Caçador

Confesso, caço pedras. Também capturo luares, mas depois solto. Com o sol faço o mesmo. Mas pedras, ah elas são tão bonitas e cheias de curvinhas. Pedras são boas e sabem respirar dentro dos rios. Tem a de San José, perto do nada, em Atacama, a pedra enluarada do deserto feito de pedrinhas de sal. Enquanto caminho ou ando de bicicleta, vigio as de rua, que se misturam com pedregulhos, pó e areia vira-lata. Nessa categoria, algumas são poesia concreta. Têm cores vindas do pó, grama, insistência solar, chuva de verão, cheiros gerais, óleo diesel, terra, folha. Nasceram para levar chutes, se transformam em gols no futebol de rua, têm formatos diversos, são lembrança e peso de papel. Tijolo não é pedra. Pedra é pedra, você põe pra segurar a porta, serve de calço para mesas pernetas, pedra é o tempo concentrado, dão rua boa, que eu mandava ladrilhar, se fosse minha, assim como pertenço. Pedras se desmancham, sólidas que são. É o tempo, distraido e, só mesmo tempo, concentrado, vedado, imóvel. Se a olhada, sou eu te rindo um riso calmo, serenado e franco.  ***

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