Pro dia nascer feliz

O mundo inteiro acordar e a gente dormir.

Do submerso ao reflexo

Suas vindas não me passam desapercebidas, são sempre boas e nutrem a felicidade do encontro. Talvez isso seja de igual valia para as idas, quem sabe até mais, não sei. É uma tese que explicaria a saudade antecipada, o radar de última geração para despedidas, o coração pequeno e o olhar assustado diante de qualquer movimento mais brusco ou inesperado.

É preciso dar ao inédito o seu devido tamanho, não te parece? Pensar assim me acalma, não sei se me expresso bem. Quero dizer que somos aprendizes um do outro, nos importamos. Vivemos em confiança no acolhimento certo, imersos no amor imenso e surpresos pela entrega intensa. Mesmo assim, se tudo der certo, iremos errar muito e entender pouco, estamos muito acostumados a ser indiferença. Moldar sem mudar, como quem cria, isso é da natureza do amor ao outro. Nesse espaço de conversa sempre tão boa, é possível ser o que se é, sem precisar submergir o essencial, o que purifica o ar e desintoxica para a vida que precisa ser tocada. E nada disso nos livrará de projeções ou de desejos frustrados. Mesmo assim, a verdade do que nos une pode nos manter lado a lado.

Não afirmo nada disso de ouvir falar, jogando confetes semânticos para a plateia suspirar ohhhh e depois imaginar perfeições automáticas, mágica e sincronicidades do café da manhã ao boa noite. Um encontro desse naipe vai exigir coragem, porque você vai se mostrar frente e verso e simplesmente tudo pode estar contra. Tempo, distância, história e fatos, a matéria-prima dos dias. Será preciso, portanto, construir cantos, abrir trincheiras e silenciar, silenciar, silenciar. Afine a vista,os sinais serão sutis. Apure os ouvidos e sons ganharão significados. Prepare o tato, coloque o olfato em alerta, una todos os sentidos e se mantenha firme, em permanência. Finalmente, esteja de prontidão para presenças e encontre formas de resistir a ausências. Então, um dia, o telefone toca. Um por de sol acontece. A play list é recebida. Vem um Natal fora de hora, você ganha um Moleskine. É possível tocar o humano, a emoção, deixe que a alma trema de tanto que se dá e entrega. Isso não é procura por amor ou casamento ou familia. É algo de outra natureza, tem milhões de diferenças, só cabe em outra moldura. É um feito de quem se dispôs e foi à luta e isso você fez, é o que te cabe, ninguém controla resultados. Não basta ser um bom artista: fazer do bloco de pedra uma escultura é trabalho conjunto e leva tempo pra ficar pronto.

Seria desdenhoso não temer o fim bocejante de algo que exige tanto. Andar desatento, se imaginar inteiro sem. Ah não. Se não liberta não merece o nome de encontro, espaço de conversa, portal, azul ou amor.

Eu quero me libertar de não ser a melhor versão de mim mesmo. Na minha experiência, aconteceu de amar profundamente um ser diferente de mim. Ao admira-lo em sua excelência, vi a vida se aproximar em abraço apertado. Quando algo assim acontece, leva-se um naco de tempo para entender o que houve. Enquanto isso, todo o resto acontece em suas importâncias possíveis.

Hoje li num papel azulzinho algo como “viemos ao mundo para levar uns aos outros pra casa”. Nossa, aquilo de tocou de um modo único porque me pareceu ter sido dito pra mim, por você. Então tua mensagem chegou. A troquei por um dia dos namorados fora de hora. E lembrei que se o medo de voltar pra casa sem a tua companhia é apavorante, saber onde está meu coração faz toda a diferença. Ele brilha com você.

Aos dias azuis

Mercedes me canta o Rio Paraná, os peixes que saltam na rede, seus pescadores. Coração pequeno, uma aragem silenciosa acompanha uma falta. E, ainda assim, é azul. Como têm essa cor os sinais, as janelas, os pontos de encontro, as pontes feita de conversas feitas até de palavras.
Agora é baleiro, o Zeca, que me conta que se um dia um beija flor invadir a minha casa, é sinal de saudade. Como se agiganta e se impõe, se atravessa e me perpassa. Ainda assim, é o sabor da minha vida como ensina Simone quando me faz perguntar por que eu sou eu?
Então ele chegou e deitou-se ao meu lado, apenas isso, esteve ali. Ficamos quietos em todas as línguas. Eu presente aos poucos, ele um conviva da praça onde mora um por de sol.
A Terra tem uma alma Enluarada, que exibe em seu sempre capacidade inerente de existir embelezando. O trabalho humano é mais simples, nos basta reconhecer belezas onde elas resistam. Também parece humano que, ao reconhecer o encanto desses cantinhos encantados, haja o desejo de tê-los conosco. São companhia, parceria bem-vinda, estar simples, compreensão certa, mistério entregue. São companheiros, vibram em dança bonita, é a própria vida num convite pleno de si mesmo.
Em dias azulados assim, estar ao lado de quem se ama deveria ser um decreto. Também porque estar longe é um desperdício, fazem um frio seco, é uma heresia com a sorte de amar alguém. Onde está teu coração? É ali que brilha o teu tesouro. Quem descobre isso, não se torna imune às dores das horas nem resiste melhor às suas intensidades. Quem descobre onde está o coração se descobre melhor e te entrega, feliz, o pronto (ponto a ponto) da sua humanidade.

Bom dia, medo

Logo cedo, acordo meus medos, os coloco em fila e olho no fundo de cada um. Ser preso, ter que viver no Rio, causar sofrimento a quem amo, trabalhar no que não gosto, não escrever ou ler, depender além da conta, invadir, não ser bem-vindo, não andar de bicicleta, perder a curiosidade, falar demais, fingir afeto, ter certezas absolutas, morrer afogado, ter de fugir do que quer que seja, me perder de mim mesmo, enlouquecer, não ter autonomia, existir sem o amor encontrado. Me entregar ao pessimismo. Estar à vontade sob qualquer forma de fundamentalismo, estar sem você.

Todos os meus medos têm maus modos, seus próprios receios e modo de operar. Falo sobre isso para enfileirá-los, estão agitados, arrastam correntes e batem canecas nas grades, ouço os sons e me preparo. É assim que começam as rebeliões em mim.

Já vivi em tantos lugares e em condições tão diversas, sabe? Não há onde no mundo que não me adaptaria. Viver aqui é apenas uma entre muitas possibilidades. Mudar não é um medo listado, o que me leva ao bicho papão real. O que desejo é estar ao lado por ser indispensável, ter um manto, o cetro, o reinado e a aclamação da minha vida bordada na tua, como mostra a canção do Gil. É um medo tolo? Pode ser, mas é o meu.

O meu bom dia vai para os teus, que têm hora pra vir e se disfarçam tanto de tantas coisas que te apontam. Vozes que se elevam. A crítica travestida de indiferença. A solidão esteta. As leituras solitárias e sem troca. O silêncio da tocas e o ensaio da cegueira. Que o meu amor te ilumine de azul o dia, leve teus medos para brincar no balanço de passeios bem sucedidos. Só há sentido se o amar acolher os medos, se os acalmar e contar a história de almas que se amam e do tanto que se amam, no ponto que se amam tanto que seu medo é não poderem viver isso.

Coisa ou outra

Existe a possibilidade de ponte entre o desejo de ficar e a necessidade de ir? O encontro com o outro significa ganho ou perda de liberdade? É possivel aos amantes a permanência do amar quando distantes de si? Acho que nenhuma resposta é plena para o sim ou absoluta para o não. Trata-se mais do que significa, o valor essencial do outro ao seu lado, a importância e o peso que isso tem naquela vida, algo único e intransferível.

Quando te imagino indo a qualquer lugar do mundo, depois de um tempo tão fundo, após enfrentadas e vencidas todo tipo de descidas e subidas, é comigo que te imagino indo ou vindo. Esse sou eu: não quero uma alternativa, não faço planos sem a tua presença física, emocional, intensa e bem-vinda, desde que seja presença, algo que que precisa ser entendido como incomparável em força, poder e potência.

Isso quer dizer que não há vida inteligente fora do outro, que sem você não vivo? Se puder, corra de gente assim. É ego disfarçado de argumento. É ameaça de dependência doente, é um meliante, vai te roubar coisas preciosas. Falo de algo mais difícil de construir, mas com um prazer tão inigualável que aceitar o comum depois disso, não, obrigado. Eu não poderia.

Aceitar viver fora do comum é uma escolha. Escolher é um ato impactante, um exercício de lucidez, algo acima de ganhos ou perdas, é você determinando quem você é, de quem você se trata e o que você quer dizer com sua existência. É um ato que reconheço em ti, se trata do que te dignifica, qual o significado do que existe em ti e o que te leva ao melhor da tua alma. Pra mim, é o amor. É a única lente? Não. É a mais fácil? Não. Há outras? Muitas. Vale pra todo mundo? Basta olhar para o mundo para ver que não.

A esquina é longe ou Tokyo é perto, depende da porta que se pretende abrir ou fechar. Isso não muda o fato da tua existência me alegrar por ser isso, tu e a tua existência. Em mim, isso é o resultado de entrega e do que se pode abrir mão em nome do amor que se dá ao outro. Abrir mão é aceitar que não há absolutos, não é coisa ou outra, seco ou molhado, sozinho ou acompanhado. É escolha de uma vida em detrimento às milhares de vidas possíveis, não se pode ter todas. Amar é algo que ofereço. Amar e proteger. Amar e acompanhar. Amar e crescer juntos. Amar e silenciar. Amar e manter vivo não o meu amor, mas o amor que te mantém em presença em mim, inclusive pelo amor que me entregas. Receber ou não esse presente é de foro íntimo. Há milhões de razões para aceitar ou negar o oferecido. Uma delas é, quem sabe, o fato de amarmos o mensageiro, mas a mensagem precise ser diferente da trazida. Acontece que é preciso cautela aí, já que uma mudança na mensagem altera o mensageiro a ponto de mandá-lo para lugares onde ele não possa mais ir.

Sendo isso um impasse, aquela encruzilhada clássica, em que termos se dá a questão? É razoável um ” você espera, viva enquanto espera, pode demorar mas espere, espere sem desesperar, espere, espero que você espere feliz”. Por outro lado afirmar que a coisa é simples como dizer “se tiver que esperar, não vou esperar, o pedido de espera não é um pedido de espera, mas sim a revelação de prioridades, onde quem espera não é desimportante, apenas não tem a importância que entendia possuir”. Isso seria tolo, mas a matéria prima da tolice é, justamente, o que garante sua existência. Aos sábios, que pensem e pensantes, abram rodas de conversas para saber o que, de fato, é o propósito das suas respirações e o que lhes tira o fôlego.

À alma que amo, meu amor incompleto, cheio de auto interesses e agendas de humanidades tão estúpidas quanto geniais. Feito de passeios não planejados, a dor lancinante de agora, a conversa difícil, a verdade que me baliza, o entendimento no sempre onde nasceu e no sempre em que vive. Apenas te digo que não vou conseguir mais voltar onde tudo doeu. Mas seja o que for preciso. Vá onde te complete a vida e a felicidade te alcance. Esteja plena de si, inteira e absoluta nas tuas experiências. A liberdade não é feita de decisões fáceis e exige defesa permanente, não a deixe por nada. O amor nos liberta para o outro porque nos aproxima, promove entendimentos impossíveis aos não amantes. Amar nos torna livres para ir e vir, ser e estar um com o outro. E, também, para não ser nem estar, nem ir ou vir. O amor não tem condicionantes. São os amantes que têm ou não têm o olhar, o valor, o desejo, o tempo e as circunstâncias para vivenciar ou para, ao contrário, construir à mão o dia a dia.