Ding Ding

O primeiro soco assusta muito e dói. Depois, só dói e assusta. Na sequência, a reação natural some, há uma conformidade, o entendimento que o nocaute virá.  Você puxa, mas o ar não vem. Preciso fugir dessa direita, você pensa. Mas a pancada entra como que dizendo “se não for hoje, é amanhã”. Preciso fugir dessa esquerda, você conclui, junto com outras frases cortantes. Quero comprar um casal de pinguins, você diz para um vendedor de salsas cubanas, já zonzo. É o sinal que você não raciocina mais, o coração vira uma azeitona e o endereço de casa é um reino longe, longe daqui.

Então não se sabe mais porque se diz o que se diz ou se faz o que se faz. Há braços defendendo o corpo, mas alma, quem entende? Abraços são cancelados, a exaustão tira o chão do lugar, a gravidade te convida e o contato do teu queixo com a luva que argumenta tira tudo da lógica e do lugar. Você quer descansar, procura o seu lado do ringue para cair em paz.

Tudo pesa tanto, será mesmo exagero? Não pode ser exagero, os cortes não são pequenos. O seu famoso jab está tocando jazz em algum bar que fica na esquina entre o você-passado com a você-cancelado. O direto de direita não resolve e o monstrengo na sua frente saltita como se tivesse 17 anos. Ele tem 17 anos, não é possível. O cansaço te faz lembrar da ternura não reconhecida. O suor te recorda que você falhou e agora alguém que você ama está só e sem experiência num lugar onde não deveria estar. Ainda nas cordas, você tenta se convencer que avisou sim, que convidou sim, mas não sabe ao certo, é confuso.

Enquanto uma saraivada de golpes entra no rosto, fígado, costelas e rim, a esperança ganha a forma de gongo. Plaft, zupt, scrum. Tudo acaba ali, para recomeçar em dia sem prazo? Qual o prazo desses dias que não terminam? Enquanto isso, a surra não tem fim, a campainha não toca, as pernas bambeiam, o medo jorra e os olhos ficam inchados. Deitar ali seria um alivio, mas não há alivio. Há, mas não você não tem acesso. Não dá pra ligar, é preciso ficar ali e você sabe que agora é uma questão de tempo. As pancadas aumentam e parece que você escuta “preciso ficar com ele”. Algo jorra e você entende “quero ficar com ele”. Alguma coisa na perna não obedece mais e você ouve “vou ficar com ele”. Agora o barulho é dentro da sua alma, não há corpo disponível e mais uma cerveja seria bom. Então tudo fica escuro. A espinha se curva, o joelho não suporta e o que dói de verdade é não ter ficado de pé só mais um pouquinho, ver mais um pouquinho, escutar mais um pouquinho. Mas o cansaço bate. A realidade bate. A saudade bate. A vida bate. É tudo peso pesado. É tudo tão sincopado e a lona está ali, acolhedora e confortável. A toalha corta o ar pesado. Faz uma curva imaginária. Nos encontramos no tablado, digo para a toalha que voa.  Quero essa toalha, parece tão limpinha. Então o gongo toca. Dormir tem suas vantagens.

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