Sendo bom, faz bem

Parei de sofrer, pensei e disse. Senti e disse. E aquilo fez um sentido gigante, sentir e dizer. Ali me dei conta que sofrer não pode ser o resultado de algo espetacular. Entendi que é exatidão é básico. É o preciso uma definição que estabelece o que está acontecendo durante qualquer ato e seus desdobramentos. E saber o que está acontecendo faz toda a diferença para sentirmos saudade ou tristeza. Preferimos não definir, muitas vezes, por brutalidade, por delicadezas e por milhões de outros motivos. E saudade é diferente de tristeza. Afinal, se sofrimento é o que um encontro gera, o que fazer com todos os anos que Homero lutou para chegar a Ithaca? Como entender o gesto profundo de quem não desembarcou? O que dizer de todas as vindas, esquivas e esforços de estar ali, com sorriso à postos? Fundamental saber diferenciar saudade e tristeza. E Alice, com a experiência dos seus quase 3 anos de idade, define com maestria o que é e do que se trata a tal da saudade.

Saudade é quando alguém fica lonjão, mas quer ficar perto

Saudade é feita dos desejos impedidos. Por isso é possível que a gente sinta saudades do que ainda não viveu. É o desejo cantando (e contando) sua canção. Saudade é falta. Chico diz que saudade é como um barco que, aos poucos, descreve um arco e evita atracar no cais. Acho que isso é a saudade fazendo desenhos, ainda que a imagem do grande poeta seja de uma beleza tocante.

“Eu queria te abraçar agora” se dizem os saudosos. Não podem, est˜ão impedidos, é a falta agindo. Por isso, você verá a mesma cena, tanto na pequena ilha de Saba onde fica o menor aeroporto comercial do mundo, quanto no no Hartsfield-Jackson, o maior aeroporto do planeta e que movimenta 100 milhões de passageiros todos os anos. Num e noutro, as pessoas que se esperam trocam um abraço forte, como quem deseja segurar para sempre o que antes era ausência.

O menor aeroporto da Terra fica no Caribe.
E o maior em Atlanta, EUA. Nos dois, o mesmo gesto de encontro

É quando a saudade vira perda que se transforma em tristeza. Deixa de ser a presença do era distante para significar uma ausência permanente, inegociável e irreversível. É um afeto atingido pelo desaparecimento total. Nada de timbres, gestos, cores e significados. Não haverá mais troca, nem a intensidade daquelas conversas ou o inigualável dos encontros e desencontros. Tanto faz a existência do menor e do maior aeroporto do planeta, não há mais vida e, por isso, nenhuma vinda abraçante te tocará daquele único jeito desejado. Essas mil mortes possíveis podem surgir da falência completa dos órgãos ou do fim de um sentimento, de uma esperança ou da mesmo da inocência. Sofrimento é manifestação de tudo que morreu. Seja uma pessoa, uma relação, bichos ou coisas, planos, ânimo, ânima, entusiasmo, empresas, ideias, carreiras, times e consensos.

De longe, toda saudade é permitida porque é falta. Falta não se pode evitar porque ela é feita de vazios, de trocas não feitas e isso pode entristecer, mas não é tristeza.

De perto, toda tristeza é legítima porque algo nunca mais haverá, perdeu-se. É o preenchimento dramático e dolorido de todo e qualquer hiato.

O que ambas têm de comum é sensação de dor, mas mesmo essas são diferentes entre si, incomunicáveis, incompatíveis e -de alguma forma- inconsoláveis.

Saudades e tristezas têm, muitas vezes, um vetor parecido e gera muita confusão, como acontece com quase tudo o que não entendemos. Primeiro, é preciso saber que o que não compreendemos se torna mais poderoso do que é: a ignorância não é uma benção. Uma bênção é a verdade, que d liberta. Todo o desentendimento se multiplica porque damos espaço ao subentendido, que é o entendimento dizendo “entenda como quiser”.

O que deixamos claro se manifesta tanto quanto aquilo que obscurecemos. Ouço quero uma vida, uma carreira, um amor, uma rotina melhor. Que vida?Que carreira? Que amor? Que rotina? Como ela é, essa vida? Como é a carreira nessa vida? Do que será preciso abrir mão, como -por exemplo- a perfeição absoluta para que a carreira e a vida se harmonizem? O que é o amor que você quer nessa vida e essa carreira desejada? O que será indispensável construir para que ele exista nessa vida, como -por exemplo- não ter de adivinhar o que te faz sorrir?

Na rotina dessa vida com essa carreira e na companhia desse amor existe espaço para outra vida, com outras rotinas, com distinta carreira? Há lugar para rotinas em comum e incomuns? Ou tudo isso precisa ser feito de um modo solo? E modo solo é nada em volta, tem algo no entorno, será necessária uma transição? O que entendemos quando falamos de entendimento? A essas perguntas não se obtém respostas em 40 minutos de terapia, nem em todas as livrarias do universo, mas na lida dos afetos. É na construção do cotidiano que surgem os calos que nos tornam mais resistentes e nos deixam diferentes e (mesmo assim) amantes. De alguns dias, haverá saudade. De outros, surgirá a tristeza. E porque? Por que nos criamos diante dos muitos outros existentes, acreditamos em coisas reais e imaginárias a partir disso. Somos um pouco quem nos exclui e quem nos recebe. Aqueles que nos olham, os muitos que não nos percebem. Somos uma soma de existências, verdadeiras relíquias e tesouros, onde está o nosso coração e nele, a capacidade de amar. Carla Madeira diz que o amor é um gostar multiplicado. Não diz assim, mas entendi (e também acho) que é isso. Gostar do cheiro, do jeito, da quietude, da imperfeição, do entendimento, da distração, do foco, do talento e da inabilidade. Ela também conta que amar é o instante que deseja ser eterno, olha isso. Mas crianças são melhores em definições, mesmo as geniais da Carla.

“Quando minha avó pegou reumatismo ela não podia se debruçar pra pintar as unhas dos pés. Desde então é meu avô quem pinta pra ela, mesmo ele tendo artrite.”

Rebecca, 8 anos

“Amor é como uma velhinha e um velhinho que ainda são muito amigos, mesmo conhecendo-se há muito tempo”

Tommy, 6 anos.

“Quando alguém te ama a forma de falar seu nome é diferente”. Billy, 4 anos.

“Amor é quando você oferece suas batatinhas fritas sem esperar que a pessoa te oferece as batatinhas dela.”

Chrissy, 6 anos.

Viver é sobre nós em convívio com o outro. É imprescindível termos encontros dignos de saudade porque experimentamos o amor e o amar. Ou então nossa vida terá motivos de sobra para tristezas.

No audio acima tem um texto lindo, que inspirou Ernest Hemingway em uma das obras mais importantes com a assinatura dele. É a essência do livro, como o amor é essência da vida.

Ernest Hemingway trabalhando no livro Por Quem os Sinos Dobram em Sun Valley, em Idaho em dezembro de 1939

Publicado por

Mariel

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