Não é tudo, mas é muita coisa

Quem faz o que eu faço precisa ter um compromisso com o que é preciso. É essencial, por exemplo, que a precisão seja entendida em uma de suas funções, a exatidão, nem mais nem menos, precisamente aquilo. Drummond de Andrade disse isso sobre o seu ofício:

Escrever é cortar palavras “.

Mas nem tudo é concisão, corte e certeza. Viver é mais Odisséia e menos Aurélio, há gradiências importantes. Na escala dos encontros com o mundo, qual é a a régua aplicável, o mínimo e o máximo multiplicador comum? Em um recorte da existência, o outro não poderia significar o ápice de um desejo? Não representar tudo o que se quer da vida, o que seria um fardo. Mas ser tudo o que se quer daquele aspecto da vida, um ângulo do sonho, não o sonho todo. Acho que somos feitos de outros, temos outros por dentro. Outro amores, outro colegas de trabalho. Outro motorista de Uber, outro marido. Outro mulher. Outro jogador do Uberlândia Futebol Clube. Outro filho. Outro embaixador na Índia. Outro artista preferido. Outro autor da hora. Outro filme que toca, ou cena que diz, escrita por outro desconhecido e interpretada por outro famoso. Como a Terra, que é quase toda água e mesmo assim chamamos de Terra, somos feitos do que nos causam e do que causamos, há outros elementos projetados, necessidades, sonhos, pontos de observação do mundo, diferenças, uns e outros.

Nessas conexões, há lapsos de vontade, desníveis no tempo, diversidade, cultura, essência. E se um encontro pode se transformar em jornalismo, ciência, conversa, design, literatura, amizade, filme, ideia, movimento, filho, carreira, vocação ou caminhada, porque não poderia ser romance? E sendo isso também, não diria que o outro não pode ser tudo. Isso o aprisiona ao que ele não pode ser e o outro -qualquer que seja- existe na grandiosidade da sua existência, expressão e consciência, inclusive no que nos escapa em compreensão ou concordância. Talvez a gente não queira ter uma determinada importância na jornada do outro. Ou não possa. Ou existam necessidades maiores do que aquela. Acho que você já faz isso, eu preciso treinar, mas cada vez mais tento ver nas vidas que se cruzam com a minha as especificidades que as tornam o que são. Deixo claro que não se trata aqui de olhar o outro, mas a mim mesmo, às respostas que dou às perguntas que faço.

Conviver é um equilíbrio em construção. Retira-se o excesso da pedra e surge o que ela veio trazer. É bonito de dizer, mas também significa pó, tempo empregado, calo, poeira, nem sempre fica como se quer ou ganha as formas que imaginamos. Certo ou torto, o resultado nunca é singular, mas sempre no plural. Nossos encontros o mundo são esculturas à muitas mãos e se nota que são pela medição que vai do grotesco ao belo, ainda que haja coisa e outra ao longo do processo. Não há como ou porque escapar do outro, desde sempre estivemos entrelaçados. A diferença é que aos poucos vamos traduzindo quanto do outro queremos receber e quanto conseguimos dar. Trata-se de um processo artesanal, exige tato e contato, causa alguma frustração, doses de alegria e entendimento, saudade e escolhas. Seja para casar ou parir, orientar ou pedir, negar ou consentir, o outro tem parte de você e você não seria igual sem essa presença. Todo encontro apresenta em si a semente do que seremos depois desse acontecimento. O que inspiramos uns nos outros importa porque somos isso, um recomeçar interminável. Você é o meu melhor outro, alma que amo. Teu gesto me afeta e teu afeto me faz bem.

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