Espera

Existem os tristes por natureza? Ou o que existe são almas que, tocando certas friezas, permutam com aquilo um sentir-se vivas, como os malabaristas dos sinais vermelhos e os pedintes de rua em geral? No tom da voz, mesmo no riso que oferecem enquanto estendem a mão, há uma desavença no movimento do corpo, no gesto, na aproximação. Não sinto culpas quanto a isso, anda que exista uma parte minha no cenário instalado. Todo excesso de pobreza surge, justamente, de um sistema do qual faço parte e que é, sim, perverso. Sempre me dizem que o socialismo não deu certo em lugar nenhum. Poderia afirmar o mesmo sobre qualquer pais capitalista. Mas, sinceramente, a quem estamos enganando? As comparações são de uma infantilidade quase fofa, não fossem chatas, servindo não para nos fazer refletir e mudar, mas para que tenhamos razão. “Ter razão” é um conceito (e um objetivo) meio zarolho, além de raso, é quase torcer para o Grêmio. Porque alguém quer ter razão? Basicamente, para “vencer, é um game, uma partida. Aos perdedores, as batatas. Aos vencedores, as facas. A glória azeda de “estar certo”. Não porque algo é bom em si, mas pelo semi-absurdo idiotizante daquilo homologar um modo de ver, viver ou pensar. É por isso que flertamos com o nazismo, com a barbárie, com a violência, com a corrupção ou com a idolatria. De algum modo, de certas formas, em determinados ângulos, coisa parecida com aquilo (senão aquilo mesmo) nos representa. Como podem ser injustificadas (ou esteticamente precárias) as ações de apoio, partimos para a comparação que reduz lógicas, abandona gradiencias e fere o contrário no lugar de acolhe-lo. Assim o simplismo rotula pensamentos, relações, desejos, direitos e sonhos. Feito esse trabalho sujo, ficamos à vontade para fazer gestos de arminha, dizer que só é preciso um sargento e um Jeep para fechar o Congresso, menosprezar cores, ignorar a ciência ou precarizar sentimentos, os reduzindo. É ali que nascem as décadas perdidas, feita de esfomeados patrocinados pela Adidas. O burlesco e o caricato não deveriam se conhecer, nem ter filhos ou dar entrevistas. Deveriam apenas ter a grandeza de passar. Mas de irem-se de nós. Precisaríamos não ser colo bom, não acolhendo em casa o que há de tosco no mundo. Nem escolhe-los escolhe-los, ou aos seus valores e truques pequenos. Acontece que os reconhecemos, são partes ativas e operantes de um pensamento claudicante entre o ser e o não ser e que está acampado em nós.

Tenho a mesma esperança de Chaplin: verei o ser triunfar. Mas não à custa do desaparecimento do outro, dos seus argumentos, da sua existência e da essência daquilo que é. Não é um juízo final, nem a história do bem e do mal. É algo que acontece dentro, uma escolha lenta, mas profunda e -imagino- inevitável. Exigirá espera e paciência, algum perdão e certos desapegos. O que penso aqui é o que há de minha autoria em tudo que vejo ao meu redor e que não gosto, critico ou desprezo. A alma que amo me faz uma melhor pessoa por uma porção de motivos. Ao seu lado, algo me impulsiona em direção a uma versão incomparável de felicidade, a uma porção generosa de mim para todo o entorno que me rodeia. É preciso encontrar esse caminho para além de mim e dela. No prédio, na rua, na cidade, no estado, no pais, no continente e no mundo, precisamos urgentemente da humanidade que deixamos de lado para ter razão. Uma reforma que começa no bom dia e não finda no boa noite. Pode levar anos para ser encontrada, mas vale a busca e cada dia de espera.

2 comentários em “Espera

  1. Talvez faltam referências positivas. Idolatrar políticos como se fossem heroís, ou sistemas como se fossem a solução. Talvez as almas tristes não estejam sem esperança, talvez tenham perdido o véu que tapa a visão. Talvez falte amor, não no sentido lúdico, mas no sentido prático. Talvez falte a mim também. Belo texto, me fez refletir.

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