Bunker

Quem estará nas trincheiras ao teu lado?
‐ E isso importa?
‐ Mais do que a própria guerra.

Você me acalma, alma, você me acalma. 

Ainda que me confunda (mar tem onda), 

mesmo assim, estamos de acordo que me 

acordas e não há nós nos amarrando 

a nada. 

Que eu te acalme, alma, que te acalme.

Ainda que te aponte os escombros

que te escondem a face, mesmo assim 

(ou por isso mesmo) nos tornamos 

residentes mútuos, moradores um do 

outro

Nos tornamos. 

Tornamos a nós. 

Sou casa, 

você vive

na morada. ***

Gasparzinho

Há fantasmas de todos os tipos. São como apelidos: quanto mais negados, mais pegam. Proibidos, nos assustarão por uma vida inteira. A tradução que fazemos de um comentário, de uma cena, as frases que ouvimos repetidamente, as vezes que erramos diante de todos e riram. Não da cambalhota, mas do tombo, do som, do jeito, da gente. Quando fomos pegos de surpresa em fraquezas. Quando algo não aconteceu e deveria. Quando algo adconteceu e não deveria. Quando a bola estava na linha do gol e dei de bico pra fora.  

Todos os fatos da existência são fundamentais. Mas aqueles da infância, nossa. Eles se transformam em crenças e agem em nós como uma segunda pele, viram cacoete, montam cenários e moldam circunstâncias. São um tipo de guia cego se não nos ensinamos caminhos novos.  

Os fantasmas que acreditamos sobrevivem da escuridão, dependem dela. Estão em todo não que recebemos, retransmissores que são dos nãos dos bailinhos, o não do visto, os não do aumento, o não espere, o não conte, o não se apegue. 

Um dos meus heróis da juventude atendia pelo nome de Fantasma, o espírito que anda. Ele vivia na Ilha da Caveira e combatia o mal com inteligência e boas doses de sorte. Lembrei disso agora, enquanto escrevo sobre o ectoplasma emocional dos fantasmas do cotidiano. Meu desejo determina o que procuro ou as coisas que sonho ou quero são um desvio estratégico de tudo que não sei se posso alcançar?

Gasparzinho era um fantasminha legal. Lembro de adorar os desenhos dele ajudando os humanos contra uma turma do mal. Eu, que quase sempre torci pelo bandido de chapéu, gostava do Gasparzinho. Via nele um espelho talvez. Alguém deslocado do seu meio, quem sabe fosse essa a identificação. Sei que levei um tempão domesticando raivas, entendendo dores, olhando o mundo como um fantasma, de longe, do outro lado do balcão, no lado incerto do ringue. Mas também era dali que via o que poucos percebiam, alguns milagres me encantavam, gestos me surpreendiam, a humanidade se aproximou e me vieste entre todos. Entre tantos, eu. ***

Sem

“Sem” é o tema de hoje do Repensando Bem. Clique aqui. Então você pode ler todo o sentimento descrito, além de toda a tradução possível em imagens. Quem puder seguir, tem o meu obrigado. Que o feriado nos descanse.

Entre o top e o secret

meu bem-me-quer

Suely Costa, em uma das suas muitas composições, lamenta que só uma palavra me devora, é aquela que meu coração não diz”. 

Renato Teixeira, entre desanimado e triste, já declamou coisas como “a barra do amor é que ele anda meio ermo. A barra da morte é que ela não tem meio-termo”. O lindo poema é parte da obra de Cacaso, professor e letrista dos bons, que se foi em 1987. 

Nas criações de Sueli e de Cacaso há muita consternação e não faço aqui um julgamento ou comparações entre os dois. Procuro mais é tirar das observações deles alguma lição escondida ao meu olhar curto e seco. 

O que me ocorre é que podemos nos transmutar em seres com relações secretas. Não no sentido de proibidas, escondidas, imanifestas. Também isso, mas não só isso. 

Falo de secretas para o outro, aquilo que o teu coração não diz, como afirma Sueli Costa. Ao calar sobre o que precisamos ou ao deixar de agir em sintonia com o que o outro carece e que poderíamos fazer sem prejuízo de nós mesmos, corremos o risco de nos tornar sabotadores de afetos genuínos e bons. 

Dizer em demasia pode ser incômodo. Demonstrar demais talvez cause desconforto. Tudo que acanha ou sufoca precisa de correção e limite. Mas e quando não dizer transforma o fértil em árido? E se continuamente tornarmos normal uma postura que condena o outro a dias de silenciosa desimportância? Deixar o amor ao ermo é condená-lo à morte, que não tem meio termo, como alerta Cacaso.  

É importante entender as relações secretas que criamos quando rotinizamos o não recebimento do que nos nutre ou se não falarmos sobre o que nos exaure. Podemos fazer isso continuamente e se não nos avisarmos,  prosseguiremos fazendo e isso não precisa, nem pode ser assim mais.

Se nos retiram coisas. Se deixamos de entregar outras, os encontros escasseiam. Mudanças são adiadas. Projetos empacam. Romantismos recebem vaias. Reduções são feitas. Indiferenças são minimizadas. Afetos começam a sofrer de reumatismo e não surgem providências no horizonte. O que pode acontecer em seguida é que o desânimo ou a mágoa condenem à forca a parte mais importante de nós, que é a capacidade de amar e de receber amor. Não se engane: não há nada mais importante para se conhecer em vida. Ao largo do amar e do receber amor, nos convenceremos que é o dia a dia, que é o mercado de valores, o trabalho, a aspereza do tempo, a falta de tempo, o excesso de tempo, a inexistência do tempo, a impermanência do tempo e a ação do tempo. Então cai o temporal. E entenderemos que somos assim mesmo. Que não precisamos. Que o outro não ajuda. Eventualmente nos chegam pedidos explícitos de auxilio, verbalizações, aquilo não era um treinamento, foi dito e solicitado contato, de retomada, porque pelas nuvens se pode ver o tipo de clima. Se deixamos que o essencial sejam outras coisas e não a construção de relações não secretas, cairemos sem asas no abismo do é assim mesmo. É o mercado. Não deu pra fazer nada. Está quente. Esfriou. Outro dia. Não pude, não comentei, não li, não fui, não tornei possível, é isso, ficou pra depois. Então o amor, que deveria receber tratamento de chefe de estado, ganha às vezes uma nesga de atenção, uma palavra mais aquecida, um gesto, apresenta um símbolo, mostra um sinal inequívoco da sua essência e assim enfrenta os invernos e ventos uivantes que o torturam.

Mas, como diria Sueli costa, “nada do que posso me alucina tanto quando o que não fiz”. O que fazemos (e o que deixamos de fazer) se manifestará de formas diversas. Somos autores da nossa realidade. Talvez isso explique os distanciamentos, as separações, o sucesso de coisas que são medíocres e o fracasso do que poderia ser genial. Os dois polos são inaceitáveis e não há possibilidade de conciliação entre elas, não mais. Não sem a morte do nuclear que nos diferencia, algo ainda mais temoroso de se viver sem eu, você ou nós.

Então te sirvo Neruda e seu conhecimento profundo do amor, das asperezas dos distanciamentos e da importância de unirmos luz com mais luz, iluminando as nossas sombras, sempre tão prontas a conspirarem contra nós mesmos.  ***

Algum dia, em qualquer parte, em qualquer lugar, indefectivelmente, encontrar-te-ás a ti mesmo. E essa, só essa, pode ser a mais feliz ou a mais amarga das tuas horas.”

Infimnito

” 8 é o infinito de pé “

Não existem tempos amenos se tais serenidades não resistam a trovões, chuvas e mesmo às tempestades. Não existem tempos pacíficos construídos aos gritos, nem acordos dignos assinados sob força bruta e desumanizada.

Tempo é uma passagem. Seu trabalho lapida montanhas e vidas para as encaixar às novidades que rascunhamos e que se aperfeiçoam na realidade. Algo não dura por resistir ao tempo, mas por se saber instável, sujeito a retoques e, mesmo assim, tudo tem dois fins. Um fim que encerra qualquer a causa, rendição incondicional, é o término. E outro, o fim que se revela desejo, missão, propósito, esse é sempre um início. Observa como palavra fim nos convida a possibilidades antagônicas? Saber distinguir o tranquilo do distraído, a inocência da ingenuidade, o fim do fim é sempre um desafio. 

Vi alguns filmes sobre ilhas habitadas por combatentes alucinados. Gente que não sabia que uma determinada guerra havia terminado e, por isso, cumpria a missão de permanecer atirando à esmo e lidando com inimigos imaginários. É irreal, já que se trata de um roteiro cujo fim é o entretenimento. Mas no fim do filme, a metáfora se mostra concreta e viva. Qual batalha estamos enfrentando em nossas ilhotas distantes e silenciosas? Continuaremos lá indefinidamente? O que faremos após a vitória? Acreditamos na luta? Se a resposta for sim, queremos avançar pela causa? Quais são as estratégias, que resultados esperamos? Até que ponto é sim, qual é a fronteira do fim? 

Estou exausto. E tudo que penso é voltar pra casa e te encontrar amena nessa troca intensa de afeto cujo fim é a felicidade mútua, o convívio aberto e o crescimento do que há de amável em nós. ***

Diante

Estar diante do que se quer é bonança com direito à deslocamento de ar carinhoso, suave e bom. Chamam de brisa. Batizam de aragem, esse prazer em forma de movimento. É assim que é ver o que se quer dali pra frente na hora, no dia, no mês ou na vida. Em nome de tantas coisas e seus significados, os encantados entre si resistem até a eles mesmos, às vezes por anos. É um exercício continuo da busca pelo entendimento, um espaço de afetos incondicionais, lugar de perseveranças e descansos. O tom das vozes se alteram pouco e quando isso acontece, cortam pelo costume pelo pacificado. Mas estar diante do que se quer é  gerar conversas, não discussões. As discordâncias estão ligadas à tonalidade  satisfatória de azul nas coisas, o ritmo mais confortável de uma canção, quantas luminárias são necessárias para o conforto das leituras em dupla. Não é a felicidade margarina. É a felicidade de carne e osso. Ver a chegada do que ser quer é compreender algo juntos, mas não qualquer coisa. São sentimentos ligados ao sossegar no colo confiante e confiável que se impõe em sinais, avisos, intuições e confirmações. Nem sempre se observa o acaso agindo, pensamos em algo, percebemos uma imagem no fundo, passamos diante um do outro, um texto lembra o que amamos e muitos chamam isso de coincidências. Nos distraímos intensamente em busca de colocação, de futuro, de aceitação, dos fios soltos nas rotinas. Mas o que vale no fim do dia é se estivemos ou estaremos diante do que se quer. E para entender a importância disso, é inseparável um questionamento. Ele vai nos perguntar se sabemos o que queremos, pois só assim é realizável o equilíbrio necessário para estar diante do que se quer. Caso contrário, poderemos estar diante do que se quer e não reconhecer seu jeito de andar, um modo de ser, um molde de pensar, o retalho com o qual se veste. 

Não há nada oneroso para se estar diante do que se quer. Talvez tenha sido providenciado um contrato, onde (em uma das suas cláusulas) diga claramente que caso seja necessário o deslocamento para estar diante do que se quer, um meio deve ser imediatamente providenciado. Ou máquinas param. Reuniões são adiadas. Se alguém quer algo e está diante do que se quer, nada é realmente longe, pesado ou inseguro. O que se quer é o seu lugar no cosmos. E se você está diante disso, alegre-se, quase ninguém consegue essa proeza por toda a jornada. Homens e mulheres põe o pé na lua, inventam coisas, criam vacinas, comandam exércitos, desistem de reinos, conquistam territórios, manejam letras, atuam, transformam, viajam mil léguas submarinas, suportam 100 anos de solidão, enfrentam a si mesmos, renascem, tudo por um instante diante do que se quer. São esses instantes que valem a eternidade, qualquer eternidade. 

Você não cria despesas, não se preocupe com isso. Foram tantas as colinas subidas e descidas que o viajante sabe em que curva há o perigo, não subestime a capacidade de avaliação e resposta que não sejam usuais, que as prioridades se mostrem outras. Há uma lógica nisso que talvez não esteja sendo suficientemente considerada, valorizada ou mesmo vista.  

Entenda: toda segurança é frágil. Estar diante do que se quer exige mil cuidados e todos eles são pouco confiáveis. Não há truques nos deslocamentos. Não existe a mágica do desaparecimento, somente o silencio completo e irrestrito assegura a calma requerida. Evidente que isso não justifica qualquer jeito desorganizado ou improvisos desajeitados. Mas risco zero não há, nem existe um formato a ser escolhido, a ideia de um cardápio de escolhas é ilusão: ou é uma coisa ou é outra. Não confunda isso com imposição, é uma observação elementar, a de estar ou não diante do que se quer. Se não estamos, não estamos. Mas se estivermos, será preciso um plano, caso exista vida afetiva depois da toca. 

RePensando Bem 02.04

Clique aqui para conhecer o Repensando Bem dessa semana. Valeu pela visita, pessoal.

Aster

Estrelas do mar parecem asteriscos. As estrelas do céu também. Gosto desse sinal pelo grafismo que tem, pelo mistério que carrega em seus significados. Asteriscos são reticências bem sucedidas. Chegaram ao estrelato. Brilham como um texto do Mãe que aparece sem ser esperado, mas que é muito bem-vindo. Fala de estações e me pergunto se é um desejo ou uma certeza, o jogo de palavras. Em mim, o “vocês verão”, é uma sentença definitiva e que deixa espaço nenhum para dúvidas: esses dois tostarão ao sol juntos, mesmo que a leitura não seja direta assim. Mas Catarão caramujos enquanto caminham olhando o horizonte, trocando coisas sobre o trabalho, projetarão (enquanto caminham) os novos trechos da vida. E quando isso for pouco, encontrarão formas de contornarem suas imperfeições, porque o amor é líquido. Não serão projeções que oscilam a partir da incidência e do humor dos raios de sol. Permanecerão afetos e afetuosos na concretização da excelência, entendida como produzir e oferecer o que há de melhor neles mesmos. Todas as estações têm maravilhas e talvez seja esse rodízio perene entre elas que as façam tão esperadas. Um dia, depois de dias e dias, chega o tempo do inverno ou da primavera, ou do outono ou do verão. Sempre chega, é da ordem do tempo e de tudo que existe nele, fora ou ao seu redor. Acontece o mesmo com os encontros formidáveis, com as vindas que não passam desapercebidas e nos dias de espera. Há um motivo que mantém aquecidos aqueles que acreditam no verão, mesmo que o inverno jure que será eterno em seu rigor. O motivo é maior do que o entendimento que se possa ter disso. Basta ver uma estrela do mar ou no céu as associar a asteriscos. Não são asteriscos. São sentimentos. São convicções. São respostas. ***

É sempre hoje

No centro da alma das coisas, um invisível repousa. Meça o pulso, que bate de nervoso. Ri do meu estorvo, rema entre bardos e seus barcos de papel. Escreve que no centro das coisas existe uma alma que repousa no colo intenso que pulsa no pulso da vida. E se mistura enquanto se torna indivisível átomo, inesquecível ato, invencível ímã do sempre.