Gasparzinho

Há fantasmas de todos os tipos. São como apelidos: quanto mais negados, mais pegam. Proibidos, nos assustarão por uma vida inteira. A tradução que fazemos de um comentário, de uma cena, as frases que ouvimos repetidamente, as vezes que erramos diante de todos e riram. Não da cambalhota, mas do tombo, do som, do jeito, da gente. Quando fomos pegos de surpresa em fraquezas. Quando algo não aconteceu e deveria. Quando algo adconteceu e não deveria. Quando a bola estava na linha do gol e dei de bico pra fora.  

Todos os fatos da existência são fundamentais. Mas aqueles da infância, nossa. Eles se transformam em crenças e agem em nós como uma segunda pele, viram cacoete, montam cenários e moldam circunstâncias. São um tipo de guia cego se não nos ensinamos caminhos novos.  

Os fantasmas que acreditamos sobrevivem da escuridão, dependem dela. Estão em todo não que recebemos, retransmissores que são dos nãos dos bailinhos, o não do visto, os não do aumento, o não espere, o não conte, o não se apegue. 

Um dos meus heróis da juventude atendia pelo nome de Fantasma, o espírito que anda. Ele vivia na Ilha da Caveira e combatia o mal com inteligência e boas doses de sorte. Lembrei disso agora, enquanto escrevo sobre o ectoplasma emocional dos fantasmas do cotidiano. Meu desejo determina o que procuro ou as coisas que sonho ou quero são um desvio estratégico de tudo que não sei se posso alcançar?

Gasparzinho era um fantasminha legal. Lembro de adorar os desenhos dele ajudando os humanos contra uma turma do mal. Eu, que quase sempre torci pelo bandido de chapéu, gostava do Gasparzinho. Via nele um espelho talvez. Alguém deslocado do seu meio, quem sabe fosse essa a identificação. Sei que levei um tempão domesticando raivas, entendendo dores, olhando o mundo como um fantasma, de longe, do outro lado do balcão, no lado incerto do ringue. Mas também era dali que via o que poucos percebiam, alguns milagres me encantavam, gestos me surpreendiam, a humanidade se aproximou e me vieste entre todos. Entre tantos, eu. ***

Publicado por

Mariel

Vale o que está escrito

4 comentários em “Gasparzinho”

  1. Eu me lembro do Gasparzinho, agora não me lembro se era o desenho ou um almanaque. Ou filme? E eu sempre gostei de fantasmas, queria ter um morando no sótão de casa, quando menina ou nas paredes. As pessoas diziam ter medo dessas coisas, se benziam e eu apenas queria ter um para conversar. rs

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    1. Era desenho… Depois teve um filme, mas sem o encantamento dos desenhos que eram tipicamente 2D, uma lindeza de plots, tudo muito simples e fácil, o bem contra o mal e o bem vencia de goleada. Deixa eu te contar um segredo: mesmo que vc não more em casa, há fantasmas habitando teus sótons. Alguns chamam de intuição, os inocentes.

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  2. Li e me arrepiei aqui. Descobrir, acolher e ressignificar esses fantasmas as vezes demora mais tempo que achamos. Mas é tão bom ir vendo o quanto de acolhimento temos nesse estado de espírito também…

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