Realce

Quando li, me impressionou mais porque concordo tão plenamente com o afirmado que me perguntei como não poderia, eu mesmo, já ter afirmado plenamente o dito por outro que não eu. É algo simples e cheio de poder, olha:

A realidade se dá na presença do outro

O outro legitimaria o que você faz, tornando real o feito, o dito, o gestualizado e mesmo o o que quer que tenha sido calado. Não fosse assim, é uma lógica sofista, restaria apenas a nossa versão do ocorrido. Uma peça única e oca, já que não traz consigo um testemunho crível daquilo que atende pela alcunha de realidade dos fatos. Não se consegue provar porque prova é algo demonstrável, o veredito final de algo que há ou houve. Isso só acontece no universo das relações rotineiras. Ela foi ao banheiro, ele voltou do trabalho, comemos um bife macio, aquilo é um carro. Tudo isso pode ser descrito, mas só será consumado na confirmação de alguém que estivesse ao seu lado. Sim, realmente ela voltou do trabalho, ele foi ao banheiro e aquilo é um carro na forma de um bife. Mesmo que haja, e volta e meia há, um erro na tradução da vida, a dúvida fica por conta da transcrição, não se o que está sendo observado realmente é um ponto de observação, não uma ilusão ou mentira.

O outro, então, teria mais do que o sentido afetivo em nossas existências. Ele confirma o choro, ratifica a saudade, acolhe ou repulsa uma opinião, cria (ou não cria) filhos, correspondente ou nos deixa na mão, faz parte da rotina ou surge às vezes. Independente do que aconteça ou seja, é na presença deles (os outros) que podemos ter uma vaga esperança de existir. Sem isso, teríamos dúvidas consideráveis a decifrar, coisas que nos devorariam, levando à extinção cenas, falas, lembranças, episódios, gestos, olhares, roçadinhas de braço, indicações ínfimas de pertencimento. Nos construimos na gentileza ou na severidade do olhar alheio. Medo ou confiança farão parte do nosso repertório ao longo da vida. Porque? Por que outros cheios de pressas, pressões, acenos, desejos inconfessáveis e conta na Caixa Econômica nos confirmaram ou e reafirmam a inexistência da realidade afetiva, já que é no afeto (ou em sua falta) que buscaremos o combustível que alimenta nossas relações.

Por anos odiei o inglês achando que odiava o idioma. Mas não, eu tinha raiva de um professor de inglês humilhante. Nem era do professor a raiva, mas da humilhação a raiva sentida. O jeito que você dirige, o modo que olha para a vida, o que te causa atração ou repulsa, tudo estaria relacionado às experiências vividas e à confirmação (ou negação) que o outro nos entrega ou nega diante daquela circunstância.

O que sei disso, fico pensando. Nada, dou de ombros. Estou cada dia mais satisfeito em não saber nada. É a benção lúcida da ignorância? Acho que não. É o reconhecimento do outro luxuoso que és. No teu olhar gentil, me construí e os teus gestos me constróem. Talvez, então, não sejam todos os outros os outros importantes de fato. Sermos o outro que importa, que se importa, que nos olha feliz e confirma o direito inexorável à existência. Muitas vezes, quem sabe a maioria delas, o outro definidor e definitivo seja a gente mesmo. NQS ***

8 comentários em “Realce

  1. Penso que estas… “dúvidas consideráveis a decifrar, coisas que nos devorariam”… é que dão sabor a vida! O que me desafia me faz crescer. Gostei 👏🏻👏🏻 Abraços

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