Um pouco

Passeava muito com meu pai, um ser silencioso por natureza. Ele gostava de caminhar, de observar por observar e de se divertir com o silêncio da sua vida morena de um sol constantemente apanhado. Lembro de um gesto de carinho. Eu te amo acho que não escutei. Mas as caminhadas, as risadas profundamente ecoantes e aquele riso aberto, só o seu Norberto (com o perdão da rima involuntária) pra dar. Aquele sorriso era uma bênção, uma oração ou gosto de lembrar assim. Nos passeios (de barco, a pé ou na Chimbica, um Jeep DKW que tínhamos), era a festa do quem fala menos. Acho que meu des/crever começou ali nos silêncios dos não ditos, nos subentendidos, nos entendimento sublimares, nos textos escondidos entre os olhares trocados. Tenho horror a essa linguagem, a que dita tudo que não é permitido dizer. A que se supõe entendida, a que vive escondida, expressamente silenciada. Uma palavra, no entanto, é semente. Você planta um gosto tanto, um admiro isso, um que orgulho tenho, um vem cá, um se enrosca. Então nasce um eu te amo, um me perdoe, um foi engano, um vá com Deus. É no outro que nos construímos e a palavra é a testemunha disso. Como você cresceu. Nossa, está mocinha. Grávida? Passou? Que saudade…. Não chega tarde. Não vá tão cedo. Foi um prazer. É uma honra.

Vale o que está escrito. Ou às palavras restará o triste de ficar vivendo no dito pelo não dito.

2 comentários

Deixe uma resposta