Começos

O Candango foi produzido pela Vemag, sob licença da alemã DKW, entre 58 e 63.

Comecei a jogar bola bem cedo, num campinho ao lado da Igreja São José. Trata-se de uma construção linda, toda em tijolo à vista e sino de som doce. Gostava de ficar ali, era um espaço enorme e silente. Tinha imagens de um Jesus sofrido, o que reforça minha crença que o catolicismo foi todo construído na culpa e na vida transformada em calvário. Talvez por isso o campinho fosse puro pavor para os jogadores. Roseta aos montes, muita urtiga, terra com pedregulho e grama dura, bem dura. Foi ali que surgi para a glória universal futebolística.

Comecei a tocar violão assim que vi uma prima, cujo interesse pelo instrumento era nítido. Fingi que sabia e que poderia lhe ensinar, caso ganhasse umas bicocas. Ganhei uns cascudos assim que fui desmascarado. Um dia realmente me tornei músico profissional, mas tive uma carreira meteórica. Tão rápida que praticamente ninguém percebeu a passagem. E não, mãe, você não conta.

Comecei a escrever por permuta. Eu fazia boas redações e, em troca, não batiam em mim. A fama de bom com as palavras correu pelo Champagnat, o colégio onde eu tinha uma bolsa integral de atleta. Conquistei uns 15 clientes, se é que me entende. Isso e mais os treinos diários não me deixavam com tempo pra nada. Não reprovei em matéria nenhuma, fui titular do time e resolvi sair porque me enchiam muito por ser pobre. Resolução: ir para o Colégio Estadual São José e deu tudo bem errado. Era um lugar onde não tive chance no time, não escrevia pra ninguém e me perseguiam por ser rico.

Lami será sempre a minha praia preferida no mundo. Foi ali que pesquei meu primeiro peixe. Nadei pelado. Perdi Yara. A prainha ficava a 50 minutos de carro. Meu pai tinha um Candango, não era exatamente um carro. Estava mais para um jacaré com motor, se bem que o anfíbio andasse mais rápido e fosse mais bonito. Em dias de chuva (tinha medo de chuva forte), eu entrava no porão de uma casinha que tínhamos, tipo de frente para o Rio Guaíba. Ficava ali, olhando pela fresta as águas se agitarem. Meu pai usava um boné e cantava bem. Minha mãe, cachecol, tinha uma letra linda e também cantava. Manoel (o mais velho) era ótimo goleiro, um homem cheio de disciplina e bondade. Onofre, um bom vivant ingênuo e engraçado. Zico, um marinheiro para muitos mares agitados. Ariel, o poeta. Alcíone, a pintora. Mariel, o escritor. Lívia, atriz. Pedro, o forte. Márcio, o flexível. Isabel, a mãe. Eduardo, observador. Você, o amor entregue. O olhar preciso. A ideia surpresa consigo mesma. A culpa aceita. Confiança, desejo, amor, um tripé temido. O materno compreendido. Um cansaço do mesmo. O reconhecimento do outro. O julgamento severo. A conversa instantânea. O desejo do pertencimento. Poderia seguir falando de você por horas. É apaixonante a alma que amo, a moça que me mostrou o começo do amor.

14 comentários em “Começos

  1. “reforça minha crença que o catolicismo foi todo construído na culpa e na vida transformada em calvário.” Não tenho dúvidas, Mariel. E não era preciso ter sido assim.
    Esse foi o primeiro carro da minha família. Era a minha paixão da infância. Chorei tanto qdo o venderam. Nós chamavamos de “Rural”. Será outro modelo?!
    Tão bom esses relatos de infância. Gosto de docinho.

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    1. Rural é uma lenda clássica. Esta anos luz à frente do Candango pela beleza, conforto e design. Ambos foram desenhados por um lenhador faminto e com pressa, mas quem projetou a Rural tinha um baita talento. A vida é muito mais do que um.calvàrio,muito mais

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  2. Mariel, Mariel, Mariel. Nunca, nunca, deixarei que a burocracia da Corte vos tire o honroso título de Dom Mariel Fernandes. Poeta, trovador e soldado da fortuna.
    Emissário Del-Rey em nossas províncias do Sul. Tranquilo fique, lutarei contra os papalvos que, homessa!, tentarem tisnar vossa fama, cantada em prosa e verso. Lindo texto. Quando crescer, farei igualzim. Abração.

    Curtido por 1 pessoa

  3. Mariel, Mariel, Mariel. Nunca, nunca, deixarei que a burocracia da Corte vos tire o honroso título de Dom Mariel Fernandes. Poeta, trovador e soldado da fortuna.
    Emissário Del-Rey em nossas províncias do Sul. Tranquilo fique, lutarei contra os papalvos que, homessa!, tentarem tisnar vossa fama, cantada em prosa e verso. Lindo texto. Quando crescer, farei igualzim. Abração.

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