Coisas que não disse ainda

Burocratizamos as coisas. É algo tão incrustado em nós que tornamos cultura coletiva e bússola individual. Ganhou o nome de rotina, algo cuja força condena criativos a robotizar sua curiosidade, exila amantes da surpresa que é amar, estabelece métricas e ordenamentos que amputam o novo, quebram a curiosidade e impedem o espontâneo. Você se deu conta que esse é um dos mais eficazes truques usados pela publicidade? Chegou o Iphone 2021G Plus Metro Golden Wow. É o novo, atualíssimo e ultra necessário e exclusivo sistema plinc, que transforma seus antigos arquivos ploc em coisas do passado. Esse tempo, o passado, é difuso e nebuloso, além de obviamente exigir mudanças para qual? Para o amanhã, onde mora o futuro e, claro, a felicidade. Veríssimo, o filho, tem uma frase sensacional para uma camiseta. Está em uma de suas crônicas e diz exatamente isso:

O hoje é o ontem de amanhã.

Essa é conclusão a que se chega diante de toda a rotina. Seria um motocontínuo repetitivo, incapaz de coloridos e que fala cada vez mais alto que o hoje é ontem de amanhã, o ontem é o hoje de amanhã, o ontem é o hoje de amanhã. Um mantra que nos transformaria em esposas, maridos, profissionais, amigos, empresas, consumidores e gente zumbis. O responsável por isso quem é? A rotina, claro. Se não fosse por ela, poxa, aí sim, nosso casamento, namoro, emprego, trabalho, projeto seriam iluminados e a vida riria o riso dos apaixonados.

E se fôssemos apaixonados não pelo novo, mas pela rotina, talvez o que experimentamos como realidade fosse diferente.. Porque mesmo que sejamos 007 ou Potter, ou outro mega herói qualquer, é no dia a dia que nos conformamos ou resistimos. É na repetição que avançamos ou desistimos. Por isso, queria te dizer, tantos anos depois de te ver, que é sempre a primeira vez que te vejo. Que após te conhecer, não te conheço. Que não te sei, nem poderia, mesmo que você dissesse. Que não te tenho. Que não te salvarei de nada porque seria pretensioso imaginar que algo ou alguém sabe mais e melhor quem és e onde desejas estar. O carinho pode ser uma rotina e a descoberta de novas formas de oferecer afeto também. Quero te dizer que não está permitida a desatenção vinda da falsa segurança costurada pelo tempo. O interesse capaz de perceber num fio de voz um cansaço ou a alegria por algo se constrói na rotina. Não há apresentação perfeita sem repetidos ensaios. Nada é impecável porque nascer irretocável, mas porque se propõe a refazer-se e a expandir-se: um quadro não mostra todo o artista.

Queria te dizer que se agora é a única chance existente, vamos tecer tantos agora sejam necessários para que o nosso agora seja sempre. Porque é na rotina detalhada da tecelagem, no sig zag das costuras, é no trabalho formado de calos e inspiração que surgem as estampas inesquecíveis. Quero te dizer que foi na rotina de te conhecer que aprendi minha melhor parte.

11 comentários

  1. Entendo os benefícios da rotina, mas sempre quando ela está relacionada a alguma relação eu me assusto. Geralmente percebo que estou anestesiada pela rotina, sem sentir o que estou vivendo. E aí meu impulso é fugir da rotina. Bem, sei lá se o problema é a rotina mesmo. Um beijo

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    1. A anestesia que a rotina pode causar é real. Ficamos normatizados por uma lente à prova de belezas que de escondem no dia a dia. O maior perigo disso é a desistência, o que torna tudo mais árido.

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  2. I think routines work depending on the kind of person you are. Some people who like their external worlds organized like it, while the rest do not. In a relationship, routines can serve as an anchor, but nothing beats being present, spontaneous, and connected in the now with your partner.

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  3. Rotina é o berço de tudo que somos e, contínua e ininterruptamente, nos tornamos. Nas relações, cansa e soa como desculpa para inação. Neste momento, é um elemento vital, de reafirmação do que há de sólido e que não foi atingido pelo desmanche de quase tudo.

    Sou da rotina – a ponto de já ter deprimido na interrupção repentina dela – mas fujo quando me aprisiona a um risco desconhecido.

    Uma pena, uma perda talvez.

    Belo texto, Mariel.

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