No princípio era opaco

As cores se auto conceberam, criadoras de si mesmas. 

Antes, tudo era incolor e coberto de uma densa camada do nada e sua ausência de cor. 

Então fez-se o verbo e, com ele, a senha das cores, era a vida disfarçada sob diversas gradiências. 

Antes, a cegueira. Agora, o infinito em interminável escala de nuances e experiências. Recém-criadas, as cores se tornaram universo em expansão permanente inventando deuses, crenças, histórias, explicações, amores, canções e tudo que não se pode tocar, mas ver. E vê-se o que é compreendido fora dos sentidos ou dentro das lógicas. Reinos têm cores e suas bandeiras pigmentadas a partir dos significados pichados em si ao longo da história. Perigos, sonhos, avisos, orientações, sensações, sentimentos, todas as lendas possuem cor. São geradas nelas e delas nascem para enfeitar os mundos que as reconheçam e seres que as cultuem. Apreço, amizade, horror, séquitos, segredos, mortes, adereços, métodos, conceitos, almas, corpos, manifestações de naturezas vivas e também as desaparecidas permanecem se experimentando em uma dimensão colorida. Sons são cores virando para que se ouça os dons da música, das buzinas, orquestras, discursos e declarações. Sim, declarações existem para serem feitas, ditas, sentidas e pintadas. Aço e sol, lança e pó, polar e centro, entre, fora, dentro, uno, trinas, múltiplas em aconchego e desconforto. Puras e transviadas, palatáveis e intragáveis, sem cheiro e aromáticas, elas deram cores aos profetas da luz e aos anunciadores das trevas. Então o mundo, em sua visão pequena e turva, pintou-se para o que conhecia de paz e para o que escureceu de guerras. Mães pariram meninos e meninas de cor, átomos têm todas as cores impregnadas de movimento intenso. Versões de universo surgem das cores cansadas do mesmo e que se reinventam momento a momento. Homens, santos, elementais, seres das florestas, santos, hinos, pontos, arcanjos, satanás, Barrabás, tangues, flores, junções, guias, aparições, visões, orquestras, inspirações, intuições, avisos, oceanos, bichos, formas obscenas, não linguagem, padrões, imagem, projeções, parasitas, poemas, Deus e todo encantamento, tudo é um mistério revelado do reino não habitável aos eunucos da vista. Cores são inteiras, aceitam o meio tom, mas coisas pelo meio, meia cor. Afetos nos roubam da estupidez furta-cor, é preciso cuidado a partir daqui. Afinal, com as mesmas cores do querer ficar se pintam as cores do querer partir. ***

Publicado por

Mariel

Vale o que está escrito

3 comentários em “No princípio era opaco”

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