Um dia

Um dia, isso é sagrado, você será motivo de praça, festa ou feriado. Não nome de rua, onde tudo passa. Uber, bike, ifood, tempo, táxi, vento ou por de sol. O fato de você existir vale um bosque, onde só se chega devagar, se fica em volta de árvores e se estende toalhas, em companhia de livros e gente que escolhem estar juntas. O teu dia terá um número específico, o ímpar da família formada e com o mundo crescendo em volta. Um dia de sanduíches, raízes, amores felizes. Não natal e presentes. Não namorados e presentes. Não de santo antonio ou marias cheias de graça. Serás um dia pagão, liso, fundo azul ou branco. Um cão correndo daqui pra lá e o tempo parando para espiar o que nunca passa e vive no sempre. Um dia que se demora e arruma, um pouco casar, um tanto nem pense isso.

Amar é saltar para algo maior do que você.

Um dia de cantos arredondados, feito à mão, inesperado e surpreendente, sol amigável e brisa de 9 por hora. Sem esperas, sem esperar, sem disfarces, bloqueios na pista, cheio de guardanapos, vazio de barulhos agudos, uma rede, um jeito de receber o vento sem que ele atrapalhe. Horas vivas, com panos auxiliares, papeis diversos, carimbos tatuadores, experiências do prazer sem culpa ou sofrimento, um dia intenso, inútil para a contabilidade, afeito a despensamentos, druidas florais, sonos, bocejos e sereno, além de uma certa quietude que não tem motivo para obstrução, parágrafos únicos, explicações, notas de repúdio ou discordâncias ocas. Algo indeciso, que não carece de nada, bom de estar lado a lado sendo esse o desejo, perto de beijos e quindim.

Onde você está, teu coração faz parte da paisagem

Precisamos de feriados feitos daquilo que amamos e onde somos simplesmente o que somos. Ali estaremos distraídos e conversantes. Esquecidos de invernos, aquecidos na alma, gratos pelo perene sem a carranca das rotinas. Cientes de que elas são assim porque as deixaram ali, desprovidas da magia que lhes abrilhantariam, pequenas destrezas, olhares passantes, cores, bilhetes e pontos para linguas e suas linguagens. Uma delicadeza, uma piada, um riso, a louça guardada, a cama desarrumada, biscoito de forno, bom dia, feriado. Uma brecha amanhecida, uma fresta solar, um portal multiversal onde se pode entrar porque a vinda é franca, a temperatura é boa e ficar faz bem. Acrescente o fato que a Maria Gadú vai cantar pra gente, junto com Milton e, dando um tempo, Erick Clapton. Machado irá, tem tanta coisa a dizer, acompanhado de Pessoa e Violeta Parra.

As vindas não passam desapercebidas. Ao mesmo tempo, tudo é presente, presença e espaço de conversa

Um dia, seremos feriado. Lembrados pelos resistentes do amor, o calor que fabrica, a conexão que oferece, sua expansão, o big bang, o tempo que atinge, o nada que finge ou joga, o quanto pinça o que atrapalha. Que se torna possível como eras, subindo muros, embelezando o que seriam apenas momento, cimentos, tijolo, decoração, impedimentos. No meio de tantos sós, de tantos sozinhos, de tanto que perece perfeito, irretocável, que estão longe juntos, ausentes in loco. Será feriado porque existimos em vida e fizemos do real uma nobreza, uma realeza, a possibilidade de uma outra realidade, um nicho, um suspiro, um feriado chamado dia do enfim nós.

6 comentários

  1. Mariel, definitivamente, tenho q deixar de seguir teu blog. 🤭🤭🤭 Como se não bastasse ter que chover no molhado te elogiando por conta dos carinhos todos que pulveriza diariamente, ainda me obriga a imaginar as cenas acima descritas como se fizessem parte de um contexto da J. Austen.
    Ouvi até a narração com voz aveludada.
    Sua sorte é não haver ninguém chamado Darcy no contexto, hahahahahah… ☺️☺️☺️
    Me sinto uma ogrinha perto da sua arte. Não conseguiria fazer igual.
    Beijoooca

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    1. Sempre é bom receber motivação, quem diz que não gosta bom sujeito não é. Fico pensando que, sendo brasileiro, consigo viver do que escrevo e crio, é uma sorte e tanto. Acho que é isso, sorte, porque não se trata de talento ou esforço especialmente empregado. Fazer o que se gosta é um privilegio emocionante, sabe? Então, ao me levantar não sei o que vou fazer, mas sei que vou criar algo para mim, para uma empresa, para alguém, escrevendo, olha, escrevendo. É assim que falo (ou também assim) com a alma que amo, com a vida que me segue, com as coisas que me cabem. Então, retornando, receber um comentário carinhoso desses é um presente de amigo pra amigo. Te sou grato, assim, de verdade.

      Curtido por 2 pessoas

      1. Dessa vez, preciso discordar, não acredito que seja sorte não. Penso que seja mais autoconhecimento e decisão, resultando nessa conexão.
        Ano passado, num grupo de pesquisa que frequentava, deparei-me com uma tese cujo autor também emanava essa fluência.
        Resultado, levei muitos dias lendo, parando pra chorar, respirar, voltar… 😅
        Literalmente deglutindo cada palavra que trazia suas verdades e falavam ao coração.
        Jogue duro, querido, precisamos de seus escritos, e nesse momento então, mais do que nunca. 🙏🏼🙏🏼

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