O entorno nos torna?

mariel fernandes.entorno

Relembro da chegada, a festa do reconhecimento, a saída para a estratosfera.Tudo era espaço, um grande passo para a humanidade, o início do espanto e o fim da espera. Revejo a alma enluarada, as esperanças estreladas, as mãos bailarinas. Tudo era espaço, abraços feitos de eternidade, a noite e seu misterioso manto, o infinito descansando no seu canto mais bonito. Refaço o caminho de volta, o ar me falta, a gravidade é zero, vejo os mapas e planos de voos. Tudo era espaço e mistura, curiosidade, portais sobre o sempre, e sobre o nunca mais. Resisti aos ventos das tempestades, ao rugir das saudades, aos silenciosos dias das névoas, à terra dos corpos andantes. Tudo foi para o espaço tortuoso onde a existência passa, onde o tempo desespera e onde o coração se desencontra da primavera. Retirado dos escombros, reaprendo os passos, tremo ainda, mas a vida já não se retira. Algo em mim respira, ainda que caminhe lento. Tudo agora é espaço, sereno e denso que troca, que toca, que bomba. Um tempo de águas. Um tempo de sombras. Um tempo que sobra, o destemperado tempo que faz de si mesmo sua melhor obra.

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Nos representem

Queremos confiar em vocês, rapazes. E meninas, se comportem bem, pode ser? Pelo que vi, nenhum de vocês têm dúvida sobre qualquer assunto. Quanto a isso, por que o medo? É bom não saber, a ignorância pode ser uma maravilha. Nos inspira a pedir informações, falar com pessoas ou, pelo menos, pesquisar no Google. Também não pude deixar de notar a quantidade de opiniões definitivas que cada um é capaz de afirmar sem tirar o olho confiante e o sorriso vencedor da câmera. Do preço do tomate a vaiar ou não vaiar o Fred, vocês sabem tudo, é impressionante. Não olhem agora, mas conhecimento, sozinho, vai fazer pouca coisa por nós. É que o truque de entregar espelhinho e levar o ouro meio que ficou manjado e agora queremos confiar. Eu confio em quem tem dúvidas, em gente capaz de se referenciar na humanidade e não em si mesmo, em pessoas que não possuem todas as respostas. Não confundam isso com amadores, aventureiros e os picareta (não usei o “s” para ser sutil) que lotearam o Brasil. Falo de brasileiros, essas almas gentis que vocês desaprenderam a fazer parte. Conto dessa tribo capaz de dividir os segredos das matas, as mesmas que vocês foram capazes de vender por um punhado de papel de valor duvidoso. Descrevo uma torcida, queremos nos abraçar a vocês, caso sejam de verdade. Sei, é uma pleonasmo usar verdade e candidatos na mesma frase, mas sempre fui abusado. Meninos e meninas, o poder vai marca-los. Dilma ficou ressentida, não ergueram a ela as estátuas que julga merecer. Lula a chamou de poste que ilumina o Brasil e parece que a conta da luz ficou salgada. Marina é a heróica. O problema com os heróis é que eles podem se deslumbrar com seus super poderes. Mas confesso que acho que vai ser divertido ver os ministros abraçando árvores antes do expediente. O Aécio é uma incógnita, parece aqueles garotos que só jogam porque são os donos da bola. Depois, me dá a impressão que antes de dormir ele liga pro FHC, pede benção e toma uma bronca. O restante é uma piada e de piada, Dunga é o bastante. Mas um dos 3 vai ganhar. Que parem de representar e comecem a nos representar. Verão que algo indescritível acontece. É quando surge um Sobral, uma Elis, um Betinho, um Romário, o Brasil. Se inspirem nos brasileiros. Os representem. Pensem neles, não por eles. Então, dentro de algum tempo, vocês verão que não sabiam todas as respostas, mas que isso não nos impediu de escolher quem sabia pra onde não estava indo.

Pra não dizer que não falei das bananas

planeta

Uga, uga, uga!

Estamos na selva, no meio de um tango argentino, as perguntas são cheias de prudência e as respostas repletas de fitas, embaladas pra presente. Retiram os rins uns dos outros, se enfiam facas de um jeito educado, mas algo é certo: um deles dorme pelado.

Eles sabem números, são bilhões, quanquilhintões, uma facilidade impressionante com cifras, um parentesco fantástico com abreviaturas. O BRDA, o SNDZ, o Índice PLA, o caminho do zen. Se engalfinham sorridentes, uga, uga, uga. Querem ser os reis da floresta, a tribo escolhida, os guias supremos dos macacos sem dentes.

Se acusam, se desculpam, procuram piolhos uns nos outros. Batem as mãos nos peitos, uga, uga, uga. Comem qualquer rango sorrindo, cruzam –seguros, maduros e firmes- pelas portas que não vemos, eles têm as chaves dos portais. E nós, os súditos tropicais de um reino supimpa, gritamos hosanas (na falta do Obama), sonhando virar o califado encantado da Xuxa.

Então os dispenso. Não lutem por mim. Não me apontem caminhos. Não me mandem relatórios secretos, se são contra ou a favor da natureza ou do concreto, se sabem da chuva ou vivem de previsões. Nós nos divertimos. Existimos no trabalho. Resistimos nas risadas, muitas causada na imagem hilariante dos debates sem sentido entre vocês. Mando lembranças aqui da República da Macacada de Xanadu. Talvez ninguém nos conheça. Mas a gente sabe quando o rei está nu.

Avoados

marielfernandes.nada.novo.sob.o.so.Voam aos pares. Não sei se conhecem seus destinos, caso tenham algum. Apenas vão se dando ares e graças, tudo passa, tudo repousa enquanto a vida pulsa, pousa ou apenas voa. Juro, não invejo suas asas, faço outras viagens, meus olhares são outros. Mas fico sem fala quando vejo aquela seta natural, um na frente, exuberante. O rasante, o espaço dominado, um ao lado do outro ao lado de um, alados se entendem. Trocam de lugar, cedem espaços, são pedacinhos da paisagem, os passarinhos libertos de tudo que há de apressado, de excesso ou opulento. Trazem o vento de todas as estações em suas asas, a urgência ignorada. Se revezam, abrem espaços, fazem piruetas, trocam de lugar, cedem, cantam. Não vivem correndo, não existem discorrendo sobre as coisas que deveriam ter:  ser ou não ser não é uma questão. Nada os apressa, nem sol nem luares. Existem por si mesmos, vivem as pares, não pensam no passado e clareiam  as tardes, os iluminados.

Poeminha diet

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O problema da greve de fome em geral e dos regimes em particular é que ambos dão uma fome do cão. Já na primeira hora, me aparece a imagem do pão francês, um bife no meio e uma pimenta disfarçada de recheio. Vade retrum, arroz com linguiça. Xô, café com leite e pastel feito no azeite borbulhante. Doce, passe adiante. Fora, feijoada. Picanha? Nem se for só maminha na mostarda. No lugar da dieta, eu andava de bicicleta, mas Deus tinha outros planos, todos carbo zero. O velho coração já não aguenta aquela costela, aquele cupim e fora daqui, polenta. Pipoca, esqueça. Sopa? aqueça. Salaminho, aquele abraço. Carreteiro, só as vezes. E enquanto o caminhar não volte ao normal e a cintura reapareça, mande um abraço ao sal. Não adianta comer escondido um escondidinho no aperitivo. Nem chamar a comida pelo diminutivo. Levantar o mindinho enquanto se alimenta não realiza o desejo de transformar radite em pão de queijo. Pensei agora numa palavra difícil e disse quiça, mas pensei mesmo em pizza. E os doces, o pão de mel, o arroz doce, a goiabada, a maçã caramelada, a salada de fruta com creme de leite? O bolo de farofa com banana, como chama? O feito de chocolate, a torta alemã? Meu médico que me desculpe, mas regime só segunda de manhã.