Pedras e Pedros

Quando Amstrong disse que aquilo que ele estava prestes a fazer era “um pequeno passo para o homem e um grande passo para a humanidade” quase chorei. É que do alto dos meus 6 anos de estudo, conclui que a frase era genial!, com direito ao uso de um ponto de exclamação, me desculpem por isso. É que sou do tempo em que a utilização desse recurso causa um certo constrangimento ao autor, que parece não controlar (por ignorar) a arquitetura da sua linguagem. Muitos anos depois, lendo uma entrevista do astronauta, soube que o que ele disse era muito mais literal do que eu supunha. O dito sempre me soou algo como “estou aqui em nome da humanidade inteira, essa conquista foi só o começo”, além de outras leituras possíveis, todas heroicas e cheias de brados retumbantes. Mas não, não havia poesia naquela declaração, ainda que coubesse (dependendo do entendimento) algum lirismo no pronunciamento improvisado. Ocorre que quando falou, o americano estava em uma escada, a mais ou menos um passo do solo lunar, naquele distante 1969. Então, sem nada combinado, informou ao mundo que aquele passo seria pequeno por ser pequeno mesmo, tipo um pulo de onde ele estava. E que significaria muito por que era a lua ora, e isso significava muito, muito de verdade, ainda mais pra ele, que estava lá, no primeiro lá humano sobre a lua, principalmente ele, nunca ninguém antes a não entender o significado de algo, aquela cara intrigada do homem diante do fogo, da roda ou do amor. Há quem não entenda a importância das coisas que mudam para melhor a vida e sua aventura maior, o viver. Não o viver romântico e não prático, inocente mesmo, ainda que seja bonitinho. Digo que se você entende o profundo do fogo, da roda ou do amor, você se prepara, aprende, convida e acredita. Imagina, azul. Imagina o primeiro homem na lua. O primeiro beijo ressignificado. O primeiro olhar que se fixa. O primeiro barulho de fogueiras, a primeira correria por conta disso. O primeiro, não o perfeito. O primeiro, não o tudo feito. O primeiro, azul, tinha que vir primeiro, mas me ocorre que pode não acontecer. Que até é provável que, diante da roda, do fogo ou do amor, a maior parte de nós passaria reto, direto pra casa, o medo e a distração andam juntos, têm uma articulação danada.

Lembro de visitar a pedra lunar, uns 2 anos depois que ela foi trazida. Não a achei grande coisa, confesso. Logo eu que tenho adoração por pedras, suas formas e simbolismos. Talvez porque a tenha visto de longe, rapidinho, cercada de guardas, protegida por uma redoma de vidro. Não vivi o seu melhor talvez, não tive acesso, com certeza. Não saberia dizer se era boa para afiar canivetes, construir carrinhos de rolimã, dar pulos no Guaíba. Era uma pedra presa e só um louco de pedra prende uma pedra que existia livre na lua. Achei uma pedra normal, cem gramas vividas na maior parte do tempo quieta e sem gravidade. Outros olhares viram luminosidades improváveis, uma aura qualquer, movimentos estelares improváveis. Eu a percebi com saudades dos meninos com a cabeça na lua como o Pedro. Entendi que estava longe de casa, inerte numa casinha de vidro, fora do seu lugar, longe de Ithaca. O que de pior pode acontecer a uma pedra que se torna prisioneira de aventura alheia? Não afiar canivetes, não fazer parte de pontes, não ajudar na construção de carrinhos de rolimã. Que pedra é essa que, retirada de si, torna-se viajante de outros seres ou vira adorno pretensioso de outras estantes? Ah não. Pedra tem que estar em San José, no Atacama, atraindo atletas apaixonados. Na foz de rios, no coração do Amazonas. Inspirando canções compostas de pau, pedra e o fim do caminho. Se divertindo em oceanos que as moldam em coautoria com os ventos. Pedaços de pedra são para formar montanhas, proporcionando as visões dos dias azuis, dos temporais, das aragens e dos tufões. Afinal, essa é a fôrma que lhes dá forma e bons nomes de banda. Precisam ser rolantes, caminhos, fundo de lagos, lembranças, meteoros, mudança. Pedras têm que ser pedras do caminho, tornam-se decisões tomadas porque pedra é superior à tesoura, se solidificam em corações de pedra. São Pedros ainda incompletos e renascendo a todo momento. A idade das pedras não terminou pela falta delas, mas porque eram algo sólido. Como tudo que é sólido desmancha no ar, o amor (e o amar), pedra fundamental da alegria, tornou-se quântico. Está aqui e lá, não importa o seu lugar no tempo, que não tem tempo pra ter lugar. É saudade em tempo integral pelo tanto que poderia ter sido. Há pedras que viram estátua, pedaços de sonhos que são casas de pedras, janelas azuis, ruas, pontos de referência, imagens, móveis, cadeiras de leitura, pesos de papel. Te escrevo do lado de baixo dos escombros, onde faz um frio que arde, um gelo itinerante, cobre o corpo, o exaure e põe a vida muito abaixo de zero. No entanto, o coração bate e oscila entre ser bloco de pedra ou ser resistente. É uma decisão, imagino. Ou nós o entalhamos ou ele entalha a gente.

Big bang

Tem gente que te reestarta, te tira do modo soneca, desperta multidões em você. A distância é um detalhe porque a resignificação é, inclusive, geográfica: tem gente que te mostra que você está ou estava a milhares de quilômetros de você mesmo. Então esse encontro será pleno dos desencontros que nos aproximam o tempo todo. E por que? Porque nos avisam que somos diferentes e que as diferenças nos tornam semelhantes. Também alertam sobre o perigo que as projeções e as expectativas escondem atrás de si. São sombras sem árvores ou água fresca. Pensando nisso, pensei no que Espinoza matutou sobre o assunto, gosto das matutagens dele e o que esse baita pensador concluiu? Que há gente cuja existência nos causa alegria, que seria não apenas o oposto da tristeza, mas a própria modelagem do amor em seu aspecto onde você é você, o outro é o outro, os dois são o que são e isso é bom, engrandecedor e soberana expressão da felicidade. É o espaço onde projeções e expectativas perdem o emprego e vão tentar a vida no Uber. Então o estado da alegria é algo plenificado pelo contentamento, mas não obrigatoriamente pelo estar e necessariamente confirmado pelo fato de ser. Você reconhece no outro o direito de ser quem é, o que produz alegria em você. Isso tudo de Espinoza é profundo, correto e lindo? Se você pensou sim, deixa eu fazer uma pergunta. É sim mesmo que seja não? É sim mesmo que ela ou ele morem longe do alcance das tuas mãos? Mesmo que haja impedimento, outra ou outro? Ou talvez nem seja o caso e a barreira é formada por outras formações, outros indicativos como carreira, família ou impossibilidade de aceitar o ofertado? Quando o amor alegria de Espinoza não é mais o amor que te alegra, a gente passa a jogar um outro jogo, o da tristeza que alguém lhe causa pelo fato de existir. Você pensou em alguém agora? A existência da alma que amo me causa alegria. Tua ausência causa saudade, o que é diferente de tristeza. Certas escolhas geram frustração, algo diverso da tristeza. Ausências provocam irritação ou raiva até, mas essas coisas são outra coisa que não tristezas. A lista pode ser longa, assim como a reflexão pode ser incômoda. Mesmo assim, desconforto (inclusive extremo) é algo, tristeza é outro algo. Então talvez a medida seja quando o emprego, o país, o projeto, a religião, os relacionamentos afetivos, as interações de trabalho, um pouco talvez de tudo deva ser exposto à sua lente mais sincera e responder a duas perguntas. A primeira é essa: o que sinto tem o gem do amor que me dá alegria pela sua simples existência? Sendo sim, é menos importante uma porção de coisas e você saberá o que te mantém ali ou porque se vai embora. Por outro lado, o que sentimos pode ter o DNA do contrário do amor, a indiferença, produzindo tristezas. Aí, a pergunta é um pouco mais pontuda. Se é isso, o que te faz ficar pode ser o fato de haver então algum indício de alegria sendo esperada, dada ou recebida. Muitos chamam isso de dilema socrático. Não é o meu caso. Eu chamo de vida.

Acabou-se

Fomos felizes juntos, carnes em geral. Mas preciso partir para o reino do brócolis encantado. Nada de empanados, às vezes e talvez, um pãozinho francês. A culpa não é sua, pastel com ovo, nem se pode apontar um culpado especifico como os biscoitinhos de sequilhos. Afinal, sabemos da participação contante do leite gelado com sucrilhos. Isso sem falar nos chocolates, farinhas disfarçadas de quase tudo, a pipoca doce, Bolacha Maria e, alegria das alegrias, uma coca bebida no bico. Faz algum tempo que fiz 20 anos, época própria pra arroz com frango, sonho de goiabada, batata assada e pavê, que tanto via como comia. Pizza, queijo, quitutes, valeu. Mil folhas, docinhos de leite, sanduíche com sal e muito azeite, cremes, vadê retrum. Chegou o tempo do atum, do alface maravilha, de alfazema, da ervilha e da saudade de um metabolismo juvenil. É que faz um  tempinho que se foram meus 30 e agora quase tudo pesa. Menos pēra, maçã, beterraba e bergamota. Açafrão, bem-vindo e, antes que meu coração decrete a queda da Bastilha, sopa de cogumelo, tudo multigrão (inclusive o pão), muito Robalo, azeviche e uva no lugar do sanduba. Água e pouca ansiedade, menrecleitam. Onde eles pensam que eu vivo? Sou da terra do churras, do torresmo, do pastel com vento minuano, o paraiso de tudo desencanado, lá pouca gente me conhece. Mas enfim, cumpridas as promessas de uma vida sem maiores pressas, o que de melhor me aconteceria, além de habitar o planeta dos magros e saudáveis? Faz tempo que meus 40 e mesmo os 50 se aposentaram. Não dá pra seguir como se nada houvesse pra servir amanhã. Uma fome estranha, o abandonar-se no esquecimento na fome insaciável pela sensação de presença. Mas qualquer argumento é um fiasco, nosso coração não pertence se bate como quem não quisesse, se vacila em desalinho e eu prefiro saudade de ti a ter vontade de um franguinho. Lembrança de beijo em vez de påo com queijo e uma boa conversa a esvaziar a travessa. Estão descubro que não pode ser por ti, mas por desejo meu de saúde e auto cuidado. Dessa vez por mim, pela primeira vez por mim e por um eu me amo, preciso saber o que me alimenta, não até onde meu corpo aguenta. Meu amor, é o fim da era do Strogonoff e nao, não existe feijoada light. Por mim, acabou-se o que era doce.

O momento

Cheguei uma única vez em primeiro lugar em provas de ciclismo. Na verdade, do ponto de vista biótipo, sou um anticiclista. Atarracado, um metro e setenta e poucos (bem poucos), batia nas subidas e apanhava (mas dava um trabalhão) nas retas. Quase como na vida, o ciclismo tem mais retas do que lombas, muito mais. Ou seja, há muito mais rotina do que viagens, mesmo que viagens sejam uma rotina. Por isso é tão essencial perceber que é ali, na rotina, que nasce o incomum. O normal é vermos atletas longilíneos erguendo os braços vitoriosos nas bandeiras finais. Mas sempre há os baixinhos como eu, que se importam menos com o podium e mais com o prazer de correr danadamente bem, dane-se a modéstia, dane-se. Uma única vez ganhei e posso garantir: quando você passa em primeiro, no exato momento que o autofalante grita o nome da equipe e complementa com um “conduzida por Mariel”, a pior coisa pode acontecer é um desmaio. Se vc está de bicicleta a 35 40 por hora, não é boa ideia que nada se apague. O ponto é esse, vivemos entre a glória vívida de algo com os desligamentos que essa mesma glória pode apresentar. Você está sujeito a errar contornos, e-mails, telefones, determinadas datas, certos protocolos, enfim, podemos errar rudemente nos braços sempre azuis, ensolarados e continuamente quentinhos da alegria e do amor. No ciclismo, há funções específicas para os atletas de cada time. Dependendo da estratégia, sua função tática pode ser simplesmente se manter à frente do cara capaz de ganhar. Assim, sem vento e protegido desse desgaste, as chances dele aumentam no sprint final, o momento da definição. Não se pode abrir nem antes nem depois para que ele arranque, lépido e longo, para a glória. É uma relação de confiança e atenção entre os participantes da equipe. E aqui, novamente o momento exato se mostra fundamental. Se vc erra nisso, vai comprometer o resultado. Como já aconteceu comigo, digo com toda a delicadeza possível: é uma bosta. Antes da corrida e durante a prova você treina os movimentos, repete, repete, repete e… do nada, a marcha não entra, você vai para o lado equivocado, há um buraco não previsto, o sujeito arranca e você não nota, vc não percebe um erro e envia um sinal que pode prejudicar a estratégia e torce para que tudo fique bem. É tenso. Existir (e a própria vida) talvez seja um exercício de perdão a alguns erros, certos vacilos, determinados enganos. Alguém me disse que “viver é um teste de caráter”. Você se acha falível ou infalível e e bem, um dia vc é uma coisa, noutros outra e em todos, tudo ao mesmo tempo. Fico me perguntando se te protegi como devo e acho que a resposta é sim em parte do tempo. Não em outras partes do tempo e coisa e outra o tempo todo. No ciclismo, dizia, conquistei somente uma vitória. Foi longe, ninguém soube, não havia torcida pró e nada será tão eterno no terreno esportivo. Atribuo àquela vitória a treinos específicos, manobras acertadas, lucidez no ritmo, alguma sorte e a um amuleto em forma de coração, dado pela alma que amo, fruto desses encontros que são bons porque são únicos e únicos porque acontecem uma vez. Talvez isso conte que existir seja a mistura de muitas coisas, o que acaba (se prestarmos atenção) por se transformar em caráter. Ontem foi um dia de decisões. Hoje será igual. Não há dias sem decisões. Será que será que será hoje? Será que conscientemente desejei acertar, mas inconsciente mente desejei errar? Entendendo isso, meu coração foi parar ao lado do teu, para qualquer resultado, para toda a alegria de torcemos um pelo outro e pela certeza que se vencer ou perder são momentos, o amar nos faz eternos. Meu coração foi parar no eterno que é você, no eterno que eu sou. No termo que sempre seremos.

Sobre o que falo quando não falo

Não se trata exatamente de uma volta, não estou pronto pra isso. É mais uma visita fora de hora, que faço em nome das dezenas de pessoas que se manifestaram carinhosamente contrárias à minha ausência. O tempo me decora, assim no sentido de colocar sinais de expressão no rosto, além de outros apontamentos. E não me alento ao ver que hoje faz um mês que não escrevo nada, nem penso nisso, é algo que não me perturba ou incomoda. À medida que os dias constroem vãos, mais me guardo, releio velhos textos e desconfio de qualquer sintoma de esperança. Não veja nisso resquícios de tristeza, não é mesmo o caso. Como sabemos, a espera confiante (esperança) é uma carta complicada, já que vive de disposições análogas à magia, crê no acaso ou nas forças do destino, o lance ilusório do futuro. Esperança não dá boa filosofia e sendo assim, presta pra pouca coisa. Chico, com poesia de verdade, já decretou algo como “espere sentado ou você se cansa. Tá provado: quem espera nunca alcança”. Uma leitura dura disso seria um tremendo engano e penso que talvez esteja passando uma impressão errada desse tempo silencioso. Está mais para uma temporada tiritante aqui e ali, algo que não deixo criar calo nem casca, algo que o vento entalha na medida que desgasta e que talvez revele (mais adiante) ou um monumento exuberante ou um esboço bárbaro e inacabado. Será, qualquer que seja a vista, resultado daquilo que desejamos e assim sendo, acabamos vendo. A diferença atual é a tranquilidade, algo me acalma, me faz parar de tremer, me recebe e cadencia os passos. Tenho resquícios bons e ruins no final do dia, penso sempre, há noites mais dolorosas e horas boas, é a vida em seus cursos, risos e sustos.

Deixou de ser algo a alcançar, talvez porque tenha chegado meu momento, o do reconhecimento sobre perder certas lutas, o de não fazer parte de certas escolhas e de não olhar certas luas. Agora tudo isso faz parte da minha alma em silêncio e silêncio é um lugar, não a falta de som. É a manifestação em si de um sorriso aqui, de um sinal ali, tudo impermanentemente indo ou vindo. É um dueto, canto por mim, vivo a partir do sem e torço para que teu sono venha depois de um dia bonito.

O nome do livro? “Onde meu Coração foi Parar” me pareceu o mais adequado. É sobre o encontro de um homem com seu amor essencial. Não magnitudes, não perfeições, nada para sempre, quem sabe um instante feliz. Espero que tenha a força da onda sob a inspiração da brisa, que se torna tornado. Depois o resultante das águas, a história das praias e o silenciar sereno do incrível e do lendário. Não é a Odisseia. Mas saber que escolho eu e você em Ítaca é um bom começo.