Barba Branca

Piratas, corsários e suas histórias ao longo dos 7 mares sempre me atraíram. O submundo marinheiro, os códigos de ética (haviam muitos), as táticas navais, as pequenas repúblicas que formavam enquanto eram consumidos goles e goles de rum ou vinho ruins. Piratas, mais do que os corsários, eram o mal assumido, o anti-sistema, o problema a ser eliminado. Tomavam pra si, à força, o que marujos e capitães regulares jamais teriam com seus parcos salários e adestrada ambição. Ladrões? Sim. Bandidos? Sem dúvida. Escrotos? A maioria. Mas havia algo de verdadeiro nas gangues piratas: o gosto pela pirataria. Ao contrário de quase todas as tripulações convencionais, não existia escravos entre eles. Todos estavam ali por vontade própria, elegiam seu comandante por meio de voto, dividiam o produto de saques através de um sofisticado sistema de atribuições, raramente guerrearam entre si. Claro, essa é a parte boa e até mesmo carregada de ensinamentos e valores como lealdade, aventura, espírito libertário e mesmo auto determinação. Mas pegava um pouco essa coisa deles viverem infringindo todas as leis da sua época. Roubavam, saqueavam e sacaneavam tipo muito e qualquer um. Os governos da França, Inglaterra, Estados Unidos, Espanha e de outros países faziam exatamente a mesma coisa, mas era governos constituídos, com direito à hiprocrisia. No entanto, entendo que algo errado não valida algo errado para justificar algo errado.

O ponto aqui é que existem pessoas com alma pirata, aquele sentido de aventura que as leva a tentar capturar o que deseja, nem que seja na marra. Sociopatas, psicopatas, narcisistas, violentos, empatia zero: piratas precisavam de terapia urgente. O problema é que podem querer o terapeuta só pra si, porque quando crianças bla bla bla.

Eu seria um pirata de butique, acho. Gosto de ter as coisas pelo esforço, os avanços formais são bons como vejo. Claro, há de se ter punho, mas calma lá, o outro tem suas prioridades, opiniões e direitos. Ou seja: péssimo discurso pirata. Aventura sim, mas sem a parte de tornar o outro refém. É preciso que venha e construa em mar aberto o que será a embarcação comum. Isso leva anos, carece de uma mistura rara de urgência e artesanato, 3 anos seriam um bom início. Viu? Também penso em resultado. Conquistar? Anran, mas não a ponto de querer tomar alguma coisa pra mim na base do me dá esse coiso aqui. Seria normal agir assim, no mundo pirata. Sequestrar você e pronto, questão resolvida. Não me falta ferramenta, nem coragem, o que sei é que piratas são paixões de curto prazo. Meu coração está em outros tesouros. Por isso acho que nunca me compararam a um pirata e posso entender o motivo, não sou um. Entretanto, tirando o bafo de onça e a falta de banho evidente, consigo entender essas vidas dedicadas à pirataria.

Corsários são um ponto de inflexão, já que são piratas a serviço de um Estado, o que é uma contradição em si. Piratas com carteirinha de pirata. Malvados, briguentos, ladrões e violentos, viviam de pilhar os piratas de verdade e devolver a maior parte do que conseguissem para o Estado que os patrocinava. Piratas com patrocínio, ora veja. Jamais simpatizei com o mais ou menos mocinho, o mais ou menos pirata. A vida já tem meio termo demais para digressões como “somos todos cheios de gradiências e ninguém é absoluto, essa história de bom ou ruim depende da mão que escreve”. Precisamos, ou pelo menos eu preciso, de um ponto fronteira, aquele momento que se ultrapassado, há pouco ou nada a fazer. Mesmo não sendo um, se você é visto como um pirata e não age como um, possivelmente seu destino é o degredo, o exílio e algumas mágoas. Mas entendo como respeitável a escolha entre pirata ou marinheiro regular. Já corsário é algo que merece a indiferença tanto do Estado quanto dos piratas, já que vive nessa zona intermediária, a dos bandidos com carteira assinada. Não dá pra ser as duas coisas, portanto. Tipo às vezes pirata, noutras marujo normal e a metáfora está me cansando. Sei que ambos gostariam de ter você no comando. Mas não se pode estar em dois lugares ao mesmo tempo e escolhas são feitas.

Ao fazer algo muito errado dentro das regras piratas, o acusado podia perder uma das orelhas, um dos dedos ou a única cabeça. Dependendo da gravidade da coisa, eram deixados à própria sorte em ilhas isoladas, onde possivelmente morreriam de fome, sede ou tédio. Brincadeira: não se tem notícia de algum pirata falecido por falta de confusões, brigas, arruaças ou susto. Em um livro que lembro às vezes, imaginei que a grande dúvida do personagem era se ele estava em uma ilha por conta de abandono ou naufrágio. Faz toda a diferença saber se o propósito do frio e do vento que lhe assombravam era que terminasse ali, até que o amor morresse de fome, sede ou solidão. Depois houve um resgate, tudo tornou-se outra história. Tanto, que foi escrito um outro livro, não uma continuação, mas a celebração da resistência, o encanto do encontro, o profundo do compartilhamento, o prazerosamente inevitável daquelas almas se tornassem melhores uma para a outra, tudo porque estavam juntas e o único motivo disso é porque esse era o seu desejo e seu lugar no cosmos. Quando algo é bom assim, atrai bandos de energias pirata, impondo a dúvida sobre a realidade simples e boa do afeto tido e compartilhado. Mas isso nem corsários, nem frotas regulares nem piratas podem roubar.

Aprendi a falar a tua lingua entendendo os ditos que saem da minha boca. Não pelo que se traduz, mas através dos apelos que trazem. Somos nossa vida predileta, entre tantas existências possíveis de se olhar ou viver. Diante de mim, há o Atlântico nesse momento inexato que acontece entre outros tempos acessíveis. E se fosse bombeiro, pediatra, dono de padaria, astronauta ou piloto de Fórmula 1? E se ficasse numa ilha cercada de amar a única você que existe? E se fosse escritor de contos infantis, soldadinho de chumbo, voluntário da pátria? E caso você fosse pediatra, projetista de ambientes, escultora de gente, dona daquelas tabacarias cheias de aromas incríveis, gostos sem fim, temperos e especiarias?

O destino das coisas não é o que tinha que ser. Nada é o que tinha que ser. Não há uma sina, um ponto final, um somos assim e pronto, um eu sou o que sou. Abrimos portas, fechamos janelas, podemos chegar e decidir não ficar sem o nosso par em Ithaca. Permanecemos -nem sempre serenos- entre o infinito do sempre e a beleza de tudo que nos faz perenes. Família, parceiro, filhos, primos distantes, tias chatas, mãe ausente, entorno, contornos, moldes, modelos, natais frustrados, gente que não veio, filmes não vistos, livros e pedidos de casamento. Vivemos cercados de momentos e portinholas da jornada. Ali, o design, dois filhos. Aqui, pesquisadores do fundo oceânico, 4 golfinhos. Noutra, decoração interior ou comercio exterior, 6 pontes de safena, uma casa pequena e 2 gatos siameses. Em um outro real, entendimento, muro baixo, asterisco e cherie latindo e manhosos, planos, sonhos e realizações, além imperfeições da vida, desejos atendidos e férias em lugares calmos. Jogador do Inter, pesquisador de aranhas, especialista em montanhas, marinheiro, cowboy, ilustrador, fundador do Green Peace, roteirista em Amsterdã.

Diante de tantas possibilidades, desconfiamos do que nos seja novo de fato. Então, finalmente resgatados, muitos se deixarão ficar nas ilhas dos seus fantasmas conhecidos, agarrados a sequestradores ou mesmo se juntando ao bando.

Nada mais triste do que a beleza renunciada. Viver se duvidando, desabitar-se, importunar o sossego. Nada é mais assustador do que estar do lado de fora dos risos, não se saber amando. No entanto, eis um segredo terrível. Eis um aviso que deveria apavorar tudo que vive num lugar no cosmos que não lhe pertença. Muito cuidado, porque é assustadoramente possível. ***

Bons amigos

Fico pensando sobre quando nasce um amigo, a possibilidade da amizade, o momento inaugural, quando ela inicia, quem corta a faixa inaugural daquele afeto sem afetação, de sentimento neutro, um ser com ouvido, ombro e sem sexo definido. Um bom amigo não tem olhos para os peitos, não desliza por eles, nem os deseja. Escuta, neutro, sobre o casamento? Escuta. E dá conselhos a respeito do melhor caminho a seguir para manter a relação rija e forte. Amigo é para as horas de apuros, desprovido de ciúmes, pau para quase toda obra e que aparece ou é chamado de vez em quando. Chega dizendo “há quanto tempo!”, e pronto, tudo certo. Amigo de fé e de fato é um bunker, a pessoa pra quem se liga às 3 da matina pra contar que conheceu alguém. Que perdeu alguém. Que perdeu-se da verdade que é amar alguém a ponto de não pensar -por absurdo- em lhe pedir em amizade. Amigo bamba diz na lata coisas que só amantes de um amor que abarca amizade são capazes de ofertar. Mas uma coisa é o amigo. E outra coisa é outra coisa. Porque amigo não se elege, é uma construção, uma narrativa. Ele surge depois que retiram do amante seu acervo de cantadas, arrancam qualquer faísca erótica que tenha, extirpam da boca os beijos e anulam seus objetos penetrantes, como a intimidade e o conhecimento sobre tudo que torna o outro um desigual, um raro, um absurdo inevitável, um alguém de quem não se quer ser amigo, mesmo que seja um bunker. Amigo de verdade tem amizade de sobra, inclusive aos fins de semana. E se vc não liga, ele não nota. Um amigo vai lhe apoiar em caso saúde em risco, lucidez em falta, perspectiva torta, hálito ruim, olho cansado, brotoeja, testemunhas de Jeová, cansaço generalizado, inapetência, incompetências, desajustes, juízo prejudicado. Um dos grandes baratos do amigo nato é que você não precisa pedir a pessoa em amizade, ela acontece, é bicho solto. E se precisa, tem algo que o prezado ou a prezada leitor ou leitura não entendeu como deveria. Quer ser meu amigo? Isso não é uma pergunta. É uma definição macro afetiva. A proposta pode ser ofensiva, caso haja um sujeito homem que ame a sujeita mulher, caso a sujeita mulher ame o sujeito homem ou os dois sujeitos tenham amor um pelo outro. Talvez a amizade resista depois do amor, não sei. Mas reconheço que amizade é um afeto fantástico. Como amigo, não aconselharia tentar ficar no setor amizade com alguém que se ama. Seria dar um prezo menor ao afeto entregue, uma consolação cruel. No fim, no calabouço dos grandes enganos, aprendemos a viver uns sem os outros, como crianças aprendem a parar de chorar: por desistência e alguma falta de ar. Um amigo não resolve isso. Acho que é o que me desabilita.

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Ninguém que pede um minuto da tua atenção gasta os 60 segundos solicitados, é sempre mais. Eu evito contato visual com essa gente, é um risco de cunho permanente, ainda mais em tempos de pandemia. Sei que será preciso enfrentar perdigotos, pequenos apertões no braço, cacoetes linguísticos de transição (“então em peguei e…”) O que ele teve de pegar e? Qual é o motivo para pegar e? “eu peguei e falei”. Eu peguei e fui. Eu peguei e perguntei. Aff!

Quem começa uma conversa com “quero dizer uma ou duas palavrinhas”, normalmente usa muito mais de cem, imagina metáforas ruins e citará algo da Bíblia. Estaremos cercados por um discurso de sumo duvidoso e, de modo geral, nem raso, nem largo, nem profundo, mais ou menos como Matrix 3 e 4. Corro disso como quem foge do Bolsonaro. É como se estivesse concentrado em viver o dia, um presente intenso e -ao mesmo tempo- leve e denso.

Em busca de paz, tenho suprimido carne do cardápio e ouvido muita música de artistas que chamo de artesanais. Aqueles que têm coisas pra dizer porque olham nos olhos da vida e resolveram dividir a experiência. Lupicínio Rodrigues foi pioneiro em sofrência e tem alguns clássicos no cartel. Em 1974, Lupi (um gaúcho boêmio, que aos fins de semana não saía de casa) foi gravado por Caetano. O autor do hino do Grêmio (ninguém é perfeito) trabalhou na Carris, a companhia de transporte municipal, antes da fama chegar. Você já cantarolou uma música dele? Que tal essa? Ele tem muito a dizer sobre o valor da inocência e os perigos da sua perda.

Felicidade foi-se embora
E a saudade no meu peito ainda mora
E é por isso que eu gosto lá de fora
Porque eu sei que a falsidade não vigora

Cartola, Catullo da Paixão Cearence, Geraldo Azevedo, Renato Teixeira, Pena Branca, Sueli Costa, Violeta Parra, Quinteto Armorial (que foi idealizado pelo Ariano Suassuna no seu movimento de cultura Armorial, que ligava o popular e o erudito em busca de uma arte tipicamente brasileira), Nelson Mota, Moreira da Silva, uma enxurrada de gente talentosa que cantava, escrevia, atuava, bebia, imaginava e que marcou a cultura original do Brasil. Eram artistas do simples, a arte mais complexa de se fazer porque é resultado de uma conexão sem intermediários, salamaleques e quetais com o sentimentos que embalam o mistério humano, como Sueli fez.

Só uma coisa me entristece
O beijo de amor que não roubei
A jura secreta que não fiz
A briga de amor que não causei
Nada do que posso me alucina
Tanto quanto o que não fiz
Nada do que eu quero me suprime
De que por não saber inda dão quis

Uia, não? Não se pode apreciar as coisas que não nos permitimos experimentar com o tempo e a profundidade necessárias. A canção Alma, do verso acima, termina lindo, verdadeiro e profundo assim:

só uma palavra me devora
Aquela que meu coração não diz
Sol que me cega
O que me faz infeliz
É o brilho do olhar
Que não sofri.

Eu estou tentando fazer um Rap e não quero algo pastel, como é o que penso que o Gabriel (o pensador) cria, terceirizado que é da realidade de onde vem um rap que mereça o nome. Pretendia algo preto, quebrada, coisa que o Emicida por ser quem é e viver o que viveu pode e consegue. É dele que vem uma afirmação intrigante, a que a serenidade é revolucionária. E não bastasse isso, ensina onde quer chegar com esse conceito.

A serenidade é a capacidade de criar em si o ambiente de calma necessário para refletir e escolher o melhor caminho a seguir

Não é não comer carne, nem praticar maindfulness, olhar docemente para as pessoas e falar “gratidão”, é outra coisa. Talvez seja estar sem perspectiva, sem grana, sem emprego, sem pai nem mãe, sem dormir, sem se sentir bem o tempo todo, mas ainda assim procurar o ambiente de calma necessário para refletir e escolher, escolhendo o riso possível, ainda que faça frio e a paisagem lembre Porto Alegre, uma cidade sombria. Isso custa caro, principalmente se o melhor caminho a seguir é isso, seguir fazendo o caminho. Então é claro que eu não vou parir um rap dos bons. Para ele nascer, é preciso transitar por experiências e estados de alma que não visitei. Como fazer, se não sei? Como expressar se não estive lá? Como construir algo sem a oportunidade de fato? Não é vitimização, prometo. É a estupefação diante do estupendo, o reconhecimento de que vidas conectadas ´são, em si e por conta disso, uma construção fora do comum. Quero dizer é que avançamos como quase ninguém seria capaz, construindo um reino que não está no passado, mas aqui e agora, vívido e forte. Quero comemorar isso porque se trata de reconhecer o óbvio do vivido, essa coisa gigante. Diante do tanto que é, daquilo que existe e do que evoluiu, apesar de tudo contra. É dessa forma que se faz a conta. Tentei entender para explicar isso quando Isabel Allende (que é peruana, não chilena de nascimento) me conta o que quero dizer.

“Todos nós temos demônios nos cantos escuros da alma, mas se os trouxermos à luz, os demônios encolherão, enfraquecerão, calarão a boca e finalmente nos deixarão sozinhos”.

( A ilha sob o mar)

É preciso receber os demônios, reconhece-los, conversar com eles, entender porque existem e porque nos assombram, integra-los. É um trabalho que ninguém pode fazer por nós. E que se não o realizarmos seremos as escolhas dos outros, o brilho de tristezas que não nos cabem e responsáveis por vidas que não nos pertencem. ***

Tradução

Sempre me intriga as conversas que temos. É como se elas fossem atalhos luxuosos para o entendimento, algo sempre tão urgente para n´ós e subdimensionado para tanta gente. Continuamente me surpreendo como escutadores aceitam e são mantidos nesse papel, como se suas vidas fossem planícies encantadas e seus estados de alma cantassem Don’t worry o dia inteiro. Escutadores perdem seu direito à lugar de fala, do desabafo puro e simples, aquela sensação de ahuhhhfffss depois de dividir o peso das horas com alguém de confiança.

Todo escutador contumaz parece mandar um recado ao mundo, o de não precisar falar, está tudo bem. E se aquietam por dentro. Alguns deixam de ter sono, incapazes que se tornam de sonhar. Talvez por isso deem tanta importância aos gestos que expressam seus desejos, precisam ser adivinhados, vistos, olhados, escutados naquilo que isso de significa de ´íntimo e de intimidade. Se não dispõem desse espaço, duvidam de aproximações reais, daquelas que tiram o fôlego porque são fala e escuta ao mesmo tempo. Então passam a tentar controles impossíveis, arrumam a mesa e retiram a louça, aquecem o chá, viram uma solidão bem arrumada, solícita e perfeitamente enquadrada nos sonhos alheios.

Penso que o que descrevo é a pior forma de exílio, quando você passa a ser ex-você mesmo. E escuta a empregada, do filho, marido, esposa, namorada, colégio, trabalho, dos prazos, da praia, da barriga, da briga, da reconciliação, do perdão, da dívida, dos créditos, do futuro, dos planos, do chefe, do amor. Acontece que toda fala é essencial porque nos humaniza. Servir de ouvinte, apenas, tira nuances importantes de uma conversa, algo que na base é troca de experiências e experimentações. Retire isso de um diálogo e estaremos falando de desentendimento, menos valia e uma certa dose de frustração.

Encontros entre iguais são uma roda de conversa. Permutamos então bobagens diversas, nossos caminhos secretos, confiamos sentimentos, discordamos, acendemos fogueiras aos afetos, contamos com o outro e para o outro o que somos naquele momento, o que nos falta e do que estamos plenos.

Escutar nos traduz. Falar nos representa. Declarar nos reproduz. Agir nos orienta. Nós, as pessoas, só existimos sem os nós que nos prendam. Nos somos melhores sem nós. E o que nos desata é a troca de uma boa conversa.

Recebi alguns pedidos a respeito da minha opinião sobre a letra de Mistérios, do Renato Teixeira. Vou dizer o que ela me conta. Se está certo ou não, quem sou eu? Renato é uma coisa de bom. Tenho ouvido muito sua obra nesses dias e encontro respostas em muitas das suas canções, como Mistério.

O poeta caipira fala que “o maior mistérios é ver mistérios”, como se não entendesse muito o motivo para tanta complexidade que observa no pensamento da nossa raça. Isso é reforçado pelo “ai de mim senhora natureza humana”, como quem lamenta tamanha vocação para o complicado.

O músico não diz que “eles” são assim. Reconhece que ele mesmo tem dificuldade no assunto quando mostra que gostaria de “olhar as coisas como são, quem dera”. E termina o verso com a continuação de um do desejo de “apreciar o simples que de tudo emana”, transformando a simplicidade na essência de todas as coisas.

No refrão (Nem tanto pelo encanto da palavra, mas pela beleza de se ter a fala), a profundidade do artista permanece intacta. No poema, a palavra é reconhecida como algo encantador, brilhante, inestimável. Mas falar, ah falar, poder se comunicar com o outro, isso é o simples do belo.

É por isso que te digo sempre. É um dizer não perfeito, mas é o que tenho a declarar.

Tuas palavras calam

Há gente que não precisa, ou necessita menos dos ditos. Eu gosto deles, que te aproximam e afastam, independente do significado que se dá aos gestos. Talvez porque a palavra expressa tenha o condão do pensei nisso e isso é o que sinto depois do pensado, o tal dito. Quem sabe seja porque é bom de ouvir, no tom de quem a gente quer bem, a palavra vinda. A não ser que seja algo desconfortável, aí todo som é ruído. No timbre da voz e no texto que ela porta, há tudo que se toma ou se teme, que se deseja ou precisamos evitar. Sei, às vezes precisamos evitar justamente o que se deseja, mas isso outro solo, para outras colheitas. Fico com o bem dito que são os dias vindos. O tempo encontrado. A coragem entonada. Todas as palavras são iguais. O que as transforma em especiais é a essência de quem emite, os encontros paridos, as palavras ditas são sentidas ou gemidas, omitidas ou geridas. São ninho onde crescem, sendo maternadas com carinho. Se expressam verdades. Porque se King discursasse “acho que tenho um sonho”, Seria diferente. Mas não, ele disse “eu tenho um sonho” para contar. E fez história com isso. Palavras existem para plantar dúvidas, semear conversas, discordar, declarar, duvidar, exigir, abrigar, pedir, perguntar, confirmar. Elas são uma demonstração inequívoca do que se pensa, sente, deseja, ressente, perdoa, alivia, contraria, emociona ou ama. Quando é você quem diz, quando eu escuto ou digo, palavra é um abrigo. Melhor, é vão. ***

O maior mistério é ver mistérios
Ai de mim senhora natureza humana
Olhar as coisas como são quem dera
E apreciar o simples que de tudo emana

Nem tanto pelo encanto da palavra
Mas pela beleza de se ter a fala

(Renato Teixeira)

Como saber se não digo?

Deve existir (ou deveria) existir uma porta no tempo onde está escrito “entre sem bater”. Ela dá acesso à Sala dos Esquecimentos, uma espécie de achados e perdidos da memória. A única condição para pertencerem à esse lugar é que os objetos, sensações, sentimentos, frases, qualquer coisa que seja viva, tenham sido levados

até ali pelas mãos da inocência. Depois que chegam e se acostumam com a luz em penumbra, passeiam por esse espaço não linear, contanto uns para os outros as suas jornadas, às vezes se consolando. Noutras, simplesmente escutando.

Não são histórias editáveis, como no mundo denso dos corpos, onde a vida é dublada, os diálogos são falas que vivem de aparências e mesmo as recordações se maquiam antes de entrar em cena. Entendo que posso pensar nisso motivado por mágoas, ego ou síndrome de abstinência. Sem problemas: reconheço que julgo decisões que me excluíram, ainda que saiba que todas as escolhas são legítimas, que não há peso absoluto, que definir é descartar todo o restante. Penso que um lugar pode ser lindo quando se está degredado. Ainda assim, mesmo que exuberante, é um exílio. Pronto, civilidade restaurada.

Na Sala dos Esquecimentos lembranças verdadeiras perdem a pressa, vivem fora do perigo da inexistência, da aceitação do menos, estão à salvo de silêncios cortantes, de febres estranhas, de queimaduras no deserto a que foram expostas. Mesmo que tenham sido tratados como inapropriados, inconvenientes, errados, feios ou inviáveis, tudo que existe na Sala dos Esquecimentos tem a alma das lembranças puras. O nome do lugar não esse porque vivem ali as coisas vivas que merecem permanecer existentes, mas lhes foi negado isso. Chama-se Sala dos Esquecimentos porque é onde esquecerão suas machucaduras, eliminações, desaparecimentos e abandonos. Um dia, quando prontos e restaurados dessas dores, reencarnam sob o anonimato do acaso, um acho que te conheço, uma pergunta sobre ilhas, esbarrões que dão início a uma conversa, presentes fora de hora, aromas, interesses, trocas, encontros, intensidades, admiração, amizade, confiança, cores, planos, sonhos, afetos, vocação, escolhas. Serão queridas de uma forma tão intensa que se tornarão escolhidas como valor, identidade ou propósito.

Quase tudo da minha arquitetura pessoal veio abaixo nos últimos tempos. Perdi referências importantes, gente que se foi. Projetos, planos e sonhos essenciais não encontram a terra prometida, tudo com minha assinatura, autorização e autoria. Não trato disso aqui para qualquer ação de consolo, coisa que de fato não quero. Primeiro porque não há consolo. Depois porque não há vítimas, nem o caminho fácil do vitimismo. Finalmente, porque se abriu uma cratera tão grande em mim que mais parece um leito de rio, um caminho aberto à força. Encontro, entre surpreso e assustado, um pedaço de uma casa com janela azul e lugar especial para leitura. Há livros espalhados em cima de uma poltrona de couro que parecia ser bem aconchegante. Cartões de embarque para viagens diversas. Certificados de cursos. Agendas de compromissos em comum. Resumos de anotações sobre filmes e séries, entendimento de livros, trechos de entrevistas, podcasts. Encontrei um quadro todo branco, simbolizando o futuro em construção. Restos de bilhetes. Tateio, entre insensibilizado e confuso, o semblante de estátuas aos cães que mais amei. Choro meus mortos e me conforto sem me conformar. Contorno escombros e quase tudo é automático, do acordar ao acordar, entre tantos desacordos. No entanto, estou aqui, vivo e apto. Algo pulsa e não é o coração, nem começará aqui um texto motivacional. O que acontece é de outra monta, outra natureza, outra coisa. Não se trata de otimismo ou esperança, é diverso disso. Tem sons, são músicas conhecidas, minha play list. São perguntas como já disse hoje? São sinais asterísticos, calendários próprios, textos do Mãe, mãos bailarinas, cheiro de terra molhada, parque das águas, bosque do Papa, abraços, pedaços de riso, gozo multiplicado, Natal fora de hora, entendimento, é tudo muito misturado, tudo muito real, tudo muito inocente. É quando durmo que encontro esse portal. Há uma porta de cores fortes, entre azul e amarelo, onde está escrito “entre sem bater”. Eu não bato e entro. E fico ali, conversando com as lembranças que vivem na Sala dos Esquecimentos. ***

sobre um poema

“Cantiga para não Morrer” foi escrita em Moscou, por Ferreira Gullar. Por mim, ele poderia ter ficado na linda frase “a arte existe porque a vida não basta”. Já teria valido o ingresso, com direito a aplauso de pé, mas não. O artista embeleza o dia frio, emoldura a tristeza e resiste à despedida certa com um afeto-poeta, quase um pedido de exílio na alma da amada.

Quando você for se embora,

moça branca como a neve,

me leve

O poema é uma declaração de amor, também uma despedida, mas (acima de tudo), descreve um pedido quase implorado de existência para o outro. É como se Gullar, lentamente, abrisse mão de qualquer coisa para permanecer vivo de alguma forma naquele afeto.

Se acaso você não possa

me carregar pela mão,

menina branca de neve,

me leve no coração 

A separação é inevitável, pelas circunstâncias de ambos. Ferreira, um exilado que não pode mais ficar na Rússia. A moça branca de neve seguirá para Mongólia (não sei se o poeta brinca ou não ao tratá-la de “branca de neve”. É uma referência ao inverno russo ou ao personagem do Disney?). Segundo ele mesmo, nevava quando ambos se despediram e no dia em que o poema foi feito. Não se verão mais, mas há sempre a possibilidade da lembrança como forma de resistência.

Se no coração não possa
por acaso me levar,
moça de sonho e de neve,
me leve no seu lembrar. 

Gullar deixa escapar em uma entrevista que ela pede por sua volta, o que não aconteceria. Diz isso de um modo impassível, como quem só consegue lidar com aquilo sem lidar, apenas indo.

E se aí também não possa
por tanta coisa que leve
já viva em seu pensamento,
menina branca de neve,
me leve no esquecimento.

momento zero

passei o dia repassando os dias. descobri, escarafunchando lembranças, que tenho pequenas felicidades guardadas. coisinhas, panos de prato bordados. uma bailarina que se aposentou, um dedal, um livro sobre cortes e costuras. existe um muro branco cercando um quintal onde late um cão bondoso, como quem diz te espero ao fim de tarde sentado, faminto, cercado de pó e grama, me traga ossos e novidades. nasceu um pé de inocência que se juntou às sementes de confiança, brotou uma canção e olhei no olho da vida, sorvendo, aprendendo seus silvos, sinais e guizos.

num ano tão enclausurado, cheio de máscaras e opiniões, o que houve foi festa de encontro, entrega de alma, bicicleta, um parque nas águas, um dique nas mágoas, um riso entre tantos entretantos.

nada se foi, porque ir sugere um lugar específico. onde estou é gratidão, fora do alcance de culpas, sem o julgar do perdão. teve temporal feio, ouvi vento forte, mas o vão (onde só cabe amor) é tão amplo e profundo, o que temer? e porque?

é tão impreciso te agradecer. se faço é mais como uma forma de dizer estou bem, o que é metade do que você precisa para dormir em paz, como na Valsinha.

***

quandos

Quando escrevo, não penso em nada específico. Sento, me pergunto o que estou vendo, olho dentro e então descrevo o que estou vivendo. Há um lápis na minha mesa. Não é uma metáfora. É um lápis, é uma raiva, o pastel, O Jeep Ximbica do meu pai (que adoraria você) um lugar, o Papa, todos os Golden Retrievers do mundo (ou pelo menos os mais fofos) uivando em noites enluaradas. Sou um Especial do Roberto, de tantas Emoções.

Quando sofro, não pretendo que sofram por mim e nem aceito que me consolem. E se dispenso isso não é por estima musculosa. A minha é bem chinfrim, inclusive. Mas não suporto a comiseração alheia, o gesto bondoso, bem educado e elegante de quem entende o que se passa. Não entendem, nem passam. Portanto, que não se chore por alguém assim, que prefere saber de onde vem o tiro, o seco da resposta, a rasteira certa, o cotovelo na cara. O sofrimento é menor se entendo autorias.  Durante e estocada, é irritante que sintam muito por mim.  Se sentem, não é por mim, ou não me escolheriam para experimentar a lâmina. É o que é pode até parecer uma expressão serena, vinda de um autor calmo e translúcido. Ou pode ser a constatação de que uma faca enfiada dói.

Quando rio é ruidoso, quebra o silêncio de um modo espetacular. Rio em horas inadequadas também. As gargalhadas que profiro provocam dúvida, prefiro causar a interrogação a buscar respostas. Mas se ele está rindo tanto, a diversão é imensa, concluem. Ele está calmo, que pessoa sensata e serena. E ri, olha que engraçado. Meu riso não concorda com o que escrevo, mas não escrevo quando estou rindo. Só escrevo o que existe no ventre do que estou sentindo.

Quando morro é eterno. Morro inteiro. Padeço. Imolo. Grito e me sufoco. Mas é só quando morro. Nos outros dias, subscrevo ideias. Organizo eventos. Movimento a resistência. Subverto equações e durmo no leito de um riacho, vigiado por um abraço sem hora do desabraço.  Mas dada a sentença, lido, aguento, enfrento, peço, perco e parto, me partindo em mil pedaços assimétricos, parindo em mim mil partes desiguais.

Quando sou, sou inteiro. Então escrevo sou inteiro, eis o que sou, inteiro. Inteiramente descrito. Completamente oco. Particularmente ferido. Inteiro lanhado, inteiro doído, inteiro felizardo, inteiro vivido. Inteiro no escuro de um quarto. Um inteiro repetindo as dores do parto.