Disse

. Passo ao largo, me arremesso do gesto comum, não dou a mão para frases feitas, nem sei onde dormem as almas distraídas de si. 

.. De onde vim também veio uma réstia de sol, um solavanco, um pó seco, uma toada mais dura, pouco poema. Desde que me deixem quieto, tudo bem barulho. 

… Já disse hoje, te pergunto (mesmo sabendo a resposta) que me recebe calado. Já te disse hoje, contrariado. Já te disse hoje de pressão baixa. Já te disse hoje de mil jeitos itinerantes, disse hoje muito mais do que antes.   

ovos de serpente

Bolsonaro e Lula não são antagônicos. Tentar fazê-los representes de direita, esquerda ou qualquer outro viés ideológico, como vejo, é ignorar uma agenda gigantescamente maior e muito menos interessada sobre de que lado se sentam os burgueses e os trabalhadores braçais.

Bolsonaro é um ex-militar, saído sem honras de lá. Nega as torturas, exalta os torturadores, afirma que deveriam ter sido mortos pelo menos 30 mil ativistas no Brasil (como fez a Argentina) é amigo de assassinos, mora no mesmo condomínio do miliciano envolvido na morte de Marielle, sua mulher recebeu uma grana do Queiros, que teoricamente devia ao Bolsonaro pai. O mesmo Queirós da rachadinhas, o mesmo que foi acobertado pelo advogado do presidente. Bolsonaro, o sujeito que compra casas, apartamentos, carros e paga tudo em dinheiro vivo. Bolsonaro, o cara que mexeu mais de 10 vezes no comando da Polícia Federal. N˜ão, Bolsonaro, não está ok isso daí.

Ele condecora matadores profissionais,  pergunta por quanto tempo vamos chorar feito maricas pelas mortes na pandemia, troça dos mortos, diz que não é coveiro para conta-los, faz da atração pela morte um mote de campanha, a arminha, o nojo, o escárnio, o desprezo por negros, mulheres, pobres e humilhados em geral.  Não é por tirar investimentos da educação, sa´úde, cultura, ciência. Por gastar milhões em cartões corporativos para férias e descansos enquanto gente que votou nele morre solenemente ignorada. Por ter condenado dezenas a morte por sufocamento no Amazonas, onde as pessoas faleciam porque não havia oxigênio e o ministro do Presidente não aceitou o produto oferecido pela Venezuela. Ele poderia ter salvo centenas, mas a atração por morte e o desprezo pela vida falaram mais alto.

Depois das demonstrações probatórias de pouco caso, corrupção, incompetência e roubo expostas na CPI do Covid, sinceramente, não sei como não estão todos presos.

Tosco,  com capacidade cognitiva ofuscada e cercado por uma uma turba de bajuladores, bêbados, encostados, miliantes, gente da pior espécie de intensões, eis sua habilidade maior: nos dividir entre apoiadores de um circo de horror, onde morrem pessoas e opositores cuja opção é o abraço com o atraso.

É o que penso de Lula, o atraso com carisma. A mentira autorizada. A tristeza vencendo a esperança. O que é pior? Pior é saber que seja quem for o vencedor (acho que será o Lula), há mil tons de cinza para o que enfrentaremos. Lula passará 4 anos dizendo que foi injustiçado e não foi. Há indícios claros de (no mínimo) sua conivência com o esquema de assalto ao Brasil. Lula quase foi pego, ainda que chegasse a ser preso. Acontece que um juiz  de primeira instância cometeu faltas graves no processo, junto com um procurador sempre falante demais, vaidoso demais e usuário demais do Telegram. Ambos tentam se candidatar e amealham a humilhação de andarem agora ao lado  de pessoas de quem qualquer um protege a carteira, quando perto.

Há claros sinais da presença do crime organizado em atividades empresariais diversas, mas não só ali. Por anos, o crime bancou estudos de acadêmicos nas mais diversas hostes do conhecimento. Estão agora nas assembleias, no congresso, no judiciário e obviamente no executivo e nas forcas armadas, sempre tão orgulhosas de si mesmas. O crime está vencendo licitações enquanto vende drogas, cita Kant durante festas estranhas, regadas a vinho de gosto duvidoso e Cinzano original. Um dia perguntaram a um especialista qual seria o futuro da nossa democracia. Ele respondeu que dependeria  de qual seria o futuro dos torturadores. Aqui, eles foram anistiados e hoje desenterramos mais dois corpos. Um repórter inglês e um indigenista brasileiro foram brutalmente mortos, depois queimados e esquartejados. O nojo que as declarações desse bicho que está na presidência deu, tiveram o condão de me trazer lembranças amargas e passo mal.

Como é possível que se admita a possiblidade de votar em alguém assim? Por outro lado, como erramos tanto a ponto do Lula não ser uma alternativa, mas aparentemente a única alternativa entre os humanos do Brasil? Lula é um péssimo recado que daremos para nós mesmos. Mas votar no Bolsonaro é escolher a barbárie, a milícia, o engodo, a baba no canto da boca, a aniquilação física do que for contrário, sempre com requintes de crueldade. Bolsonaro é um ovo de serpente incontrolável. Não o aquecerei em minhas mãos. 

***          

Deus tem eu no meio

Fica boa sob tela: você é um unicórnio

Começou não sei bem como. Esqueci, tinha uns 3 minutos de vida, talvez menos. Não sou muito bom com lembranças. Mas penso aqui que o útero foi um lugar legal, porque gosto de espaços pequenos e quentinhos, falam muito isso dos ventres maternos. Depois, estava sozinho ali naquela água morninha e boa, dizem que é assim. O senso de observação e um certo gosto por estar à sós comigo mesmo veio depois. Talvez porque me esgueirava pelo bairro, evitando turmas. Talvez porque me escondesse em casa, ficando longe da confusão com 5 irmãos mais velhos. Embaixo da cama, então era bom. Na árvore japonesa, bem bom. Na escola, era o magrinho que gostava de correr e tinha o cabelo cortado tipo milico, o que me deixava parecido com um galho com topete. Dificilmente você é convidado para festanças com essas características. Minha primeira namorada foi a Juçara, assim, com ç. Depois descobri que a recíproca não era verdadeira. Era a minha namorada e de quem mais tivesse a habilidade de levá-la ao Cine Regente aos domingos. Quem soubesse respirar saberia também levantar os R$ 0,50 do ingresso. Juçara, Juçara. 

Não falo tudo isso porque tenha alguma conta a ajustar com o passado. Tenho, mas não se trata disso aqui. É mais para entender que fiz teatro (não exatamente fiz e não exatamente teatro, era mais um jeito de não estar nas coisas). Que me tornei um especialista em não falar e um doido para saber das pessoas. Me tornei um escutador de primeira, não por bondade ou outra virtude qualquer, mas por desejo de ser aceito. Eu aprendia os outros. Captava os sinais, um movimento minúsculo aqui, outro maiúsculo ali, os olhares, as senhas escondidas em palavras comuns, intensões e formatos de rosto. Persigo até hoje os roteiristas, tentando entender o que ele apronta antes dos personagens agirem. Se aquilo se torna fácil, perco o interesse. Mas se na última cena eu entendo que o garoto que vê gente morta estava o tempo todo falando com um morto, fico brigando comigo por não ter antecipado o truque. 

Quem não me conhece e me vê dirigindo, falando, conhecendo gente, comandando equipes, formando times, orientando pessoas ou sendo direcionado na criação de algo, não entenderá minha expansividade. E só os próximos entenderão que não se trata, exatamente, de alguém extremamente no centro do palco. Foi você quem entendeu que o centro do palco é o lugar do personagem, não do ator. Isso não me faz bom ou mal, melhor ou pior do que alguém outro. Não são menos verdadeiros os elogios ou insinceras as críticas. Afetos não finjo. O interesse é real, a ilusão é me imaginar liberado, fácil, compreensivo e são em tempo integral. É o contrário. Sou mega travado, complexo e em luta constante com as loucuras que assisto. Não é só divertido, mas é só. O que tento te contar é que não sei me contar direito, descrevo o que sou e o que subscrevo o que vejo. Me esqueço, me aqueço, estar é um zig zag entre o feliz e o padeço. O que conto é que contas em mim, adições diversas, somas totais, pouca diminuição, muito extrato, muito suco, muita goiaba enclausurada, muito infinito em fresta, muita festa em minutos, muitos assuntos, muita conversa, ser e não ser é a nossa questão, mas não do jeito que o escritor inglês pensou. Nunca é do jeito que os escritores pensam. Para escrever, penso, é precioso entender que no momento em que digo, é outra coisa no teu ouvido. Somos estranhos o tempo todo, portando, mutantes, amantes, silentes, vacilantes, humanos e às vezes você me põe louco. Ao mesmo tempo, a distância se torna um caminhar manco e quero te dizer que o Inter ganhou do Flamengo. Se estamos longe? Estamos longe de não nos amar. *** 8 deitado.

 

Portall

Parceiros são carne e massa de pastel, uma delicia inseparável. Arrumam programas, desarrumam camas, silenciam às vezes, cortam um dobrado, riem muito, mas não de tudo, que rir de tudo é desespero.

Estão inteiros ali, os parceiros. Audazes, iluminatis, táteis, acessórios um do outro, basculantes, decoração, portas de almas cruzantes, se existem depois, durante e antes. Algo lhes falta essencialmente, se longe do que lhes fornece régua e referências. Não são monges, mesmo os budistas. Nem são perfeitos, que ideia. Alguns são feios, por isso são tão lindos os parceiros que encaram todo tipo de solidão que tenha propósito. E isso não havendo é quando entram em extinção, incendiando-se mas por um motivo quase tão triste quanto a solidão. Te conhece no olho, no jeito que desce do carro, parceiros têm balinha, fazem bolo, parceiro tem um pouco de sábio, um tanto de bronco, muito de tolo. Alguns são românticos, nenhum é de pedra, a maioria troca teu humor contido por um bom abraço na esquina, desde que seja teu. Somem se os mantemos ao largo e voltam se tivermos sorte. São nossos melhores momentos e talvez partam nos levando algo que nos fará falta por mais festa que haja em nossa volta. *8*

Bunker

Quem estará nas trincheiras ao teu lado?
‐ E isso importa?
‐ Mais do que a própria guerra.

Você me acalma, alma, você me acalma. 

Ainda que me confunda (mar tem onda), 

mesmo assim, estamos de acordo que me 

acordas e não há nós nos amarrando 

a nada. 

Que eu te acalme, alma, que te acalme.

Ainda que te aponte os escombros

que te escondem a face, mesmo assim 

(ou por isso mesmo) nos tornamos 

residentes mútuos, moradores um do 

outro

Nos tornamos. 

Tornamos a nós. 

Sou casa, 

você vive

na morada. ***

Gasparzinho

Há fantasmas de todos os tipos. São como apelidos: quanto mais negados, mais pegam. Proibidos, nos assustarão por uma vida inteira. A tradução que fazemos de um comentário, de uma cena, as frases que ouvimos repetidamente, as vezes que erramos diante de todos e riram. Não da cambalhota, mas do tombo, do som, do jeito, da gente. Quando fomos pegos de surpresa em fraquezas. Quando algo não aconteceu e deveria. Quando algo adconteceu e não deveria. Quando a bola estava na linha do gol e dei de bico pra fora.  

Todos os fatos da existência são fundamentais. Mas aqueles da infância, nossa. Eles se transformam em crenças e agem em nós como uma segunda pele, viram cacoete, montam cenários e moldam circunstâncias. São um tipo de guia cego se não nos ensinamos caminhos novos.  

Os fantasmas que acreditamos sobrevivem da escuridão, dependem dela. Estão em todo não que recebemos, retransmissores que são dos nãos dos bailinhos, o não do visto, os não do aumento, o não espere, o não conte, o não se apegue. 

Um dos meus heróis da juventude atendia pelo nome de Fantasma, o espírito que anda. Ele vivia na Ilha da Caveira e combatia o mal com inteligência e boas doses de sorte. Lembrei disso agora, enquanto escrevo sobre o ectoplasma emocional dos fantasmas do cotidiano. Meu desejo determina o que procuro ou as coisas que sonho ou quero são um desvio estratégico de tudo que não sei se posso alcançar?

Gasparzinho era um fantasminha legal. Lembro de adorar os desenhos dele ajudando os humanos contra uma turma do mal. Eu, que quase sempre torci pelo bandido de chapéu, gostava do Gasparzinho. Via nele um espelho talvez. Alguém deslocado do seu meio, quem sabe fosse essa a identificação. Sei que levei um tempão domesticando raivas, entendendo dores, olhando o mundo como um fantasma, de longe, do outro lado do balcão, no lado incerto do ringue. Mas também era dali que via o que poucos percebiam, alguns milagres me encantavam, gestos me surpreendiam, a humanidade se aproximou e me vieste entre todos. Entre tantos, eu. ***

Sem

“Sem” é o tema de hoje do Repensando Bem. Clique aqui. Então você pode ler todo o sentimento descrito, além de toda a tradução possível em imagens. Quem puder seguir, tem o meu obrigado. Que o feriado nos descanse.

Entre o top e o secret

meu bem-me-quer

Suely Costa, em uma das suas muitas composições, lamenta que só uma palavra me devora, é aquela que meu coração não diz”. 

Renato Teixeira, entre desanimado e triste, já declamou coisas como “a barra do amor é que ele anda meio ermo. A barra da morte é que ela não tem meio-termo”. O lindo poema é parte da obra de Cacaso, professor e letrista dos bons, que se foi em 1987. 

Nas criações de Sueli e de Cacaso há muita consternação e não faço aqui um julgamento ou comparações entre os dois. Procuro mais é tirar das observações deles alguma lição escondida ao meu olhar curto e seco. 

O que me ocorre é que podemos nos transmutar em seres com relações secretas. Não no sentido de proibidas, escondidas, imanifestas. Também isso, mas não só isso. 

Falo de secretas para o outro, aquilo que o teu coração não diz, como afirma Sueli Costa. Ao calar sobre o que precisamos ou ao deixar de agir em sintonia com o que o outro carece e que poderíamos fazer sem prejuízo de nós mesmos, corremos o risco de nos tornar sabotadores de afetos genuínos e bons. 

Dizer em demasia pode ser incômodo. Demonstrar demais talvez cause desconforto. Tudo que acanha ou sufoca precisa de correção e limite. Mas e quando não dizer transforma o fértil em árido? E se continuamente tornarmos normal uma postura que condena o outro a dias de silenciosa desimportância? Deixar o amor ao ermo é condená-lo à morte, que não tem meio termo, como alerta Cacaso.  

É importante entender as relações secretas que criamos quando rotinizamos o não recebimento do que nos nutre ou se não falarmos sobre o que nos exaure. Podemos fazer isso continuamente e se não nos avisarmos,  prosseguiremos fazendo e isso não precisa, nem pode ser assim mais.

Se nos retiram coisas. Se deixamos de entregar outras, os encontros escasseiam. Mudanças são adiadas. Projetos empacam. Romantismos recebem vaias. Reduções são feitas. Indiferenças são minimizadas. Afetos começam a sofrer de reumatismo e não surgem providências no horizonte. O que pode acontecer em seguida é que o desânimo ou a mágoa condenem à forca a parte mais importante de nós, que é a capacidade de amar e de receber amor. Não se engane: não há nada mais importante para se conhecer em vida. Ao largo do amar e do receber amor, nos convenceremos que é o dia a dia, que é o mercado de valores, o trabalho, a aspereza do tempo, a falta de tempo, o excesso de tempo, a inexistência do tempo, a impermanência do tempo e a ação do tempo. Então cai o temporal. E entenderemos que somos assim mesmo. Que não precisamos. Que o outro não ajuda. Eventualmente nos chegam pedidos explícitos de auxilio, verbalizações, aquilo não era um treinamento, foi dito e solicitado contato, de retomada, porque pelas nuvens se pode ver o tipo de clima. Se deixamos que o essencial sejam outras coisas e não a construção de relações não secretas, cairemos sem asas no abismo do é assim mesmo. É o mercado. Não deu pra fazer nada. Está quente. Esfriou. Outro dia. Não pude, não comentei, não li, não fui, não tornei possível, é isso, ficou pra depois. Então o amor, que deveria receber tratamento de chefe de estado, ganha às vezes uma nesga de atenção, uma palavra mais aquecida, um gesto, apresenta um símbolo, mostra um sinal inequívoco da sua essência e assim enfrenta os invernos e ventos uivantes que o torturam.

Mas, como diria Sueli costa, “nada do que posso me alucina tanto quando o que não fiz”. O que fazemos (e o que deixamos de fazer) se manifestará de formas diversas. Somos autores da nossa realidade. Talvez isso explique os distanciamentos, as separações, o sucesso de coisas que são medíocres e o fracasso do que poderia ser genial. Os dois polos são inaceitáveis e não há possibilidade de conciliação entre elas, não mais. Não sem a morte do nuclear que nos diferencia, algo ainda mais temoroso de se viver sem eu, você ou nós.

Então te sirvo Neruda e seu conhecimento profundo do amor, das asperezas dos distanciamentos e da importância de unirmos luz com mais luz, iluminando as nossas sombras, sempre tão prontas a conspirarem contra nós mesmos.  ***

Algum dia, em qualquer parte, em qualquer lugar, indefectivelmente, encontrar-te-ás a ti mesmo. E essa, só essa, pode ser a mais feliz ou a mais amarga das tuas horas.”

Infimnito

” 8 é o infinito de pé “

Não existem tempos amenos se tais serenidades não resistam a trovões, chuvas e mesmo às tempestades. Não existem tempos pacíficos construídos aos gritos, nem acordos dignos assinados sob força bruta e desumanizada.

Tempo é uma passagem. Seu trabalho lapida montanhas e vidas para as encaixar às novidades que rascunhamos e que se aperfeiçoam na realidade. Algo não dura por resistir ao tempo, mas por se saber instável, sujeito a retoques e, mesmo assim, tudo tem dois fins. Um fim que encerra qualquer a causa, rendição incondicional, é o término. E outro, o fim que se revela desejo, missão, propósito, esse é sempre um início. Observa como palavra fim nos convida a possibilidades antagônicas? Saber distinguir o tranquilo do distraído, a inocência da ingenuidade, o fim do fim é sempre um desafio. 

Vi alguns filmes sobre ilhas habitadas por combatentes alucinados. Gente que não sabia que uma determinada guerra havia terminado e, por isso, cumpria a missão de permanecer atirando à esmo e lidando com inimigos imaginários. É irreal, já que se trata de um roteiro cujo fim é o entretenimento. Mas no fim do filme, a metáfora se mostra concreta e viva. Qual batalha estamos enfrentando em nossas ilhotas distantes e silenciosas? Continuaremos lá indefinidamente? O que faremos após a vitória? Acreditamos na luta? Se a resposta for sim, queremos avançar pela causa? Quais são as estratégias, que resultados esperamos? Até que ponto é sim, qual é a fronteira do fim? 

Estou exausto. E tudo que penso é voltar pra casa e te encontrar amena nessa troca intensa de afeto cujo fim é a felicidade mútua, o convívio aberto e o crescimento do que há de amável em nós. ***

Diante

Estar diante do que se quer é bonança com direito à deslocamento de ar carinhoso, suave e bom. Chamam de brisa. Batizam de aragem, esse prazer em forma de movimento. É assim que é ver o que se quer dali pra frente na hora, no dia, no mês ou na vida. Em nome de tantas coisas e seus significados, os encantados entre si resistem até a eles mesmos, às vezes por anos. É um exercício continuo da busca pelo entendimento, um espaço de afetos incondicionais, lugar de perseveranças e descansos. O tom das vozes se alteram pouco e quando isso acontece, cortam pelo costume pelo pacificado. Mas estar diante do que se quer é  gerar conversas, não discussões. As discordâncias estão ligadas à tonalidade  satisfatória de azul nas coisas, o ritmo mais confortável de uma canção, quantas luminárias são necessárias para o conforto das leituras em dupla. Não é a felicidade margarina. É a felicidade de carne e osso. Ver a chegada do que ser quer é compreender algo juntos, mas não qualquer coisa. São sentimentos ligados ao sossegar no colo confiante e confiável que se impõe em sinais, avisos, intuições e confirmações. Nem sempre se observa o acaso agindo, pensamos em algo, percebemos uma imagem no fundo, passamos diante um do outro, um texto lembra o que amamos e muitos chamam isso de coincidências. Nos distraímos intensamente em busca de colocação, de futuro, de aceitação, dos fios soltos nas rotinas. Mas o que vale no fim do dia é se estivemos ou estaremos diante do que se quer. E para entender a importância disso, é inseparável um questionamento. Ele vai nos perguntar se sabemos o que queremos, pois só assim é realizável o equilíbrio necessário para estar diante do que se quer. Caso contrário, poderemos estar diante do que se quer e não reconhecer seu jeito de andar, um modo de ser, um molde de pensar, o retalho com o qual se veste. 

Não há nada oneroso para se estar diante do que se quer. Talvez tenha sido providenciado um contrato, onde (em uma das suas cláusulas) diga claramente que caso seja necessário o deslocamento para estar diante do que se quer, um meio deve ser imediatamente providenciado. Ou máquinas param. Reuniões são adiadas. Se alguém quer algo e está diante do que se quer, nada é realmente longe, pesado ou inseguro. O que se quer é o seu lugar no cosmos. E se você está diante disso, alegre-se, quase ninguém consegue essa proeza por toda a jornada. Homens e mulheres põe o pé na lua, inventam coisas, criam vacinas, comandam exércitos, desistem de reinos, conquistam territórios, manejam letras, atuam, transformam, viajam mil léguas submarinas, suportam 100 anos de solidão, enfrentam a si mesmos, renascem, tudo por um instante diante do que se quer. São esses instantes que valem a eternidade, qualquer eternidade. 

Você não cria despesas, não se preocupe com isso. Foram tantas as colinas subidas e descidas que o viajante sabe em que curva há o perigo, não subestime a capacidade de avaliação e resposta que não sejam usuais, que as prioridades se mostrem outras. Há uma lógica nisso que talvez não esteja sendo suficientemente considerada, valorizada ou mesmo vista.  

Entenda: toda segurança é frágil. Estar diante do que se quer exige mil cuidados e todos eles são pouco confiáveis. Não há truques nos deslocamentos. Não existe a mágica do desaparecimento, somente o silencio completo e irrestrito assegura a calma requerida. Evidente que isso não justifica qualquer jeito desorganizado ou improvisos desajeitados. Mas risco zero não há, nem existe um formato a ser escolhido, a ideia de um cardápio de escolhas é ilusão: ou é uma coisa ou é outra. Não confunda isso com imposição, é uma observação elementar, a de estar ou não diante do que se quer. Se não estamos, não estamos. Mas se estivermos, será preciso um plano, caso exista vida afetiva depois da toca.