam, perdem e vencem, vão e se forjam, morrem e reencarnam em outros momentos ou de formas diferentes. Envelhecer não é deixar de perguntar e sim começar a encontrar respostas. Nesse sentido, é um reinício, quem sabe o reencontro com os aspectos todos que nos trouxeram exatamente onde estamos. Não é notícia ruim, não é? Aos poucos, vou percebendo que dualizar as experiências em boas ou péssimas é perder suas gradiências. Então concluo que há coisas que topo, outras não. Cenas que aceito. Seres que recebo. Coisas que vejo. E você, que amo. O tempo só faz apaziguar tudo que vivo, me tornando mais lento, mais atento, cercado de te amar por todos os lados. Jovem ainda, achava que não chegaria vivo aos 50. Cheguei vivo e pronto pra muito mais. Tanto que já passou muitos dias disso, sou um jovem com direito à vagas exclusivas, mas não uso. É coisa de velho.

Filho de aniversário, presente recebido: um roteiro que ele escreveu e vai dirigir. Pensa em alguém orgulhoso, pensa. O acho tão capaz, tão cheio de talento, tão falante, como fala, onde desliga? Como age em prol do que acredita, como é bom, como é lindo, como é brigão no melhor sentido, como se veste mal, como não se cuida, como pede cuidados, como se despede chegando, como se vai, ficando. Quero dar uma cadeira pequena de diretor, dessas lembranças que se põe na mesa e nunca se põem nas lembranças.

Tuas vindas nunca me passam desapercebidas. Contigo, nasceu o que tenho de melhor na vida. A saudade é ardida, faz cicatriz, mas de quase todas as formas estamos juntos. Isso não é tudo, mas é um bom tanto.

5 comentários em “Cochilo

  1. Parabéns ao filhote, pelo aniversário!! 🙂
    Mariel, é tu cantando “Enluarada”?
    Eu sempre olho o blog pelo celular, mas como estava com o note aberto, resolvi entrar e, de repente, vejo essa surpresa.
    Tu não se cansa de surpreender, hein?!!

    P.S./ Fotinho mais trossilda. É seu o doguinho?

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  2. Vamos cantar mais, vamos?
    Lembrei de alguém que fala assim.
    ☺️
    Fiz sapateado há muiiuito tempo… Agora só me resta continuar admirando a Ginger, o Fred e o Savion Glover.
    😅😅😅

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