lugar de cala

Silêncio é um tipo de falta, algo cuja ausência do som destaca. É a fala ao avesso, o som invertido, descontinuidade. Há momentos tão eloquentes que só o silêncio os traduz. 

Meu pai falava sempre sobre um desses instantes calados na alma da gente. Ele contava do acontecido, foi quando o Brasil perdeu o campeonato mundial de futebol para o Uruguai, em pleno Maracanã lotado de gente. O jogador uruguaio avança, a torcida vaia. Ele passa por um, a torcida grita. Passa por outro, a torcida se desagiganta. O cara chuta, a torcida geme. Milhares de pés fizeram um invisível movimento contra. Centenas de mãos sinalizaram a mesma intenção.  A bola passa, a torcida se contorce, num grito abafado, um lamento emudecido. É possível ouvir a bola viajando pela rede de nylon, a realidade baixa o volume de tudo e, gesto contínuo, começa um hiato, a falta absoluta de som, um silêncio que fala. Depois, se transforma em fantasma, o som do invisível, a descrição calada de um goleiro caído, da bola entrando, o campeonato indo, a alegria se esvaindo, o inacreditavelmente cego, surdo e mudo da perda. 

Existem milhares de coisas que nos deixam no quadrante extremo da quietude, o silêncio é um jeito de falar com a gente mesmo, de nos apresentar, de dizermos coisas impossíveis de serem moldadas no universo habitado pelos sons.

Lembro das apresentações do filho no Santa Maria. Eu sabia o que iria acontecer. Que a música seria canção específica do Roberto no Dia dos Pais, por anos a mesma. Então a pessoinha entrava no palco, olhava pra mim e cantava que tinha tanto pra me falar, que com palavras não sabia dizer como era grande o amor dele por mim.  Um silêncio intenso me invadia, era a sonoridade do afeto, a emoção de ser amado e de amar silenciosamente alguém. 

Quando converso  com as pessoas, presto muita atenção no que aquelas criaturas calam e o significado dos seus gestos inabitados por sons. Mãos bailarinas. Arrumação constante de pestanas. Mandíbulas em movimento. Olhar. Não olhar. Há vácuos entre frases e falas. É neles que  se manifesta o que há de silenciado nas almas. O lugar de fala de tristezas ou alegrias dispensa palavras. É o riso. É o choro. Mãos na cintura. Cabeça para baixo. Braços erguidos em comemoração. Um segundo a mais no encontro entre olhares que se atraem por afetos. Raivas contidas em pequenas mordidas nos lábios. Textos. Acelerações musculares. Pensamentos. Decisões. Reconciliações. Partidas. Vindas. Experiências. Impressões. Entendimentos. Observações. Todos os silêncios são raios, existem muito antes dos trovões.

A meditação é a busca proposital de silêncio. E também o intuito de silenciar ruídos internos, rodízio de ideias, amores mancos, solavancos mentais. Meditando, é possível abrir o pacote das coisas definidas em palavras e seus sons, desembrulhar, ver o que há dentro, entender o que nos trazem e o que nos convidam a fazer, possibilitando escolhas. Há uma fonte de prazer no silêncio, que parece ter temperatura e possuir uma brisa ligeira e fresca, às vezes fria. Quando uma situação me magoa, aborrece ou entedia, percebo que vou baixando o tom da voz. Ela vai se perdendo em energia, fica baixinha, mingua, desafina, se conforma e me calo. Vejo que muito do silêncio que fica em mim é o silêncio que me leva embora.

`As vezes, de propósito ou por descuido, silenciamos coisas que deveriam ser expresssas. Uma beleza, o tom da voz, um gesto, uma saudade, um ressentimento, medos, uma necessidade, um pedido, uma admiração, uma característica ou habilidade, um reconhecimento, uma saudade, um traço, um determinado pedaço do corpo, o jeito de rir, um sentimento, o pertencimento ou a ausência disso. Não o elogio fácil e vazio, não. A demonstração sonora de que o outro é visto em suas silenciosas virtudes. Dizer é dar voz ao silêncio, oportunizando mudanças e tornando sentimentos bons em porta estandartes do que precisa ser dito e das coisas que escolhemos silenciar.

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Publicado por

Mariel

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2 comentários em “lugar de cala”

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