Madá

Minha vó Madalena (olha que nome lindo) foi a única que conheci. Tenho uma vaga lembrança de um avô de apelido Minho. Mas Madá, uma paraguaia divertida, essa indiazinha que falava Guarani, essa pequeneza que ria e quando ria escondia o riso com a mão, essa vó que mascava fumo, ela ficou em mim. Nos encontramos poucas vezes, duas ou três no máximo. Ninguém entendia direito o que ela falava, na verdade um dialeto. Minha mãe, claro, se comunicava naquela linguagem estranha. Eu conversava de olho vidrado nela. Perguntava coisas, nomes de alimentos, por exemplo. No meio das perguntas, feitas em português ou castelhano, colocava palavrões no meio, queria aprender xingamentos em guarani, tipo seu bunda, pinto torto, cara de pum. Ela não entendia, dava um risinho tímido e me pedia mais fumo, com gestos. Adorava aquela coisinha miúda, de andar lento mas decidido. Havia nela uma calma humorada, um sorriso pronto pra brotar e comentários que não entendi nunca. Soube depois que a minha anja adorava impropérios, os dizia com cara simpática, mas estava mesmo era lascando alguém. Fazia aquilo por diversão, quem entende guarani no partenon, zona de guerra em porto alegre? Ninguém, claro.

Madalena passou duas temporadas em casa, pelo menos é o que lembro. Você ia gostar dela e o amar, (hayhu) certamente seria correspondido. Da comida que fazia, talvez a Chipa fosse mais aceitável, mas eu experimentaria o reviro, uma coisa que vai ovo, farinha, sal, água e óleo. É para fortes, tem um cheiro estupendo e come-se com café preto adoçado com melado. Falei que era algo. Mas pode ser açúcar, sua fraquinha (saiquê).

Numa dessas vindas, Madá (que gostava de terminar comentários com um “maquevá”, de significado dúbio) ficou resfriada. Pavor na casa, já que uma gripe pode ser fatal para quem não tem contato com o virus. Febre altíssima, lá vem a mãe. Discussão (com muitos maquevás ao final) tensa. Toma ou não toma o Melhoral Infantil? Nem eu, uma criança, tomava aquilo para o que quer que fosse, maquevá. Argentina 1 x Paraguai 0. Negociação feita (uma sessão de fumo a mais no dia seguinte), o Melhoral foi aceito. Em uma hora não havia mais sinal de nada e a vida seguia seu rumo.

Na última vez que a vi, ela me pareceu cansadinha. Estava distante, os olhos sempre curiosos estavam se rendendo, junto com aquela vida. Não tristeza ou medo, acho mesmo que havia uma certa impaciência para ir-se. Não estava mais ali, de um todo. Ria, prestava atenção com um jeito maroto, cabelo longo, sempre impecavelmente trançado. Tiramos uma foto juntos. Ela pediu para que eu

Na última vez que a vi, ela me pareceu cansadinha. Estava distante, os olhos sempre curiosos estavam se rendendo, junto com aquela vida. Não tristeza ou medo, acho mesmo que havia uma certa impaciência para ir-se. Não estava mais ali, de um todo. Ria, prestava atenção com um jeito maroto, cabelo longo, sempre impecavelmente trançado. Tiramos uma foto juntos. Ela pediu para que minha mãe escrevesse algo ditado, no verso da foto. Mais ou menos isso:

Para Mariel, mi nieto inolbidable, dejo mi corazõn lleno de abrazo y amor.

Talvez venha dela meus abraços. Quem sabe tenha herdado um coração a mais e foi ele que não parou, quando eu pensei em partir. De qualquer forma, aquela pessoinha que eu fui não entristeceu quando ela se foi. Senti saudade, claro. E lamentei. Mas tristeza, não. O espaço criado não comportava esse sentimento, todo ocupado por muitas e boas gargalhadas. Comentei com a mãe que sentia o fato dela não compreender o que eu diza. – Como assim? Me perguntou. – A vó Madá não falava português, ela não me entendia. A mãe caiu no riso. Madalena falava e bem o português, mas mantinha isso em segredo. Assim, se assegurava de não ser enganada por brasileiros. Ou de ter que ensinar palavrões em Tupi Guarany para o neto.

Dorme bem, alma que amo. Que especial estar com você. Não, nós não vamos para o Paraguai.

11 comentários

  1. Mas que coisa mais linda! Eu só tive uma avó também, que era o oposto da sua. Também já escrevi sobre ela e ela preencheu a minha vida inteira. Sou parte eu, parte ela. Fiquei com vontade de conhecer sua pequena, mas acho que ” conhecer” você é o suficiente para conhecer o melhor dela.

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      1. A minha avó chamava-se Ruth. Era uma criatura urbana, viajou o mundo. Muito vaidosa, enxergava o mundo de fora pra dentro. Foi ela quem me ensinou tudo o que sei sobre Arte e Cultura de outros países. Eu sou completamente diferente dela, mas ao mesmo tempo igual. Acho que o ponto crucial da nossa diferença é que ela olhava o mundo de fora pra dentro e eu olho de dentro pra fora.

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  2. Texto lindo. Madá incrível! Tive uma Madá na infância: vó Maria. Cabocla baixinha e sempre sorridente que fazia todos os seus afazeres domésticos assoviando. Alma de criança que deixou uma saudade boa. Pra vida toda. Já escrevi sobre ela. Abraço amigo!

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