Somos nós os nós

É preciso uma coragem, eis o nosso tempo e sua respectiva exigência. Coragem para não congelar os sentidos, cegando os olhos para as traças sociais. Somos nós, reconhece? Estamos um pouco ali, no sinal de trânsito, dormindo na rua, vivendo num tempo com templos demais e parco de fé que remova as montanhas de desigualdades que ignoramos, como se não fôssemos um tanto autores disso. Somos.

É preciso coragem de assumir nossa obra, rasgá-la ao meio, jogá-la no rio, desova-la nas covas dos lugares comuns das conclusões com vista para a superficialidade. Uma vez vc me pediu para apontar um país onde o socialismo deu certo. Me pergunto onde o capitalismo deu. Imagino que os dois sistemas fracassaram por serem assinados por gente sem gente por dentro e é preciso muito disso para não resumir os dias em 24 horas de direita ou esquerda, ambas uma opinião parcial da jornada. 

Não me chame de isento, não sou. Nem de centro, onde não estou. As nossas posições políticas ajudam pouco quem está com um cartaz na mão, pedindo comida. Não deveria ser aceita como sociedade um grupo que apresenta conceitos como novo normal, que discute se a Anita deve ou não dar aula em Harvard, que problematiza as faixas de segurança (é preto no branco ou branco no preto?), que põe fogo em índio, que assiste MMA, que fotografa tudo, que cancela, que lacra, que considera votar no Bolsonaro para se livrar do Lula, depois elegemos o Lula para sumir com o Bolsonaro. Enquanto tudo isso acontece permitimos milícias, deixamos a Amazônia ardendo em brasa, definimos qual é o melhor técnico para o Flamengo, aceitamos o mais ou menos e vamos ter aula de excelência. 

Somos nós e lá fora é espelho, um reflexo nosso, essa coisa, esse troço com traços evidentes de troça. Somos nós e as certezas absolutas que acompanham a tropa. Estamos de turma, regamos a morte, negamos a vida e nosso perfume é da Adidas. 

A boa notícia é que há sempre uma brecha, um descuido e um abraço surge entre amigos. Alguém desce do carro e oferece um par de meias. A Teto constrói 20 casas. Um senhor pede desculpas. Um garoto aceita. Surgem podcasts interessantes e a inteligência ressuscita. Entre montanhas de livros de auto ajuda, aparece um Tudo é Rio, o frio passa, o homem com o cartaz pedindo ajuda recebe algo. É ajuda. Resolve? Não resolve, mas ajuda. Acaba com a fome? Não acaba, mas ajuda. A violência é uma escolha. É hora de furar a bolha, agir em nós, arrumar a cama de manhã. E se levarmos um pãozinho extra para ofertar à fome alheia? Resolve nada, mas ali, naquela hora, para aquela pessoa, naquele instante e naquela fome fará. Depois, votar bem. Depois, agir bem. Depois compartilhar o possível. Mas agora, por agora, nessa hora aqui, um pãozinho não é nada, só um início. ***

Deus tem eu no meio

Fica boa sob tela: você é um unicórnio

Começou não sei bem como. Esqueci, tinha uns 3 minutos de vida, talvez menos. Não sou muito bom com lembranças. Mas penso aqui que o útero foi um lugar legal, porque gosto de espaços pequenos e quentinhos, falam muito isso dos ventres maternos. Depois, estava sozinho ali naquela água morninha e boa, dizem que é assim. O senso de observação e um certo gosto por estar à sós comigo mesmo veio depois. Talvez porque me esgueirava pelo bairro, evitando turmas. Talvez porque me escondesse em casa, ficando longe da confusão com 5 irmãos mais velhos. Embaixo da cama, então era bom. Na árvore japonesa, bem bom. Na escola, era o magrinho que gostava de correr e tinha o cabelo cortado tipo milico, o que me deixava parecido com um galho com topete. Dificilmente você é convidado para festanças com essas características. Minha primeira namorada foi a Juçara, assim, com ç. Depois descobri que a recíproca não era verdadeira. Era a minha namorada e de quem mais tivesse a habilidade de levá-la ao Cine Regente aos domingos. Quem soubesse respirar saberia também levantar os R$ 0,50 do ingresso. Juçara, Juçara. 

Não falo tudo isso porque tenha alguma conta a ajustar com o passado. Tenho, mas não se trata disso aqui. É mais para entender que fiz teatro (não exatamente fiz e não exatamente teatro, era mais um jeito de não estar nas coisas). Que me tornei um especialista em não falar e um doido para saber das pessoas. Me tornei um escutador de primeira, não por bondade ou outra virtude qualquer, mas por desejo de ser aceito. Eu aprendia os outros. Captava os sinais, um movimento minúsculo aqui, outro maiúsculo ali, os olhares, as senhas escondidas em palavras comuns, intensões e formatos de rosto. Persigo até hoje os roteiristas, tentando entender o que ele apronta antes dos personagens agirem. Se aquilo se torna fácil, perco o interesse. Mas se na última cena eu entendo que o garoto que vê gente morta estava o tempo todo falando com um morto, fico brigando comigo por não ter antecipado o truque. 

Quem não me conhece e me vê dirigindo, falando, conhecendo gente, comandando equipes, formando times, orientando pessoas ou sendo direcionado na criação de algo, não entenderá minha expansividade. E só os próximos entenderão que não se trata, exatamente, de alguém extremamente no centro do palco. Foi você quem entendeu que o centro do palco é o lugar do personagem, não do ator. Isso não me faz bom ou mal, melhor ou pior do que alguém outro. Não são menos verdadeiros os elogios ou insinceras as críticas. Afetos não finjo. O interesse é real, a ilusão é me imaginar liberado, fácil, compreensivo e são em tempo integral. É o contrário. Sou mega travado, complexo e em luta constante com as loucuras que assisto. Não é só divertido, mas é só. O que tento te contar é que não sei me contar direito, descrevo o que sou e o que subscrevo o que vejo. Me esqueço, me aqueço, estar é um zig zag entre o feliz e o padeço. O que conto é que contas em mim, adições diversas, somas totais, pouca diminuição, muito extrato, muito suco, muita goiaba enclausurada, muito infinito em fresta, muita festa em minutos, muitos assuntos, muita conversa, ser e não ser é a nossa questão, mas não do jeito que o escritor inglês pensou. Nunca é do jeito que os escritores pensam. Para escrever, penso, é precioso entender que no momento em que digo, é outra coisa no teu ouvido. Somos estranhos o tempo todo, portando, mutantes, amantes, silentes, vacilantes, humanos e às vezes você me põe louco. Ao mesmo tempo, a distância se torna um caminhar manco e quero te dizer que o Inter ganhou do Flamengo. Se estamos longe? Estamos longe de não nos amar. *** 8 deitado.

 

Diante

Estar diante do que se quer é bonança com direito à deslocamento de ar carinhoso, suave e bom. Chamam de brisa. Batizam de aragem, esse prazer em forma de movimento. É assim que é ver o que se quer dali pra frente na hora, no dia, no mês ou na vida. Em nome de tantas coisas e seus significados, os encantados entre si resistem até a eles mesmos, às vezes por anos. É um exercício continuo da busca pelo entendimento, um espaço de afetos incondicionais, lugar de perseveranças e descansos. O tom das vozes se alteram pouco e quando isso acontece, cortam pelo costume pelo pacificado. Mas estar diante do que se quer é  gerar conversas, não discussões. As discordâncias estão ligadas à tonalidade  satisfatória de azul nas coisas, o ritmo mais confortável de uma canção, quantas luminárias são necessárias para o conforto das leituras em dupla. Não é a felicidade margarina. É a felicidade de carne e osso. Ver a chegada do que ser quer é compreender algo juntos, mas não qualquer coisa. São sentimentos ligados ao sossegar no colo confiante e confiável que se impõe em sinais, avisos, intuições e confirmações. Nem sempre se observa o acaso agindo, pensamos em algo, percebemos uma imagem no fundo, passamos diante um do outro, um texto lembra o que amamos e muitos chamam isso de coincidências. Nos distraímos intensamente em busca de colocação, de futuro, de aceitação, dos fios soltos nas rotinas. Mas o que vale no fim do dia é se estivemos ou estaremos diante do que se quer. E para entender a importância disso, é inseparável um questionamento. Ele vai nos perguntar se sabemos o que queremos, pois só assim é realizável o equilíbrio necessário para estar diante do que se quer. Caso contrário, poderemos estar diante do que se quer e não reconhecer seu jeito de andar, um modo de ser, um molde de pensar, o retalho com o qual se veste. 

Não há nada oneroso para se estar diante do que se quer. Talvez tenha sido providenciado um contrato, onde (em uma das suas cláusulas) diga claramente que caso seja necessário o deslocamento para estar diante do que se quer, um meio deve ser imediatamente providenciado. Ou máquinas param. Reuniões são adiadas. Se alguém quer algo e está diante do que se quer, nada é realmente longe, pesado ou inseguro. O que se quer é o seu lugar no cosmos. E se você está diante disso, alegre-se, quase ninguém consegue essa proeza por toda a jornada. Homens e mulheres põe o pé na lua, inventam coisas, criam vacinas, comandam exércitos, desistem de reinos, conquistam territórios, manejam letras, atuam, transformam, viajam mil léguas submarinas, suportam 100 anos de solidão, enfrentam a si mesmos, renascem, tudo por um instante diante do que se quer. São esses instantes que valem a eternidade, qualquer eternidade. 

Você não cria despesas, não se preocupe com isso. Foram tantas as colinas subidas e descidas que o viajante sabe em que curva há o perigo, não subestime a capacidade de avaliação e resposta que não sejam usuais, que as prioridades se mostrem outras. Há uma lógica nisso que talvez não esteja sendo suficientemente considerada, valorizada ou mesmo vista.  

Entenda: toda segurança é frágil. Estar diante do que se quer exige mil cuidados e todos eles são pouco confiáveis. Não há truques nos deslocamentos. Não existe a mágica do desaparecimento, somente o silencio completo e irrestrito assegura a calma requerida. Evidente que isso não justifica qualquer jeito desorganizado ou improvisos desajeitados. Mas risco zero não há, nem existe um formato a ser escolhido, a ideia de um cardápio de escolhas é ilusão: ou é uma coisa ou é outra. Não confunda isso com imposição, é uma observação elementar, a de estar ou não diante do que se quer. Se não estamos, não estamos. Mas se estivermos, será preciso um plano, caso exista vida afetiva depois da toca. 

Aster

Estrelas do mar parecem asteriscos. As estrelas do céu também. Gosto desse sinal pelo grafismo que tem, pelo mistério que carrega em seus significados. Asteriscos são reticências bem sucedidas. Chegaram ao estrelato. Brilham como um texto do Mãe que aparece sem ser esperado, mas que é muito bem-vindo. Fala de estações e me pergunto se é um desejo ou uma certeza, o jogo de palavras. Em mim, o “vocês verão”, é uma sentença definitiva e que deixa espaço nenhum para dúvidas: esses dois tostarão ao sol juntos, mesmo que a leitura não seja direta assim. Mas Catarão caramujos enquanto caminham olhando o horizonte, trocando coisas sobre o trabalho, projetarão (enquanto caminham) os novos trechos da vida. E quando isso for pouco, encontrarão formas de contornarem suas imperfeições, porque o amor é líquido. Não serão projeções que oscilam a partir da incidência e do humor dos raios de sol. Permanecerão afetos e afetuosos na concretização da excelência, entendida como produzir e oferecer o que há de melhor neles mesmos. Todas as estações têm maravilhas e talvez seja esse rodízio perene entre elas que as façam tão esperadas. Um dia, depois de dias e dias, chega o tempo do inverno ou da primavera, ou do outono ou do verão. Sempre chega, é da ordem do tempo e de tudo que existe nele, fora ou ao seu redor. Acontece o mesmo com os encontros formidáveis, com as vindas que não passam desapercebidas e nos dias de espera. Há um motivo que mantém aquecidos aqueles que acreditam no verão, mesmo que o inverno jure que será eterno em seu rigor. O motivo é maior do que o entendimento que se possa ter disso. Basta ver uma estrela do mar ou no céu as associar a asteriscos. Não são asteriscos. São sentimentos. São convicções. São respostas. ***

Não passa desapercebido

Resumindo, fico feliz. Mas ficar feliz é isso, um resumo. E, como tudo que se resume, não conta tudo. Fica abafado o movimento do olho que se arregala, porque uma surpresa desejada, finalmente, ocorre. Um sub riso se instalada. Não se percebe bem, mas ele está ali, rindo. Suspiros? Tem sim senhor. Acho que é o mesmo sentimento que se apropria de um atleta que sabe que acaba de fazer algo formidável. É um suspiro, mas também é um alivio. É isso e também uma euforia, mas não termina aí. Se mostra um contentamento, que não para nisso. É mais do que um gol do Inter. Mais do que um gol do Inter no grêmio. Mais do que um gol do Inter no grêmio e que decreta que o grêmio vai para a série b. É mais do que muita coisa, portanto. 

Para te dar uma ideia melhor, também pensei em metáforas. Coisas simples, mas boas como imagem. Algo que envolvesse cor (azul, amarelo?), horizonte e navio singrando os mares, mas não. Isso é muito ui ui ui. Fiquei explorando, mas nada era (de fato), apropriado. Não queria algo grandioso, sabe? Não que não seja, mas é que não se trata disso. Queria contar das pequenas reações em cadeia. Não sei se você lembra dos programas de pergunta e resposta. Quem foi o imperador autoproclamado da França? A câmera fecha no rosto do participante, que está pesquisando em fichas internas a resposta que garante mais mil reais. Você diz na lata “Napoleão!”. O sujeito, suando frio, diz um titubeante Napoleão. O âncora pergunta se o cara tem certeza da resposta, veja lá. Você diz “sim, sim”. Ele, reticente, afirma um sim com menor certeza. 

Momentos de silêncio, sob uma música de tensão fake. Então o apresentador decreta um “certa, a resposta”. Vê-se o alívio no sujeito que respondeu. Mas o que falo aqui é da sensação que toma o telespectador que também acertou. É um tranquilo “eu sabia”, uma satisfação pelo conhecimento. É disso que falo. É uma satisfação. 

Mas é que satisfação parece um fico feliz. Um resumo, possivelmente um resumo ainda mais hermético. Então, quero contar que me faz desejar que o Grêmio empate o jogo. Que não seja rebaixado. Que os cortadores de grama me fazem lembrar você.  Que é como um navio amarelo de bandeira azul surgisse no horizonte de uma ilha deserta onde mora um náufrago de nome Napoleão, que será resgatado. Que tenho certeza das respostas que daria sobre a nossa história. É, como tento demonstrar, uma mistura farta, confirmando a conexão. 

Em resumo, fico feliz, mas isso não diz tudo. ***

Já te disse hoje?

Essa foto esperava por mim (e por ti) numa calçada da cidade, como quem diz “a luz não reflete, ela existe”.

Quando o silêncio envolve e o gélido se acerca da cidade portal, ocorre algo além do que se espera do frio intenso: é o som do rio que resiste abaixo do gelo, destemido, rindo tua vinda. Tudo é falta de som e esquecimento, mas ele corre, alimentando canais, igarapés, nascentes, num leito feito de vida, líquido e certo como rir ou vir. Árvores não são desimportantes. Asteriscos estão em seus postos. O cheiro da terra molhada, as águas do parque, o chá, os sinais, o entendimento, o assentar, o consentir, tudo converge. Símbolos miúdos travam guerra contra o desânimo e o mesmo tempo que traz essa sede constante e essa rotina áspera virá de mãos dadas com a estação do possível. Nada está inerte, tudo clama e a insônia reclama é por falta de sonhos que se sonham juntos.

Às vezes olho no telefone, a que horas virá o sono? Pintar um quadro no seco, hálito quente, minguas e frestas, nada há de suave. No entanto, lembro o tom da voz, um riso oculto, a sobrancelha, uma frase, um emprego que pode caber na busca. Recordo das mil noites em claro, do foguetório em cada chegada, no significado das coisas e no declarar sereno de tudo que para se entender é preciso prestar atenção na linguagem soprada, sugerida, apontada.

Tudo em nós é amor em estado de encontro.  É o que se move em mim nesses dias imóveis. E te diria agora a frase de sempre, minha frase no sempre, o sempre dito. Não para dizê-la, mas porque é a expressão e o sentido da verdade. ***

Ao vivo

Não gosto de fios emaranhados, chaves que não entram, coisas que rangem, tropeços, dar com o dedão na quina de móveis, do jeitão das baratas e de pó sobre mesas onde se come. Preciso de uma certa ordem, um determinado grau de zelo, doses controladas de rotina, pão na chapa, goles de café, momentos pra absolutamente nada. Não muito, nem sempre. Não sei de onde veio isso, nem para que servem mesmo alguns cuidados, não os tive nem aprendi nada a respeito, sempre fui pra rua e dela vim. É mais recente essa vontade de casa, de poltronas comuns, planos conjuntos, hora de ler, o tempo de esperar longamente por uma cena onde está personificado o afeto. Nunca fui boêmio, bêbado, sambista, nem namorei tanto assim. Não é nem bom nem ruim, apenas não me aconteceu dessa forma, escolhi outros vícios quem sabe. Afinal, tenho aversões crônicas, como pisar em lodo com os pés descalços, ouvir certas palavras durante as refeições ou perceber dentes faltantes. Gosto do Walter Hugo Mãe, que fala coisas lindas como “meu avô era como todas as mais belas coisas do mundo junto numa só”.  Ou “O que o meu avô valorizava em mim era o empenho em gostar de alguém. Toda a sabedoria devia resultar na pura capacidade de amar e cuidar de alguém”. Isso é um retrato da emoção, algo capturado tempos depois do ocorrido, mas com uma precisão de amante, com a alma da coisa faltante, esse avô que existe na alma, esse amor tatuado no pulso.

Então te escrevo uma pergunta: como faz para escrever isso? Ninguém inventa um amor assim? Um amor desses, só vivendo, só sendo, só tendo. É como conseguir desemaranhar fios, ter chaves que encaixam, obter silêncios equilibrantes, caminhar em linha reta, viver num abraço que não desabraça e comer em mesas limpinhas. Não há como sentir a presença sem ter vivido a presença e amado a experiência a ponto de repeti-la no sempre da vida, ou num texto em que escrevo infinito e sabemos que isso significa algo muito mais extenso. *** 

Um novo velhinho em folha 

O novo caminha em direção ao velho. Não há medo nem coragem que os aproxime ou afaste. Existe apenas um tranquilo conforto com o inevitável do encontro. Os dois se reconhecerão. O velho vem de longe no tempo e o novo corre na tarde que julga eterna.  Ao perceberem que tudo os aproxima e difere, um tem lembranças das histórias que o outro ainda interpreta.

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caipira day

Todos precisamos de dias calmos e inalterados. Que tenham um começo, meio e fim sem sustos e sobressaltos. Por favor não confunda isso com dias em que não acontece nada, onde até a monotonia se espreguiça e boceja. Falo de dias caipiras, desses que vêm do interior para te visitar ao som de Renato Teixeira. Chegam tão devagar, tão sem pressa que você acorda e nossa, ainda tem duas horas de cama antes de levantar. Quem já foi dono de duas horas a mais para dormir, sabe da sensação alegre que isso causa. Precisamos de dias com tempo pra nós.

Um dia estava tão cansado de tudo, exausto, com sono, irritado. Me deitar era a única necessidade real que havia. Uma cama, precisava daquilo como água para chocolate. Durante o banho, ainda ouvia as pessoas pedindo informações, orientações, fazendo comentários, os risos, os barulhos, ruídos e passos. Meu estado emocional era de alguém em frangalhos, seja lá o que isso queira dizer. Mads sei que exaustão te reduz a menor (e às vezes pior) parte de você mesmo. Eu não precisava de um milhão de dólares, a campanha que havia criado poderia ser aprovada ou não, tanto fazia, e o Inter que ganhasse o perdesse, não me importava. Todo o essencial da vida era uma cama. Quando me deitei, a experiência foi avassaladora. Estava ali uma pessoa cuja única e urgente necessidade estava atendida, a de deitar-se em uma cama e apagar as vozes. Estar espichado em uma cama, em conchinha comigo mesmo, a cama que me trazia um estado de descanso e relaxamento e aquela sensação quase me fez chorar de alegria. Foi algo tão emocionante e apaziguador que qualquer tentativa de descrever será inútil. Precisamos de dias que nos recebam de corpo e alma.

Comecei a lei um filósofo Coreano-Alemão (agora não sei se cometo um erro ao indicar alguém assim). Vamos começar de novo: estou lendo Han, um filósofo dos bons, nascido na Corea e com cidadania Alemã. Ele nos traz um conceito interessante, algo que dá o nome do seu livro, “A sociedade do Cansaço”. Até onde fui, é um material relativamente pequeno, ele indica que estamos tão fora de nós que precisamos que os outros nos confirmem a existência via likes, corações e carinhas felizes. Há regras não escritas no Instagram. Jovens que se patrulham para não postar mais de uma foto por dia, uma discrição digital, uma timidez pós moderna, seja lá o que isso queira dizer. Não h´á espaço para a tristeza e todos são implacavelmente sábios, felizes, modernos, resolvidos. Nesse labirinto chamado internet e redes sociais, fomos nos perdendo e sendo inapelavelmente devorados pela pergunta da Esfinge: quem somos nós? Como não sabemos, o preço a pagar seria esse processo que adultera valores essenciais. Seu ápice é uma inversão apocalíptica quase. Algo tão grotesco quanto profundo e assustador.

” É como se as marionetes comandassem o titeriteiro “

“Titeriteiro”, pra quem não sabe (eu não sabia) é quem manipula marionetes. A ideia de que pode estar ocorrendo justo ao contrário é forte e apavorante por ser real. Afinal, uma agenda só nos pertence se tiver a nossa letra, com os compromissos que escolhemos aceitar. Com inconsciência, somos presas fáceis na cadeia alimentar que dita tendências, impõe comportamentos, cria ídolos e estabelece modos narrativos próprios. Não quero a volta de um passado nostálgico de duvidosa existência. Um tempo editado e, por isso, lindo. Algo com cortes e inclusões o bastante para ser colocado em prateleiras como algo suave e que, provavelmente, não se deu da forma lembrada. Quero uma boa rota de fuga para o futuro em que o esse passado anuncia com um riso selfie. Desejo criar dias onde escolas ensinem trocas carinhosas com o mundo, o valor do afeto, economia criativa, ações solidárias, emoções, escrita, empatia e arte. Nunca tivemos aulas sobre o que sentimos. Chega de saber sobre os afluentes do Rio Amazonas, a fórmula de báscara e as histórias dos catetos triangulares. É urgente parir autoconhecimento, a única fonte possível para dias de mudança e amor. Precisamos de dias originais e sem medos.

A tecnologia é encantadora. Posso falar com gente da Rússia, tenho amigos em Portugal, me comunico com pessoas da Inglaterra. Não falo inglês. Meu drusso e meu português quase ninguém entende. Mesmo assim, me viabilizo via incríveis ferramentas feitas por desenvolvedores de facilidades. Mas graças ao desvirtuamento da inteligência natural, a inteligência artificial criou e agora seguimos robot influencers. Um exemplo é a Lu, host digital da Maganize Luísa. Ela tem mais de 25 milhões de seguidores, 5 milhões só no Insta. 5 milhões!, assim, com exclamação. A personagem aparece em baladas, na praia, surfando, fazendo compras e o que acontece? Interagimos com ela, como se houvesse uma ela! E porque? Por que, aparentemente, abrimos mão de nós. Toda ciência é bem-vinda, toda filosofia, toda tecnologia. Carecemos de espaços de conversa capazes de nos fazer arregalar os olhos diante de uma sensação boa, de um momento em paz, de um pensamento cuja razão de existir seja a liberdade de surgir como afirmação inconteste do nosso prazer de gera-lo. Um direito que alegremente dispensamos em nome do tudo pronto que vem do Google. É urgente a construção de dias artesanais.

Dias mansos, fáceis e domésticos são, como todos os outros dias, resultado de escolhas. Exigem parada, reflexão e atitudes. Dias caipiras não evitam dias agitados, pedreiras e tarefas duras de engolir. Mesmo assim, esses dias precisam ser criados -e por nós. Não pelo governo, não pelo guru, não pelo par, pelo casamento, pelo emprego, pela Alexa, mas por nós, de carne, Rivotril e osso. Nos dias caipiras, poderemos experimentar um olhar mais vagaroso para a vida, que nos corresponderá em um determinado tempo, não no tempo instantâneo das receitinhas prontas. Então tomaremos uma boa garrafa de água gelada, ou uma Coca acompanhada de quiche. Comeremos algo, conversaremos muito, nos conectaremos com o grandioso que é estar ali nos compreendendo. Serão dias em que saberemos a diferença entre vontade e desejo.

Dias caipiras não se fazem sozinhos. Temos que atraí-los dormindo melhor, comendo com qualidade, trazendo pra dentro de casa rotinas miúdas e boas e, principalmente, sentindo mais do que pensando. Pode ser uma meditação, uma água com limão, um Fernando Pessoa antes de dormir. Tenho tomado mais água. Tenho comido mais frutas e salada. A carne vermelha será retirada por completo e já está bem rara nos meus pratos. Se vai dar certo, seja lá o que isso queira dizer? Não sei. Mas se vierem, pelo menos às vezes, dias caipiras como o que vivi hoje, nossa, porque não comecei antes?

***

Aprendi a falar a tua lingua entendendo os ditos que saem da minha boca. Não pelo que se traduz, mas através dos apelos que trazem. Somos nossa vida predileta, entre tantas existências possíveis de se olhar ou viver. Diante de mim, há o Atlântico nesse momento inexato que acontece entre outros tempos acessíveis. E se fosse bombeiro, pediatra, dono de padaria, astronauta ou piloto de Fórmula 1? E se ficasse numa ilha cercada de amar a única você que existe? E se fosse escritor de contos infantis, soldadinho de chumbo, voluntário da pátria? E caso você fosse pediatra, projetista de ambientes, escultora de gente, dona daquelas tabacarias cheias de aromas incríveis, gostos sem fim, temperos e especiarias?

O destino das coisas não é o que tinha que ser. Nada é o que tinha que ser. Não há uma sina, um ponto final, um somos assim e pronto, um eu sou o que sou. Abrimos portas, fechamos janelas, podemos chegar e decidir não ficar sem o nosso par em Ithaca. Permanecemos -nem sempre serenos- entre o infinito do sempre e a beleza de tudo que nos faz perenes. Família, parceiro, filhos, primos distantes, tias chatas, mãe ausente, entorno, contornos, moldes, modelos, natais frustrados, gente que não veio, filmes não vistos, livros e pedidos de casamento. Vivemos cercados de momentos e portinholas da jornada. Ali, o design, dois filhos. Aqui, pesquisadores do fundo oceânico, 4 golfinhos. Noutra, decoração interior ou comercio exterior, 6 pontes de safena, uma casa pequena e 2 gatos siameses. Em um outro real, entendimento, muro baixo, asterisco e cherie latindo e manhosos, planos, sonhos e realizações, além imperfeições da vida, desejos atendidos e férias em lugares calmos. Jogador do Inter, pesquisador de aranhas, especialista em montanhas, marinheiro, cowboy, ilustrador, fundador do Green Peace, roteirista em Amsterdã.

Diante de tantas possibilidades, desconfiamos do que nos seja novo de fato. Então, finalmente resgatados, muitos se deixarão ficar nas ilhas dos seus fantasmas conhecidos, agarrados a sequestradores ou mesmo se juntando ao bando.

Nada mais triste do que a beleza renunciada. Viver se duvidando, desabitar-se, importunar o sossego. Nada é mais assustador do que estar do lado de fora dos risos, não se saber amando. No entanto, eis um segredo terrível. Eis um aviso que deveria apavorar tudo que vive num lugar no cosmos que não lhe pertença. Muito cuidado, porque é assustadoramente possível. ***