O dia

Sempre fui da rua, gosto dessa origem, embora não faça dela um destino. Ao lado da alma que amo, descubro tanta coisa que não sei sobre tanta coisa que não sabia, além de uma lista enorme a respeito da enormidade de tudo que desconheço. São coisas de lugares diferentes das ruas, inclusive aí o amor, seu modo de ouvir e as formas de demonstrar ou de renunciar a afetos. Não são melhores ou piores as visões, só projetam outros lugares, outros saberes, ângulos inusitados da vida e das mil formas de viver.

A rua tem a rua como referência. Os postes com cartazes de gente que traz o amor de volta. O cachorro com 3 pernas, gatos sem dono. Os moradores de lá, seus nome sem importância, suas invisibilidades. Os bêbados e as regras submersas das praças. As esquinas escuras que estrelinha deve evitar. As flores de rua e seus estardalhaços mega cor. São brancas esfusiantes. São amarelas cheguei. São roxas latinitude. É vermelho uau. É verde Porche, mas essa eu só citei por exibisionismo barato. Aprendi há poucas horas que se trata da cor oficial da marca. Meninos de rua têm a rua nos cheiros, nos boeiros que os perseguem, nos sonhos que olham de longe, nas fomes de tudo, no jeito que caminham, nas pernas em alerta de fuga. Rua é improviso, é repente, não há tempo para poesia ou ensaio. É um grande pôquer: se você não sabe quem é o pato, o pato é você. Tem pega ladrão, malandros diversos, bilhete premiado, rua é quebrada, jinga, porrada, o ônibus que chega, o sinal que abre, o tempo que fecha. Como em florestas intocadas, as ruas têm seus próprios barulhos,  avisam o que está para acontecer e o que ocorrerá de madrugada.

Sereno, não calmo, vejo que se aproxima mais um encontro meu comigo mesmo. Parece egocentrismo, pode até ser. Ao mesmo tempo, um claríssimo “preciso estar lá” mostra o que é necessário e o que se torna dispensável. Regra de rua: saiba a hora de ir e faça isso um pouco antes. Não agir assim leva a despedidas estranhas, esperas frustrantes e distâncias geladas.

Fico surpreso, ou frustrado ou magoado com o que tanto que poderiam ser certas coisas, vendo aqui da minha  rua o que acontece. Não compreendo alguns gestos e, por isso, os julgo com lentes pessoais, surgidas quem sabe de um desejo ancestral de pertencimento. Não é uma medida justa, certamente. Mas da rua de onde venho, se aproveita toda e qualquer oportunidade de ser quem se é e estar com quem se quer.

Isso me lembra a vez que falei com o Mário Sérgio, um jogador fantástico. Depois, ele seria comentarista esportivo dos bons. Estava no último vôo da Chapecoense. Na sua época de jogador, quis saber como ele se sentia sendo convocado para a seleção. Uma pergunta besta e protocolar. “Sinto que jogo bem”, disse de pronto e sorriu um riso aberto, quase um abraço dental. Alguém notou que ele estava com uma chuteira surrada e perguntou se iria comprar uma novinha, de marca, melhor. “Pra minha bolinha, essa tá ótima”, respondeu.

Mário foi reserva na seleção. Ficava no banco, ele e o seu sorriso largo. Eu não achava que seu lugar era ali, mas em campo, causando dores lombares em seus marcadores. Ele parecia conformado, risonho e feliz.  Faltou marra, ação, chuteira de marca? Talvez se tivesse insistido mais, reclamado, se insurgido, dito, mostrado, fugido. Mas não. Reagia calmo e prudente, sempre.

Acho cômodo e quase covarde quem diz que faria isso ou aquilo nessa ou naquela situação. Fora da experiência em si, todo mundo é campeão. Damos a resposta certa, parimos como ninguém, sabemos exatamente o caminho, não erramos, não caimos de escadas, não esperamos, queremos, desejamos e amamos certinho,sem deslizes, não somos nem mais nem menos. Somos exatos, rápidos, tomamos providências cabíveis, acordamos razoáveis e falamos sobre os Dois Papas. E se a impressão que damos é de certa indiferença sobre tomar cafe, jantar ou sorvetar de tarde. Se nos escondemos em amenidades quando a alma queima, tudo isso causa perdas, não sei se necessárias.

O fato é que algumas mudanças doem mais do que outras, sendo ou não sendo você de rua, o que pressupõe uma certa casca. O que elas determinam, para onde nos levarão, quais comprometimentos geram, tudo que se altera sem desejo real tem riscos e traz tristezas. O adeus dito, o final antecipado, um ciclo que finda, os cancelamentos os reinicios, as escolhas feitas. Quantos pratos girando ao mesmo tempo, não? Mas viver é na vida que se dá. E é nas ruas dos dias que se resolvem

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