Leve, mas não muito

Não sei se uma mosca tem ou não terminações nervosas. Confessando minha completa indiferença quanto a isso, nem pesquisar fui. Conto a quem interessar possa: cortei as asas de uma mosca.

Em minha defesa, eraquase uma criança à época do crime. Ela não se mexia e meu irmão mais velho afirmou que era por dor. Acreditei nisso minha vida toda. Depois de uma conversa, já não sei se uma mosca tem, mesmo, terminações nervosas. Se por acaso sentem dor. Ou se lhes cortando as asas, paralisam por isso ou por não saberem muito bem o que fazer com a nova situação. Teoricamente, sem parte das asas, moscam se tornam ainda mais leves. No entanto, não voam. Ficam paradas, não sei se por inabilidade pós cortes ou outra reação mecânica qualquer. Ficar paralisado não é a mesma coisa que se amedrontar por algo. Muitas coisas podem nos acovardar, sem anestesiar os movimentos. Mas a dor, tem esse condão. Amarra, gerando em nós (os humanos) uma série de bilhões de sinapses, impulsos bioelétricos, lembranças ancestrais, reações expontâneas, ativações inconscientes, conclusões precipitadas, decisões gerais e comportamentos específicos. No fim, iguais às moscas, ficamos paralisados por pura e tão somente ignorar como deve ser depois de um término, de uma demissão, de um rompimento, de uma perda significativa, de uma derrota, de despedidas, de partidas indigestas, de uma pancada existencial, de um dedão contra a quina da máquina de lavar roupa. Dores em plena ocorrência nos dão golpes certeiros. Dores que já se foram têm, do ponto de vista cerebral, o mesmo efeito, abrindo cicatrizes no mínimo neuronais. É na dor que surgem acontecimentos musicais de grande monta. Você acha que o cara que escreveu “Meu coração, não sei porque, bate feliz quando te vê” estava curtindo a glória da reciprocidade? Não estava. Ele estava infeliz, sobrava nele a dor da não correspondência, que o talento transformou em canção. Dores, geradas por nós ou não, revelam do que somos feitos, de quem se trata quando se trata de sermos nós em dor. Sentenciadores da imperfeição do mundo ou espanadores de esperança, medrosos da experiência, abortantes da felicidade ou amorfos habitantes do meio termo. Odeio as dores que me fazem sentir, não gosto de sentir dor e senti amor uma única vez. Gosto mais é de pensar e pensar é entender o sentido das coisas, inclusive dos sentimentos. Entretanto, não precisei pensar o te amo, apenas sei decifrar, como a cada um dos nossos símbolos.

Odeio significar dor e o motivo é simples. Quero ser autor de prazeres, é um tipo de egoísmo, um jeito de fazer uma troca vantajosa com a vida e seus convivas, onde a ninguém caberá o fardo que a experiência dolorida representa. Ser motivo de um riso que se abre, de um problema que se fecha, da solução que encontrada, do abraço calmaria, do sono que vem, do Homer compreendido, ser a não dor de todos os sentidos, a valentia cristã diante do leões de Roma. Então não é dor do que falo. Não é algo que fere ou que possa ser apontada, colocada em salas de ressonância, investigada em poltronas terapêuticas, vidas passadas, fogo indígena, palestras motivacionais, posts da escola mundial de filosofia. Não. Falo do que paralisou aquela mosca, havendo ou não terminações nervosas em suas asas. O fato é que ela não era mais uma mosca, posto que moscas têm asas. Falo disso, de não conseguir voar.

Publicado por

Mariel

Vale o que está escrito

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